domingo, 18 de julho de 2010

RÉQUIEM PARA CLARICE LISPECTOR

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“Enquanto escrever e falar vou ter que fingir que alguém está segurando a minha mão. Oh, pelo menos no começo, só no começo. Logo que puder dispensá-la irei sozinha. Por enquanto preciso segurar esta tua mão - mesmo que não consiga inventar teu rosto e teus olhos e tua boca. Mas embora decepada, esta mão não me assusta. A invencão dela vem de tal idéia de amor como se a mão estivesse realmente ligada a um corpo que, se não vejo, é por incapacidade de amar mais. Não estou à altura de imaginar uma pessoa inteira porque não sou uma pessoa inteira."
[A Paixão Segundo G.H.]
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Como? Mas como é que eu escrevi nove livros e em nenhum deles eu vos disse: Eu vos amo? Eu amo quem tem paciência de esperar por mim e pela minha voz que sai através da palavra escrita. Sinto-me de repente tão responsável. Porque se sempre eu soube usar a palavra - embora às vezes gaguejando - então sou uma criminosa se não disser, mesmo de um modo sem jeito, o que quereis ouvir de mim. O que será que querem ouvir de mim? Tenho o instrumento na mão e não sei tocá-lo, eis a questão. Que nunca será resolvida. Por falta de coragem? Devo por contenção ao meu amor, devo fingir que não sinto o que sinto: amor pelos outros?Para salvar esta madrugada de lua cheia eu vos digo: eu vos amo.Não dou pão a ninguém, só sei dar umas palavras. E dói ser tão pobre. Estava no meio da noite sentada na sala de minha casa, fui ao terraço e vi a lua cheia - sou muito mais lunar que solar. E uma solidão tão maior que o ser humano pode suportar, esta solidão me toma se eu não escrever eu vos amo. Como explicar que me sinto mãe do mundo? Mas dizer "eu vos amo" é quase mais do que posso suportar! Dói. Dói muito ter um amor impotente. Continuo porém a esperar.
["Adeus, vou-me embora!" de 20/04/1968 em A Descoberta do Mundo]
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"Tudo lhe servia de partida. Um pássaro que voava, lhe lembrava terras desconhecidas, fazia respirar seu velho sonho de fuga. De pensamento a pensamento, inconscientemente dirigido para o mesmo fim, chegava à noção de sua covardia, revelada não só nesse constante desejo de fugir, de não se unir às coisas para não lutar por elas, como na incapacidade de realizá-lo, já que o concebia, espedaçando sem piedade o humilhante bom senso que lhe prendia o vôo. Esse dueto consigo mesmo era o reflexo de sua essência, descobria, e por isso continuaria por toda a sua vida..."
Obsessão, in A Bela e a Fera, Clarice Lispector
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NO ENTERRO DE CLARICE LISPECTOR, 200 PESSOAS

Publicado na Folha de S.Paulo, segunda-feira, 12 de dezembro de 1977

Duzentas pessoas compareceram ao enterro da escritora Clarice Lispector no Cemitério Comunal Israelita, no Caju (RIO). Seu corpo, velado desde sexta-feira no oratório do cemitério, foi colocado no túmulo 123, da fila G. depois de ter sido purificado por quatro mulheres da Irmandade Sagrada "Hevra Kadisha", de acordo com o ritual judaico. O caixão fechado e coberto apenas por um manto negro com uma estrela de David, bordada, foi visitado pelos escritores Rubem Braga, Fernando Sabino, Nélida Piñon e José Rubem Fonseca, além do embaixador Vasco Leitão da Cunha.

Clarice, um enterro simples.

O corpo de Clarice Lispector ficou no cemitério Comunal Israelita
Numa cerimonia simples, sem discursos, na qual a família chegou até a dispensar a presença do grão-rabino Henrique Lemle, substituido pelo cantor-mór Joseph Aronsohn, a escritora e jornalista Clarice Lispector - ela completaria anteontem 53 anos de idade - foi sepultada ontem no Cemitério Comunal Israelita, no Caju. Cerca de 200 pessoas, entre parentes e amigos, acompanharam o corpo - velado desde sexta-feira no oratório do Cemitério - até o túmulo 123, da fila G, onde ao lado, repousa o corpo do deputado Francisco Silbert Sobrinho.
Antes de ser enterrado o corpo da escritora, de acordo com o ritual judaico, foi purificado, sendo lavado, interna e externamente, por quatro mulheres da Irmandade sagrada "Havra Kadisha". No oratório, o caixão, fechado, coberto apenas por um manto negro com uma Estrela de David bordada em prateado foi visitado pelos escritores Rubem Braga, Fernando Sabino, Nélida Piñon e José Rubem Fonseca e pelo embaixador Vasco Leitão da Cunha. Nélida Piñon e José Rubem Fonseca acompanharam Clarice nos seu últimos momentos no Hospital da Lagoa, onde a escritora morreu vitimada por um câncer.
Ainda no oratório, precisamente às 11 horas, o substituto do rabino deu início à liturgia lendo, em aramaico, o Salmo 91, do Artigo Testamento, seguido de cânticos em hebraico e de uma leitura, agora em português, de alguns Salmos. Ali, antes do caixão ser conduzido à sepultura, Joseph Aronsohn ainda fez a despedida do corpo, rezando o "El Molê Rachamim". De lá o caixão seguiu até o túmulo 123, onde o filho de Clarice, Paulo Gurgel Valente (o filho Pedro não compareceu por se encontrar com o pai, o embaixador Mauri Gurgel Valente, em Montevidéu) chorou, sendo constantemente amparado pelas tias Elvira e Tânia, também escritoras.
A beira do túmulo, Joseph Aronsohn, tendo ao lado Pedro Gurgel Valente, rezou o "Kadish" - oração fúnebre -, enquanto a última homenagem a Clarice Lispector era prestada com o lançamento de três pás de terra sobre o caixão, indicando que "da terra viestes, à terra voltarás". A cerimônia foi encerrada com o substituto do rabino pedindo aos presentes que se voltassem para a direita, em direção ao Oriente, indicando o sentido de Jerusalém.
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"Será essa história um dia o meu coágulo? Que sei eu. Se há veracidade nela - e é claro que a história é verdadeira embora inventada - que cada um a reconheça em si mesmo porque todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro - existe a quem falte o delicado essencial."
In A Hora da Estrela, Clarice Lispector
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"Quero escrever puro movimento"

Isto não é um lamento, é um grito de ave de rapina. Irisada e intranqüila. O beijo no rosto morto.
Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida. Viver é uma espécie de loucura que a morte faz. Vivam os mortos, porque neles vivemos.
De repente as coisas não precisam mais fazer sentido. Satisfaço-me em ser. Tu és? Tenho certeza que sim. O não sentido das coisas me faz ter um sorriso de complacência. Decerto tudo deve estar sendo o que é.
Hoje está um dia de nada. Hoje é zero hora. Existe por acaso um número que não é nada? que é menos que zero? que começa no que nunca começou porque sempre era? e era antes de sempre? Ligo-me a esta ausência vital e rejuvenesço-me todo, ao mesmo tempo contido e total. Redondo sem início e sem fim, eu sou o ponto antes do zero e do ponto final. Do zero ao infinito vou caminhando sem parar. Mas ao mesmo tempo tudo é tão fugaz. Eu sempre fui e imediatamente não era mais. O dia corre lá fora à toa e há abismos de silêncio em mim. A sombra de minha alma é o corpo. O corpo é a sombra de minha alma. Este livro é a sombra de mim. Peço vênia para passar. Eu me sinto culpado quando não vos obedeço. Sou feliz no hora errada. Infeliz quando todos dançam. Me disseram que os aleijados se rejubilam assim como me disseram que os cegos se alegram. É que os infelizes se compensam.

Nunca a vida foi tão atual como hoje: por um triz é o futuro. Tempo para mim significa a desagregação da matéria. O apodrecimento do que é orgânico como se o tempo tivesse como um verme dentro de um fruto e fosse roubando a este fruto toda a sua polpa. O tempo não existe. O que chamamos de tempo é o movimento de evolução das coisas, mas o tempo em si não existe. Ou existe imutável e nele nos transladamos. O tempo passa depressa demais e a vida é tão curta. Então – para que eu não seja engolido pela voracidade das horas e pelas novidades que fazem o tempo passar depressa – eu cultivo um certo tédio. Degusto assim cada detestável minuto. E cultivo também o vazio silêncio da eternidade da espécie. Quero viver muitos minutos num só minuto. Quero me multiplicar para poder abranger até áreas desérticas que dão a idéia de imobilidade eterna. Na eternidade não existe o tempo. Noite e dia são contrários porque são o tempo e o tempo não se divide. De agora em diante o tempo vai ser sempre atual. Hoje é hoje. Espanto-me ao mesmo tempo desconfiado por tanto me ser dado. E amanhã eu vou Ter de novo um hoje. Há algo de dor e pungência em viver o hoje. O paroxismo da mais fina e extrema nota de violino insistente. Mas há o hábito e o hábito anestesia. O aguilhão de abelha do dia florescente de hoje. Graças a Deus, tenho o que comer. O pão nosso de cada dia.

Eu queria escrever um livro. Mas onde estão as palavras? esgotaram-se os significados. Como surdos e mudos comunicamo-nos com as mãos. Eu queria que me dessem licença para eu escrever ao som harpejado e agreste a sucata da palavra. E prescindir de ser discursivo. Assim: poluição.

Escrevo ou não escrevo?

Saber desistir. Abandonar ou não abandonar – esta é muitas vezes a questão para um jogador. A arte de abandonar não é ensinada a ninguém. E está longe de ser rara a situação angustiosa em que devo decidir se há algum sentido em prosseguir jogando. Serei capaz de abandonar nobremente? ou sou daqueles que prosseguem teimosamente esperando que aconteça alguma coisa? como, digamos, o próprio fim do mundo? ou seja lá o que for, como a minha morte súbita, hipótese que tornaria supérflua a minha desistência?

Eu não quero apostar corrida comigo mesmo. Um fato. O que é que se torna um fato? Devo-me interessar pelo acontecimento? Será que desço tanto a ponto de encher as páginas com informações sobre os "fatos"? Devo imaginar uma história ou dou largas à inspiração caótica? Tanta falsa inspiração. E quando vem a verdadeira e eu não tomo conhecimento dela? Será horrível demais querer se aproximar dentro de si mesmo do límpido eu? Sim, e é quando o eu passa a não existir mais, a não reivindicar nada, passa a fazer parte da árvore da vida – é isso que luto por alcançar. Esquecer-se de si mesmo e no entanto viver tão intensamente.

Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto - e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras - quais? talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo.

Meditação leve e terna sobre o nada. Escrevo quase que totalmente liberto de meu corpo. É como se este estivesse em levitação. Meu espírito está vazio por causa de tanta felicidade. Estou tendo uma liberdade íntima que só se compara a um cavalgar sem destino pelos campos afora. Estou livre de destino. Será o meu destino alcançar a liberdade? não há não há uma ruga no meu espírito que se espraia em leves espumas. Não estou mais acossado. Isto é a graça.

Estou ouvindo música. Debussy usa as espumas do mar morrendo na areia, refluindo e fluindo. Bach é matemático. Mozart é o divino impessoal. Chopin conta a sua vida mais íntima. Schoenberg, através de seu eu, atinge o clássico eu de todo o mundo. Beethoven é a emulsão humana em tempestade procurando o divino e só o alcançando na morte. Quanto a mim, que não peço música, só chego ao limiar da palavra nova. Sem coragem de expô-la. Meu vocabulário é triste e às vezes wagneriano-polifônico-paranóico. Escrevo muito simples e muito nu. Por isso fere. Sou uma paisagem cinzenta e azul. Elevo-me na fonte seca e na luz fria.

Quero escrever esquálido e estrutural como o resultado de esquadros, compassos e agudos ângulos de estreito enigmático triângulo.

"Escrever" existe por si mesmo? Não. É apenas o reflexo de uma coisa que pergunta. Eu trabalho com o inesperado. Escrevo como escrevo sem saber como e por quê - é por fatalidade de voz. O meu timbre sou eu. Escrever é uma indagação. É assim:?

Será que estou me traindo? será que estou desviando o curso de um rio? Tenho que ter confiança nesse rio abundante. Ou será que ponho uma barreira no curso do rio? Tento abrir as comportas, quero ver a água jorrar com ímpeto. Quero que cada frase deste livro seja um clímax.

Eu tenho que ter paciência pois os frutos serão surpreendentes...

Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres - Clarice Lispector
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É para lá que eu vou...
Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto - é para lá que eu vou.
À ponta do lápis o traço.
Onde expira um pensamento está uma idéia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia - é para lá que eu vou.
Na ponta dos pés o salto.
Parece a história de alguém que foi e não voltou - é para lá que eu vou.
Ou não vou? Vou, sim. E volto para ver como estão as coisas. Se continuam mágicas. Realidade? eu vos espero. E para lá que eu vou.
Na ponta da palavra está a palavra. Quero usar a palavra "tertúlia" e não sei aonde e quando. À beira da tertúlia está a família. À beira da família estou eu. À beira de eu estou mim. É para mim que eu vou. E de mim saio para ver. Ver o quê? ver o que existe. Depois de morta é para a realidade que vou. Por enquanto é sonho. Sonho fatídico. Mas depois - depois tudo é real. E a alma livre procura um canto para se acomodar. Mim é um eu que anuncio.
Não sei sobre o que estou falando. Estou falando de nada. Eu sou nada. Depois de morta engrandecerei e me espalharei, e alguém dirá com amor meu nome.
É para o meu pobre nome que vou.
E de lá volto para chamar o nome do ser amado e dos filhos. Eles me responderão. Enfim terei uma resposta. Que resposta? a do amor. Amor: eu vos amo tanto. Eu amo o amor. O amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.
À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo.
Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto.
Oh, cachorro, cadê tua alma? está à beira de teu corpo? Eu estou à beira de meu corpo. E feneço lentamente.
Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós.
in "Onde estivestes de noite" - 7ª Ed. - Ed. Francisco Alves - Rio de Janeiro - 1994.
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"De Ulisses ela aprendera a ter coragem de ter fé – muita coragem, fé em quê? Na própria fé, que a fé pode ser um grande susto, pode significar cair no abismo, Lóri tinha medo de cair no abismo e segurava-se numa das mãos de Ulissses enquanto a outra mão de Ulisses empurrava-a para o abismo - em breve ela teria que soltar a mão menos forte do que a que a empurrava, e cair, a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre. A mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser Humano."
Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres.
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Um vislumbre do fim

“Uma vez eu irei. Uma vez irei sozinha, sem minha alma dessa vez. O espírito, eu o terei entregue à família e aos amigos com recomendações. Não será difícil cuidar dele, exige pouco, às vezes se alimenta com jornais mesmo. Não será difícil levá-lo ao cinema, quando se vai. Minha alma eu a deixarei, qualquer animal a abrigará: serão férias em outra paisagem, olhando através de qualquer janela dita da alma, qualquer janela de olhos de gato ou de cão. De tigre, eu preferiria. Meu corpo, esse serei obrigada a levar. Mas dir-lhe-ei antes: vem comigo, como única valise, segue-me como um cão. E irei à frente, sozinha, finalmente cega para os erros do mundo, até que talvez encontre no ar algum bólide que me rebente. Não é a violência que eu procuro, mas uma força ainda não classificada mas que nem por isso deixará de existir no mínimo silêncio que se locomove. Nesse instante há muito que o sangue já terá desaparecido. Não sei como explicar que, sem alma, sem espírito, e um corpo morto — serei ainda eu, horrivelmente esperta. Mas dois e dois são quatro e isso é o contrário de uma solução, é beco sem saída, puro problema enrodilhado em si. Para voltar de ‘dois e dois são quatro’ é preciso voltar, fingir saudade, encontrar o espírito entregue aos amigos, e dizer: como você engordou! Satisfeita até o gargalo pelos seres que mais amo. Estou morrendo meu espírito, sinto isso, sinto...”
Textos extraídos do livro Aprendendo a viver, Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004.

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Em fevereiro de 1977, é contratada pelo jornal Última Hora para assinar uma crônica semanal. Nesse mesmo mês, Clarice concede sua última entrevista a Júlio Lerner, da TV Cultura de São Paulo, que só seria veiculada no dia 28 de dezembro. Coube a ele fazer a última entrevista dada a um veículo da grande imprensa pela nossa maior escritora de todos os tempos, Clarice Lispector. A entrevista é um momento de reflexão sobre o ofício do escritor.
Numa dada altura o entrevistador pergunta a Clarice se ela morreria se parasse de escrever, lembrando do famoso critério de Rainer Maria Rilke para saber se uma pessoa é escritora ou não.
Clarice responde da seguinte forma: "Eu acho que quando eu não escrevo, eu estou morta. muito duro o período entre um trabalho e outro, e ao mesmo tempo necessário para haver uma espécie de esvaziamento da cabeça para poder nascer alguma outra coisa. E se nascer ... tudo é tão incerto."
Mais à frente Lerner pergunta: normalmente que tipo de problema Clarice Lispector escritora traz a você? E ela responde: "Às vezes me considerar escritora me isola. Põem-me um rótulo. Às vezes as pessoas olham por esse rótulo. Tudo que eu digo, a maior bobagem, tudo é considerado ou uma coisa linda ou uma coisa boba, por conta de eu ser escritora. É por isso que eu não ligo muito para essa coisa de eu ser escritora, e dar entrevista, e tudo. É porque eu não sou isso."




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Sou uma iniciada sem seita.
Água Viva (1973)

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Os MISTÉRIOS DE CLARICE
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Quem escreveu: “Sou tão misteriosa que não me entendo”, não poderia mesmo ser facilmente interpretada. Contudo, até as mais impenetráveis esfinges se preocupam em oferecer, aqui e ali, pistas para a decifração de seus enigmas. Os textos de Clarice Lispector estão repletos de chaves e senhas, mesmo que estas porventura abram apenas caixas que escondem outras caixas, que escondem outras caixas que escondem outras caixas... As pistas que possibilitavam rastrear o caminho até seu eu profundo, Clarice concedia apenas aos familiares e aos amigos íntimos, mas poucos foram os que as seguiram até o fim, imbuídos da certeza de que não convém decifrar certos mistérios para não lhes embaçar o esplendor.
É difícil definir bem a própria irmã. Sempre fomos muito unidas, Clarice, Tânia e eu. Lembro-me que na infância, Clarice demonstrou logo ser independente, imaginativa e cheia de ternura. Tivemos todas uma vida muito agradável e feliz no Recife, e temos muitas saudades daqueles tempos. Embora casadas, e muitas vezes morando muito longe, estávamos sempre em contato umas com as outras, seja por carta, ou telefone. O que mais impressiona em Clarice não é fato de ser irmã, e ótima como sempre foi, mas como tornou-se mãe maravilhosa. Sua maior qualidade é ser absolutamente realizada em casa. Sua sensibilidade extremamente apurada capta as sutis reações dos filhos, atendendo-os e amparando-os em todas as situações. Fora isso, gosta de música, não é gulosa, e é sobretudo um tanto frugal. Não é política, e antes de tudo, é uma dedicadíssima dona de casa. Provando assim que uma mulher pode se realizar em dois setores diferentes em grande escala.
Clarice pela irmã, Elisa Lispector, em depoimento para a matéria Na Berlinda, publicada em março de 1963 em jornal carioca ainda não identificado [provavelmente Última Hora, a julgar pelo padrão gráfico]. Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa.
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Clarice Lispector deixou de ser um nome para ser um fenômeno de nossa literatura. Um fenômeno com todas as características de um estado emocional, quero dizer, que as admiradoras de Clarice entram em transe à simples menção de seu nome. Não querem escrever artigos, querem fazer teses. Não querem notas, querem livros. E a grande autora de “Perto do Coração Selvagem” transformou-se num monstro sagrado, ela que desejava apenas ser uma escritora humana. Clarice para mim é a autora de “Perto do Coração Selvagem” e de “O Lustre”, dois romances que eu gostaria de ver mais lidos e estudados. Também é autora dos contos admiráveis de “Laços de Família”. E por que não a de “A maçã no escuro”? Não, não é esta nem a de “Cidade sitiada”. Alguns acham que eu tenho má vontade com esses dois romances. É que quase ninguém sabe que Clarice Lispector, com “O Lustre”, se tornou uma das minhas mais violentas paixões literárias. E quem ama exige.
Clarice Lispector pelo crítico e ensaísta, ganhador do Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, Fausto Cunha, em depoimento para a matéria Na Berlinda, publicada em março de 1963 em jornal carioca ainda não identificado [provavelmente Última Hora, a julgar pelo padrão gráfico]. Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa.
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A partir do conhecimento que um amigo nos oferece começamos a compreender a necessidade de acumular tudo aquilo que — um receber explicando o que se entrega — nos ajuda a elaborar o que se é. Não há dádiva compensando-se como esta. Talvez por isto tenha-se pudor de explicar porque se admira, porque apenas se quer bem — quando, do outro lado, existente e integral, encontra-se Clarice Lispector, quando a linguagem acessível, onde nem mesmo se dispensa o embaraço, é tanto mais aquela que sem esclarecer sente-se constrangida apenas de reconhecer. A tarefa de identificar Clarice Lispector é extremamente penosa: não é fácil atribuir-lhe o que ela própria ultrapassa, ou retirar-lhe aquilo que tão naturalmente ela ilumina, na sua constante vigília de gente. Não sei confessar admiração que se abastece cada vez mais na sua parte humana, onde a generosidade, nobreza, bondade obrigam-me a aceitar apenas o que idealisticamente recebera crédito — pois certas aprendizagens são sempre imperfeitas na sua arrecadação. Nunca silenciei, no entanto, quanto ao seu desempenho de criadora. Considerei-a sempre, cada vez com um entusiasmo mais moderado e por isso mesmo menos sujeito a transformações, uma escritora insuperável, cuja categoria intelectual, para vergonha nossa, ainda não foi devida e necessariamente reconhecida. Embora dissesse pouco, apenas no silêncio vai-se ao encontro de um amigo.
Clarice Lispector pela escritora, jornalista e professora Nélida Piñon, em depoimento para a matéria Na Berlinda, publicada em março de 1963 em jornal carioca ainda não identificado [provavelmente Última Hora, a julgar pelo padrão gráfico]. Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa.

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Na última fase da vida de Clarice surgiram outros, mas desde o princípio de sua vida literária fui de seus melhores amigos. Recentemente minha mulher, encarregada de uma exposição sobre ela na Casa de Cultura Laura Alvim, por ocasião dos dez anos de sua morte, ficou surpreendida ao verificar, consultando o acervo na Casa de Rui Barbosa, que a parte substancial da sua correspondência eram as cartas trocadas comigo ao longo da vida.Em 1943 recebi em Belo Horizonte um exemplar com dedicatória de um romance chamado Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector, que eu não sabia quem era. Também não sabia por recomendação de quem, talvez de Lúcio Cardoso.Fiquei deslumbrado com o livro.Rubem Braga conheceu Clarice em Nápoles durante a guerra — Maury Gurgel valente, seu marido, servia lá como diplomata. Quando ela veio ao Brasil, Rubem nos apresentou um ao outro.Fiquei deslumbrado com ela.Imediatamente nos tornamos amigos, de encontro diário, enquanto ela esteve aqui. Depois que deixou o país, a amizade continuou, intensamente vivida através de cartas, com uma freqüência ás vezes semanal, de 1946 a 1969 — durante 23 anos, portanto.Trocávamos idéias sobre tudo. Submetíamos nossos trabalhos um ao outro. Juntos reformulávamos nossos valores e descobríamos o mundo, ébrios de mocidade. Era mais do que a paixão pela literatura, ou de um pelo outro, não formulada, que unia dois jovens “perto do coração selvagem da vida”: o que transparece em nossas cartas, que reli recentemente, é uma espécie de pacto secreto entre nós dois, que nos fazia solidários ante o enigma que o futuro reservava para nosso destino de escritores.Tornei-me uma espécie de agente literário de Clarice no Brasil. Andava às voltas com editoras para os seus livros e encaminhando seus contos para revistas. Como Senhor, por exemplo, dirigida por Paulo Francis e Nahum Sirotsky, aos quais a apresentei, numa visita que fizemos à redação da revista, na rua Santa Clara, quando ela voltou ao Brasil.Levei-a também para os Cadernos de cultura, excelente coleção dirigida por Simeão Leal no Ministério da Educação. Saiu uma edição com o título Mistério em São Cristóvão e com um erro no nome da autora — Clarice com dois SS —, que por causa disso recolhemos, hoje uma raridade. Depois saiu outra, chamada Alguns contos, com o nome certo.Nos originais que ela me enviou de Washington, onde passou a morar, do romance A maçã no escuro, título que sugeri — ia se chamar A veia no pulso —, fiz 340 sugestões... Ela aceitou praticamente todas. Acabei sendo eu próprio seu editor, com Rubem Braga, na Editora do Autor e a Editora Sabiá.
Lembrança de Clarice pelo escritor, cronista, editor, produtor e diretor Fernando Sabino. Foi um dos mais fiéis e dedicados amigos de Clarice, empenhando-se em encontrar editor para seus livros e publicando-os depois em sua própria editora, a Sabiá. Texto extraído de O tabuleiro de damas. Trajetória do menino ao homem feito. Rio de Janeiro: Editora Record, 1988.
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Clarice Lispector é uma coisa escondida sozinha num canto, esperando, esperando. Clarice Lispector só toma café com leite. Clarice Lispector saiu correndo correndo no vento na chuva, molhou o vestido perdeu o chapéu. Clarice Lispector é engraçada! Ela parece uma árvore. Todas as vezes que ela atravessa a rua bate uma ventania, um automóvel vem, passa por cima dela e ela morre. Me escreva uma carta de 7 páginas, Clarice.
Clarice Lispector, por Fernando Sabino. O escritor já havia terminado sua longa carta, tendo, inclusive, assinado-a. Mas, parece que ao perceber que ainda resta meia folha disponível, lançou-se nesse improviso lírico, assinando-o ao final. Carta manuscrita, enviada de Nova York e datada de 10 de junho de 1946. Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa.
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Porisso (sic) não te posso mandar nenhuma palavra animadora. Digo apenas que não concordo com você quando você diz que faz arte apenas porque “tem um temperamento infeliz e doidinho”. Tenho uma grande, uma enorme esperança em você e já te disse que você avançou na frente de nós todos, passou pela janela, na frente deles todos. Apenas desejo intensamente que você não avance demais para não cair do outro lado. Você tem de ser equilibrista até o fim da vida. E suando muito, apertando o cabo da sombrinha aberta, com medo de cair, olhando a distância do arame já percorrido e do arame a percorrer — e sempre tendo de exibir para o público um falso sorriso de calma e facilidade. Tem de fazer isso todos os dias, para os outros como se na vida não tivesse feito outra coisa, para você como se fosse sempre a primeira vez, e a mais perigosa. Do contrário seu número será um fracasso.
Carta de Fernando Sabino, enviada de Nova York em 6 de julho de 1946.. Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa.

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Entrevistas:
O depoimento da escritora Clarice Lispector foi gravado no dia 20 de outubro de 1976, na sede do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. Atuaram como entrevistadores a jornalista e escritora Marina Colasanti; o poeta, crítico e professor Affonso Romano de Sant’Anna e o diretor do MIS, João Salgueiro. Leia abaixo trechos da entrevista .A entrevista na íntegra pode ser lida na coletânea Outros escritos (2005), da editora Rocco.

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Affonso Romano de Sant’Anna: Clarice, vamos começar com alguns dados biográficos?

Clarice Lispector: Eu nasci na Ucrânia, mas já em fuga. Meus pais pararam em uma aldeia que nem aparece no mapa, chamada Tchetchelnik, para eu nascer, e vieram para o Brasil, onde cheguei com dois meses de idade. De modo que me chamar de estrangeira é bobagem. Eu sou mais brasileira do que russa, obviamente.

Affonso Romano de Sant’Anna: As pessoas te chamam de estrangeira por causa do sotaque?

Clarice Lispector: Por causa do “erre”. Pensam que é sotaque, mas não é. É língua presa. Poderiam ter cortado, mas é muito difícil, pois é um lugar sempre úmido, então dificilmente cicatrizaria. Agora deixa ficar.

João Salgueiro: Você tem irmãos, Clarice?

Clarice Lispector: Duas irmãs: Elisa Lispector e Tânia Kaufman. Bem, aqui no Brasil fomos para o Recife... Olha, eu não sabia que era pobre, você sabe?

Marina Colasanti: Você nunca disse isso inclusive. Eu nunca li isso dito por você.

Clarice Lispector: Eu era muito pobre. Filha de imigrantes.

Affonso Romano de Sant’Anna: O que seus pais faziam na Ucrânia?

Clarice Lispector: O meu pai trabalhava na lavoura e, quando chegou ao Rio, ele foi trabalhar com representação de firmas.

Affonso Romano de Sant’Anna: Mas havia alguma formação artístico-literária na família que tivesse te levado à literatura?

Clarice Lispector: Não. Agora, no dia do casamento do meu filho, Paulo Gurgel Valente, uma meio tia minha, que estava no casamento, chegou junto a mim e me deu a melhor coisa do mundo. Ela disse: “Você sabe que sua mãe escrevia? Ela escrevia diários”.

Affonso Romano de Sant’Anna: Você tem notícia de que alguém tenha guardado esses diários?

Clarice Lispector: Não, nada. Minha mãe era paralítica e eu morria de sentimento de culpa, porque pensava que tinha provocado isso quando nasci. Mas disseram que ela já era paralítica antes... Nós éramos bastante pobres. Eu perguntei um dia desses à Elisa, que é a mais velha, se nós passamos fome e ela disse que quase. Havia em Recife, numa praça, um homem que vendia uma laranjada na qual a laranja tinha passado longe. Isso e um pedaço de pão era o nosso almoço.

Marina Colasanti: Você não tinha lembrança disso, Clarice?

Clarice Lispector: Olha, eu não tinha consciência. Eu era tão alegre que escondia de mim a dor de ver minha mãe assim... Eu era tão viva!

Affonso Romano de Sant’Anna: O lançamento do seu primeiro livro, Perto do Coração Selvagem, em 1944, causou um certo impacto na crítica brasileira.

Clarice Lispector: Virgem Maria, e se causou. Minha irmã Tânia juntou as críticas, um livro grosso desse tamanho. Eu já estava fora, estava casada...

Affonso Romano de Sant’Anna: Você já estava fora do país?

Clarice Lispector: Não, estava em Belém, no Pará. Publiquei e dez dias depois estava em Belém, quer dizer, sem contato com escritores, e boba com as críticas. Inclusive uma de Sérgio Milliet, que foi o que mudou a opinião do Álvaro Lins. Eu tinha perguntado a ele se valia a pena publicar. Ele então respondeu: “Telefone daqui a uma semana”. Aí eu telefonei e ele disse: “Olha, eu não entendi seu livro, não. Mas fala com Otto Maria Carpeaux, é capaz dele entender”. Eu não falei com ninguém e publiquei assim mesmo. O livro havia sido rejeitado pela José Olympio, e essa edição foi um arranjo com A Noite. Eu não pagava nada, mas também não ganhava: se houvesse lucro era deles.

Marina Colasanti: Você partiu para esse livro com uma estrutura de romance já visualizada ou trabalhou primeiro formando pedaços que montou num romance?

Clarice Lispector: Olha... Alguém me dá um cigarro?... Obrigada. Eu tive que descobrir meu método sozinha. Não tinha conhecidos escritores, não tinha nada. Por exemplo, de tarde no trabalho ou na faculdade, me ocorriam idéias e eu dizia: “Tá bem, amanhã de manhã eu escrevo”. Sem perceber ainda que, em mim, fundo e forma é uma coisa só. Já vem a frase feita. E assim, enquanto eu deixava “para amanhã”, continuava o desespero toda manhã diante do papel em branco. E a idéia? Não tinha mais. Então, eu resolvi tomar nota de tudo o que me ocorria. E contei ao Lúcio Cardoso, que então eu conheci, que eu estava com um montão de notas assim, separadas, para um romance. Ele disse: “Depois faz sentido, uma está ligada a outra”. Aí eu fiz. Estas folhas “soltas” deram Perto do Coração Selvagem.

Affonso Romano de Sant’Anna: O que a crítica sempre exaltou no seu trabalho é que você surgiu com um estilo pronto: não era um estilo em progresso. Em Perto do Coração Selvagem você já era Clarice Lispector e era ainda uma menininha de dezessete, dezoito anos.

Clarice Lispector: Engraçado que eu não tenha tido influências. Já estava guardado dentro de mim. Eu já tinha escrito contos antes disso.

Affonso Romano de Sant’Anna: Há uma influência que parece que você mesma reconheceu uma vez, se não de influência direta, pelo menos de leitura constante sua, que era O Lobo da Estepe, do Herman Hesse.

Clarice Lispector: Isso eu li aos treze anos. Fiquei feito doida, me deu uma febre danada, e eu comecei a escrever. Escrevi um conto que não acabava mais e que eu não sabia como fazer muito bem, então rasguei e joguei fora.

Marina Colasanti: Você rasga muita coisa?

Clarice Lispector: Agora eu aprendi a não rasgar nada. Minha empregada, por exemplo, tem ordem de deixar qualquer pedacinho de papel com alguma coisa escrita lá como está.

Marina Colasanti: E o que faz com que você escreva livros infantis esporadicamente?

Clarice Lispector: Bom, primeiro, meu filho Paulo, em Washington...

João Salgueiro: Quantos filhos você tem?

Clarice Lispector: Dois. Um está morando com o pai e o outro está casado, mora aqui no Rio, Pedro e Paulo Gurgel Valente. Quando eu estava escrevendo A Maça no Escuro, em Washington, meu filho Paulo me pediu, em inglês, — eu falava em português com ele, mas ele falava comigo em inglês — que escrevesse uma história para ele, e eu respondi: “Depois”. Mas ele disse: “Não, agora”. Então tirei o papel da máquina e escrevi O Mistério do Coelho Pensante, que é uma história real, uma coisa que ele conhecia. Aí ficou lá. Eu escrevi em inglês para que a empregada pudesse ler para ele, que nessa época não era alfabetizado ainda... Eu já perguntei a um médico se é normal ter tantas idéias ao mesmo tempo e ele me disse que todo mundo tem, por isso é que eu me perco. Eu não sei mais o que estava falando... Ah! Aí a história ficou lá. Passado um tempo, um escritor paulista, eu nem sei o nome mais, que organizava livros infantis, me perguntou se eu tinha algum. Eu disse que não. De repente me lembrei que tinha a história do coelho e que era só traduzir para o português, o que eu mesma fiz.

João Salgueiro: Clarice, vamos fazer uma cronologia da sua obra: seu primeiro livro foi Perto do Coração Selvagem, em 1944; a seguir veio O Lustre, que já estava até escrito, mas só foi publicado em 1946; depois A Cidade Sitiada, em 1949.

Clarice Lispector: A Cidade Sitiada foi, inclusive, um dos meus livros mais difíceis de escrever porque exigiu uma exegese que eu não sou capaz de fazer. É um livro denso, fechado. Eu estava perseguindo uma coisa e não tinha quem dissesse o que era. San Thiago Dantas abriu o livro, leu e pensou: “Coitada da Clarice, caiu muito”. Dois meses depois, ele me contou que, ao ir dormir, quis ler alguma coisa e o pegou. Então ele me disse: “É o seu melhor livro”.

Affonso Romano de Sant’Anna: Qual foi a motivação que te levou a escrever esse livro.

Clarice Lispector: É a formação de uma cidade, a formação de um ser humano dentro de uma cidade. Um subúrbio crescendo, um subúrbio com cavalos, tudo tão vital... Construíram uma ponte, construíram tudo e de modo que já não era subúrbio. Então o personagem dá o fora.

Affonso Romano de Sant’Anna: Como foi o processo de criação desse livro? Você partiu de uma idéia determinada ou foi juntando textos também?

Clarice Lispector: Foi tudo meio cegamente... Eu elaboro muito insconscientemente. Ás vezes pensam que eu não estou fazendo nada. Estou sentada numa cadeira e fico. Nem eu mesma sei que estou fazendo alguma coisa. De repente vem uma frase...

Marina Colasanti: Inclusive você tem um tempo físico de aquecimento, não é? Uma vez você me disse que acorda muito cedo de manhã, praticamente de madrugada, e não vai logo escrever. Fica andando pela casa, tomando café.

Clarice Lispector: É isso sim. Fico olhando, bobando...

Marina Colasanti: Fazendo um cooper literário interior... (risos)

Clarice Lispector: Depois de A Cidade Sitiada veio A Maçã no Escuro, que foi escrito... Foi engraçado, porque eu escrevi por duas vezes dois livros ao mesmo tempo. Laços de Família e A Maçã no Escuro foram escritos ao mesmo tempo. Eu ia para um conto, escrevia e voltava para A Maçã no Escuro. Mais tarde, isso aconteceu de novo com um livro que não é grande coisa: Onde Estivestes de Noite? e não me lembro qual outro, que eu escrevi também ao mesmo tempo.

Affonso Romano de Sant’Anna: Foi A Via Crucis do Corpo?

Clarice Lispector: Não foi, não.

Affonso Romano de Sant’Anna: A Maçã no Escuro sempre me impressionou muito. Aliás, dos seus livros foi o que mais me impressionou. Lembro que em 1960 ou 61, em torno disso, você foi a Belo Horizonte para uma tarde de autógrafos. Eu tinha publicado um livro de ensaios, ainda como estudante de letras, e tinha um ensaio sobre ele. E lá eu, jovialmente, insistia com você sobre as raízes do livro. Porque eu achava o livro tão bem estruturado no sentido de...

Clarice Lispector: Foi o único livro bem estruturado que eu escrevi, eu acho. Se bem que não: Água Viva segue o mesmo curso.

Affonso Romano de Sant’Anna: Exato. Era como se você tivesse estudado, até profundamente, uma série de assuntos sobre linguagem, uma série de informações contextuais que são importantes. Eu lembro de que você tinha me dito que não, que tinha escrito tudo num certo jato bastante individual de produção.

Clarice Lispector: É. Eu não estou muito a par das escolas e tudo, não.

Affonso Romano de Sant’Anna: Entre Ermelinda e Vitória, dentro de A Maçã no Escuro, qual é mais Clarice?

Clarice Lispector: Talvez Ermelinda, porque ela era frágil e medrosa. Vitória era uma mulher que eu não sou... Eu sou o Martim.

Affonso Romano de Sant’Anna: Exatamente. Teu livro na verdade é uma grande parábola. É uma parábola do indivíduo em busca da consciência, em busca de sua linguagem.

Clarice Lispector: Se fazendo. Tanto que a primeira parte se chama “Como nasce o mundo”. A segunda é “O nascimento do herói”, porque já era homem e queria ser herói. E a terceira é “A maçã no escuro”.

Affonso Romano de Sant’Anna: Você sabia que a Clarice é uma tremenda bruxa? (risos)
Clarice Lispector: Ah, isso foi um crítico, não me lembro de que país latino-americano, que disse que eu usava as palavras não como escritora, mas como bruxa. Daí talvez o convite para participar do Congresso de Bruxaria da Colômbia. Me convidaram e eu fui.

Marina Colasanti: A única bruxa brasileira. (risos)

Affonso Romano de Sant’Anna: Mas conte sobre as suas relações com a bruxaria, Clarice. Se você tivesse que introduzir o leitor nestes mistérios, quais seriam os dados?

Clarice Lispector: Não tem, não tem!

João Salgueiro: A idéia de bruxaria nasceu do crítico, e você não a desenvolveu?

Clarice Lispector: Nada, nada. Foi inconseqüente, inclusive estranhei o clima em Bogotá, na Colômbia. Tinha dores de cabeça, e, um dia, me tranquei no quarto, fiquei sozinha. Não atendia telefone, só chamava para comida e bebida. Estava achando tudo muito enjoado. Eu enjôo muito facilmente das coisas...

Affonso Romano de Sant’Anna: Como é que foi a sua apresentação lá?

Clarice Lispector: Disseram que queriam um texto meu. Eu não sabia fazer um texto sobre bruxaria porque não sou bruxa, não é? Então, traduzi para o inglês O Ovo e a Galinha. Aí eu pedi a um fulano de tal, que eu não me lembro o nome, para ler. Ele tinha a tradução espanhola. A maior parte das pessoas não sabe o que foi lido, não entendeu nada. Agora, um americano ficou tão alucinado que me pediu uma cópia daquele conto
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Entrevista com Lygia Fagundes Telles:
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Você sabe o que uma famosa escritora disse para a outra? Se não sabe, leia o que Clarice Lispector perguntou e Lygia Fagundes Telles respondeu. Mas o final dessa conversa poderá ser na Academia.
Eu pretendia ir a São Paulo para entrevistar Lygia Fagundes Telles, pois valia a pena a viagem. Mas acontece que ela veio ao Rio para lançar seu novo livro, Seminário dos ratos. Entre parênteses, já comecei a ler e me parece de ótima qualidade. O fato dela vir ao Rio, o que me facilitaria as coisas, combina com Lígia: ela nunca dificulta nada. Conheço a Lygia desde o começo do sempre. Pois não me lembro de ter sido apresentada a ela. Nós nos adoramos. As nossas conversas são francas e as mais variadas. Ora se fala em livros, ora se fala sobre maquilagem e moda, não temos preconceitos. Às vezes se fala em homens.

Lygia é um best-seller no melhor sentido da palavra. Seus livros simplesmente são comprados por todo o mundo. O jeito dela escrever é genuíno pois se parece com o seu modo de agir na vida. O estilo e Lygia são muito sensíveis, muito captadores do que está no ar, muito femininos e cheios de delicadeza. Antes de começar a entrevista, quero lembrar que na língua portuguesa, ao contrário de muitas outras línguas, usam-se poetas e poetisas, autor e autora. Poetisa, por exemplo, ridiculariza a mulher-poeta. Com Lygia, há o hábito de se escrever que ela é uma das melhores contistas do Brasil. Mas do jeitinho como escrevem parece que é só entre as mulheres escritoras que ela é boa. Erro. Lygia é também entre os homens escritores um dos escritores maiores. Sabe-se também que recebeu na França (com um conto seu, num concurso a que concorreram muitos escritores da Europa) um prêmio. De modo que falemos dela como ótimo autor. Lygia ainda por cima é bonita.
Comecemos pois:
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– Como nasce um conto? Um romance? Qual é a raiz de um texto seu?
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– São perguntas que ouço com freqüência. Procuro então simplificar essa matéria que nada tem de simples. Lembro que algumas idéias podem nascer de uma simples imagem. Ou de uma frase que se ouve por acaso. A idéia do enredo pode ainda se originar de um sonho. Tentativa vã de explicar o inexplicável, de esclarecer o que não pode ser esclarecido no ato da criação. A gente exagera, inventa uma transparência que não existe porque – no fundo sabemos disso perfeitamente – tudo é sombra. Mistério. O artista é um visionário. Um vidente. Tem passe livre no tempo que ele percorre de alto a baixo em seu trapézio voador que avança e recua no espaço: tanta luta, tanto empenho que não exclui a disciplina. A paciência. A vontade do escritor de se comunicar com o seu próximo, de seduzir esse público que olha e julga. Vontade de ser amado. De permanecer. Nesse jogo ele acaba por arriscar tudo. Vale o risco? Vale se a vocação for cumprida com amor, é preciso se apaixonar pelo ofício, ser feliz nesse ofício. Se em outros aspectos as coisas falham (tantas falham) que ao menos fique a alegria de criar.

– Para mim a arte é uma busca, você concorda?
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– Sim, a arte é uma busca e a marca constante dessa busca é a insatisfação. Na hora em que o artista botar a coroa de louros na cabeça e disser, estou satisfeito, nessa hora mesmo ele morreu como artista. Ou já estava morto antes. É preciso pesquisar, se aventurar por novos caminhos, desconfiar da facilidade com que as palavras se oferecem. Aos jovens que desprezam o estilo, que não trabalham em cima do texto porque acham que logo no primeiro rascunho já está ótimo, tudo bem – a esses recomendo a lição maior que está inteira resumida nestes versos de Carlos Drummond de Andrade:
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Chega mais perto e contempla as palavras
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta
pobre ou terrível que lhe deres
Trouxeste a chave?
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– Você, Clarice, que é dona de um dos mais belos estilos da nossa língua, você sabe perfeitamente que apoderar-se dessa chave não é assim simples. Nem fácil, há tantas chaves falsas. E essa é uma fechadura toda cheia de segredos. De ambigüidades.
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– Fale-nos do Seminário dos ratos.

– Procurei uma renovação de linguagem em cada conto desse meu livro, quis dar um tratamento adequado a cada idéia: um conto pode dar assim a impressão de ser um mero retrato que se vê e em seguida esquece. Mas ninguém vai esquecer esse conto-retrato se nesse retrato houver algo mais além da imagem estática. O retrato de uma árvore é o retrato de uma árvore. Contudo, se a gente sentir que há alguém atrás dessa árvore, que detrás dela alguma coisa está acontecendo ou vai acontecer, se a gente sentir, intuir que na aparente imobilidade está a vida palpitando no chão de insetos, ervas – então esse será um retrato inesquecível. O escritor – ai de nós – quer ser lembrado através do seu texto. E a memória do leitor é tão fraca. Leitor brasileiro, então, tem uma memória fragilíssima, tão inconstante. O padre Luís (um padre santo que fez a minha primeira comunhão, foi ele quem me apresentou a Deus) me contou que um dia conduziu uma procissão no Rio. A procissão saía de uma igreja do Posto Um, dava uma volta por Copacabana e retornava em seguida. Muita gente, todo mundo cantando, velas acesas. Mas à medida que a procissão ia avançando, os fiéis iam ficando pelas esquinas, tantos botequins, tantos cafés. E o mar? Quando finalmente voltou à igreja, ele olhou para trás e viu que restara uma meia dúzia de velhos. E os que carregavam os andores. “As pessoas são muito volúveis”, concluiu padre Luís. Em outros termos, o mesmo diria Garrincha quando um mês depois de ser carregado nos ombros por uma multidão delirante, com o mesmo fervor e no mesmo estádio foi fragorosamente vaiado. Tão volúveis...
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– Isso não é pessimismo?
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– Não sou pessimista, o pessimista é um mal-humorado. E graças a Deus conservo o meu humor, sei rir de mim mesma. E (mais discretamente) do meu próximo que se envaidece com essas coisas, do próximo que enche o peito de ar, abre o leque da cauda e vai por aí, duro de vaidade. De certeza, tantas medalhas, tantas pompas e glórias, eu ficarei ! Não fica nada. Ou melhor, pode ser que fique, mas o número dos que não deixaram nem a poeira é tão impressionante que seria inocência demais não desconfiar. Sou paulista, e como o mineiro, o paulista é meio desconfiado. Então, o certo é dizer com Millôr Fernandes: “quero ser amado em Ipanema, agora, agora”. Em Ipanema vou lançar esse Seminário dos ratos. O que já é alguma coisa...
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– Como nasceu esse título?
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– Houve em São Paulo um seminário contra roedores. Lá acontecem diariamente dezenas de seminários sobre tantos temas, esse era contra os ratos. “Daqui por diante eles estarão sob controle”, anunciou um dos organizadores, e o público caiu na gargalhada, porque nessa hora exata um rato atravessou o palco. Tantos projetos fabulosos, tantas promessas. Discursos e discursos com pequenos intervalos para os coquetéis. Palavras, palavras. E de repente pensei numa inversão de papéis, ou seja, nos ratos expulsando todos e se instalando soberanos no seminário. “Que século, meu Deus”, exclamariam repetindo o poeta. E continuariam a roer o edifício. Assim nasceu esse conto.
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– Quais são os temas do livro?
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– São quatorze textos que giram em torno de temas que me envolvem desde que comecei a escrever: a solidão, o amor e o desamor. O medo. A loucura. A morte – tudo isso que aí está em redor. E em nós. Quando fico deprimida vejo claramente essas três espécies em extinção: o índio, a árvore e o escritor. Mas reajo, não sei tra- balhar sem a esperança no coração. Sou de Áries, recebo a energia do sol. E de Deus, o que vem a dar no mesmo, tenho paixão por Deus.
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– Há muita gente louca no Seminário dos ratos?
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– Sim, há um razoável número de loucos nesse meu livro e também nos outros. Mas a loucura não anda mesmo por aí galopante? “Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco representaria uma outra forma de loucura”, disse Pascal.
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– O que mais lhe perguntam?
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– Eis o que me perguntam sempre: compensa escrever? Economicamente, não. Mas compensa – e tanto – por outro lado através do meu trabalho fiz verdadeiros amigos. E o estímulo do leitor? E daí? “As glórias que vêm tarde já vêm frias”, escreveu o Dirceu de Marília. Me leia enquanto estou quente.

ESTÁTUA DE CLARICE LISPETOR EM RECIFE,CASA EM QUE ELA VIVEU NA INFÃNCIA E FOTOS DELA EM FAMÍLIA

ESTOU ADORANDO POSTAR FOTOS , TRECHOS DA OBRA DE CLARICE LISPECTOR, ENTREVISTAS QUE ELA DEU, ENFIM: UM POUCO DO MUNDO DELA PARA NÓS QUE GOSTAMOS DE BOA LITERATURA E QUE ADMIRAMOS A ESCRITORA E A ESCRITA DE CLARICE.
VANDA



CLARICE LISPECTOR NO RECIFE


Estátua de Clarice na Praça Maciel Pinheiro, Recife

* Reproduções de imagens encontradas na internet.






“Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite”.-Clarice Lispector





Clarisse Lispector - Praça Maciel Pinheiro

Clarice Lispector nasceu em Tchetchelnik, na Ucrânia, mas passou a infância com a família no Recife, em 1925, onde estudou no Ginásio Pernambucano. A escultura apresenta Clarice sentada, na Praça Maciel Pinheiro, em cadeira de espaldar iluminada por um abajur alto, com uma máquina de escrever no colo. A escultura retrata a intimidade do gesto de escrever e evoca a inspiração que Clarice Lispector foi buscar naquela praça, um lugar de sua infância.



120 Cartas de Lispector

Escrito em 08-02-2010 | Por Dani |


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O livro “Minhas Queridas” nos traz uma visão íntima e singular de um período em que a escritora Clarice Lispector morou longe de sua casa. À moda antiga, Clarice escreve cartas para suas irmãs, das quais 120 estão inclusas no livro. Elas nos fazem entender a origem de um sotaque provindo de suas prolongadas estadias por cidades como Rio de Janeiro, Nápoles, Berna e Washington, entre os anos de 1940 e 1957.

minhasqueridas

Ao longo das cartas, percebemos os fortes vínculos fraternos entre ela e suas irmãs, Tânia e Elisa, onde ela conta com grande intimidade sua vida. Relatando suas saudades e descobertas em estar distante do Brasil, ela não só traduz aqueles muitos sentimentos comuns a qualquer viajante, mas parece desvendar aqueles outros que ninguém conseguia colocar em palavras.

elisa-tania-e-clarice Elisa, Tânia e Clarice Lispector.

“Tania, Filhinha,
Minhas saudades têm estado agudas mas dentro de uma névoa - como uma sirene de noite no mar [...]“

O livro desperta um novo olhar sobre a já conhecida Lispector de alguns, que, sem o fluxo de consciência fortemente presente em Água Viva, ou a alta articulação do conto “O Ovo e a Galinha”, revela o cotidiano de uma Clarice mãe, irmã e esposa. Contudo, entre os relatos e descrições do cotidiano, Lispector não apenas revela sua vida, mas transpassa um sentimento de tantas Clarices, de tantas mulheres e de tantos aqueles que vivem longe de sua terra natal. Um livro que mais uma vez prova a universalidade da autora.

Para todos aqueles que adoram viajar, ou para aqueles que adoram viajar com uma boa leitura, “Minhas Queridas” será uma agradável livro.



FOTO DO CASARÃO ONDE CLARICE MOROU EM RECIFE.

Casa onde Clarice morou na infância. Rua do Aragão, na Boa Vista, Recife - PE.

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Casa de Clarice Lispector

ARTE: PINTURAS DE CLARICE LISPECTOR, "CLARICE É A NOSSA MARIA CALLAS"( POR HERON MOURA), "A CASA DOS LISPECTOR" ( POR COSAC NAIFY)






“Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania. Depende de quando e como você me vê passar”.

“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”.

“Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação”.

“Fique de vez em quando só, senão será submergido. Até o amor excessivo pode submergir uma pessoa”.

"Estremeço de prazer por entre a novidade de usar palavras que formam intenso matagal. Luto por conquistar mais profundamente a minha liberdade de sensações e pensamentos, sem nenhum sentido utilitário: sou sozinha, eu e minha liberdade. É tamanha a liberdade que pode escandalizar um primitivo, mas sei que não te escandalizas com a plenitude que consigo e que é sem fronteiras perceptíveis.
Esta minha capacidade de viver o que é redondo e amplo - cerco-me por plantas carnívoras e animais legendários, tudo banhado pela tosca e esquerda luz de um sexo mítico. Vou adiante de modo intuitivo e sem procurar uma idéia: sou orgânica. E não me indago sobre os meus motivos. Mergulho na quase dor de uma intensa alegria – e para me enfeitar nascem entre os meus cabelos folhas e ramagens." (...).

Clarice Lispector

Fonte dos textos:
http://www.pensador.info/autor/Clarice_Lispector/5/
Fonte da imagem:
wwwdepassagem.blogspot.com/2007/08/gua-viva-c...




http://fuinotororo.files.wordpress.com/2008/08/clarice_lispector_museu_lingua_f_00411.jpg

http://img.blogs.abril.com.br/1/lenidavid/imagens/clarice22.jpg




Recebi uma lição de um de meus filhos, antes dele fazer 14 anos. Haviam me telefonado avisando que uma moça que eu conheci ia tocar na televisão, transmitido pelo Ministério da Educação. Liguei a televisão mas em grande dúvida.

Eu conhecera essa moça pessoalmente e ela era excessivamente suave, com voz de criança, e de um feminino-infantil. E eu me perguntava: terá ela força no piano? Eu a conhecera num momento muito importante: quando ela ia escolher a "camisola do dia" para o casamento. As perguntas que me fazia eram de uma franqueza ingênua que me surpreendia. Tocaria ela piano?

Começou. E, Deus, ela possuía a força. Seu rosto era um outro, irreconhecível. Nos momentos de violência apertava violentamente os lábios. Nos instantes de doçura entreabria a boca, dando-se inteira. E suava, da testa escorria para o rosto o suor. De surpresa de descobrir uma alma insuspeita, fiquei com os olhos cheios de água, na verdade eu chorava. Percebi que meu filho, quase uma criança, notara, expliquei: estou emocionada, vou tomar um calmante. E ele:

-Você não sabe diferenciar emoção de nervosismo? Você está tendo uma emoção.

Entendi, aceitei, e disse-lhe:

-Não vou tomar nenhum calmante.

E vivi o que era para ser vivido.


Pinturas de Clarice Lispector



Luta Sangrenta pela paz - 1975







Fonte: A crônica e as fotos que ora publico foram retiradas do blogue Brigada contra a corrupção brasileira, cujo autor é muito amigo da minha irmã, Iara. Gostei muito. Também não conhecia a Clarice artista plástica. Por isso peço licença a Nando (posso chamá-lo assim?) para publicá-las. Desde já, muito obrigada, Nando!
Observação: Quando vejo as fotos de Clarice lembro do olhar da minha mãe.







Clarice por Clarice
09/01/2010

Temperamento impulsivo


“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples
infantilidade. Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”

Descoberta do amor

“[...] Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em apreender a atmosfera íntima de uma pessoa. Por outro lado, longe de precoce, estava em incrível atraso em relação a outras coisas importantes. Continuo, aliás, atrasada em muitos terrenos. Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.
Até mais que treze anos, por exemplo, eu estava em atraso quanto ao que os americanos chamam de fatos da vida. Essa expressão se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos. [...] Depois, com o decorrer de mais tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza. Já então eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvageria e muita timidez.
Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amor. [...] Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é por pudor apenas feminino.
Pois juro que a vida é bonita.”

Lúcida em excesso

“Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.”.

Fonte: encanto de renascer



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20 de fevereiro de 2010

LITERATURA

Clarice Lispector é a nossa Maria Callas

Clarice Lispector é a nossa diva, a nossa Maria Callas. É uma princesa quirguiz, com olhos urálicos e ar uzbesque. Estive, com uma amiga, na exposição sobre ela, no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília. É uma mostra muito tocante de imagens e palavras. Numa primeira seção, fotos esmaecidas em polaroide ficam por trás de vidros com textos de Clarice. As fotos de Clarice são uma literatura por si mesmas. São dois textos superpostos: o das fotos e o das obras. É impossível ver com atenção uma foto de Clarice sem criar uma mitologia: quem era essa mulher? Que tipo de beleza absurda e contida é essa?

Bastam as fotos para ver como é difícil enquadrar Clarice. Feminista? Sim, largou o marido diplomata e foi viver com os filhos no Rio de Janeiro. Mas também, claramente, uma dona de casa, que faz a feira e arruma os filhos. A forte ligação com os seus meninos é visível na exposição. Numa segunda seção da mostra, há uma sala com gavetões até o teto, e em alguns deles há documentos sobre a vida de Clarice: cartas, sobretudo. Como se pudéssemos ver a privacidade dela, como se isso fosse possível.

Ela chamava seus filhos de grilo, gafanhoto. Não posso imaginar uma mãe mais amorosa do que essa que, numa carta, manda 10 dólares para que seu filho, que está estudando nos Estados Unidos, possa fazer “uma farrinha”.

E como essa diva escreve bem! Vou citar aqui só o uso de dois adjetivos no livro Via Crucis do Corpo, que foi publicado em 1974. Primeiro exemplo: “o sol estava tão guerrilheiro, tão bom, tão quente, que não leu nada...”. Um “sol guerrilheiro” é uma imagem perfeita para um sol que nos ataca pelos flancos e que nos transforma sem nos destruir.

Neste mesmo conto, intitulado Miss Algrave, no qual um extraterrestre, duende ou íncubo, vira amante de uma puritana inglesa, a primeira sensação da moça ao sentir a presença do ser estranho é de “frisson eletrônico”, o que já diz tudo.

Clarice gosta de brincar conosco, apesar de dizer que é “uma mulher séria”. Ela escreve um livro erótico em que ETs transam com inglesas e diz que pediu autorização dos filhos para publicar tais contos! Vocês imaginam Simone de Beauvoir pedindo autorização a um parente para publicar qualquer coisa? Em outro conto de Via Crucis do Corpo, a narradora desdenha da literatura: “Sei lá se este livro vai acrescentar alguma coisa à minha obra. Minha obra que se dane. Não sei por que as pessoas dão tanta importância à literatura”. E no entanto a literatura dela tem essa seriedade leve e quase insuportável que nunca se consegue colocar numa carta ou num e-mail; a literatura é muito mais que essa biografia em gavetas, mas, ah, as fotos dela valem tanto quanto a literatura. São, também, signos do que não se entende.

Saiu no ano passado uma fotobigrafia fantástica (Clarice – Fotobiografia, de Nadia Gotlib, Imesp, 2009). Notei que em nenhuma foto do tempo de casada ela está abraçada a seu ex-marido; havia sempre alguns centímetros de distância entre eles. Algo aterrorizava o marido diplomata? Mas Clarice é essencialmente uma mulher abraçável. É difícil entender essas coisas.

Por fim, na exposição, reproduz-se uma entrevista dela a uma emissora de televisão, pouco antes de morrer. Está cansada, envelhecida. Mas ainda assim parece maternal, afetuosa, embora sarcástica. Fala com um sotaque estranho, pernambucano da Ásia, um pouco de língua presa, um erre trocado, tudo muito sibilante, embora arrastado. Não sorri mais. Sabe que vai morrer? Já não parece uma diva, agora podia ser a minha mãe, ou a tua. Mas a inteligência está intacta, algo a incomoda, está tensa, está só e está conosco. Diz: “Todo ser humano é triste e solitário”. Diz que está morta. Mas que vai viver amanhã. Em Via Crucis do Corpo, a narradora disse que todo sucesso é uma mentira. Mas não é questão de verdade ou mentira. Clarice é uma diva que cabe nas fotos.

Ela diz, na entrevista, que é uma pessoa simples, não é um mito. Nada mais transparente. Faz parte do mito dela ser simples, a mulher que podemos amar e que nos escapa. Eu disse à minha amiga que se Clarice fosse francesa seria um mito nacional, como Simone de Beauvoir. Os franceses são criadores de mitos. Os brasileiros, devoradores. Mas talvez seja melhor assim. Clarice, com museu e mitologia, deixaria de ser simples. Está bem que ela fique como está, como fotos nas gavetas. Desde que sejam as nossas.

* Professor de linguística da UFSC

POR HERON MOURA *













































  • A casa dos Lispector

    Por Cosac Naify
    Terça-feira, 11 maio, 2010, às 11:48

    A casa onde Clarice Lispector passou a infância no Recife será transformada em um centro cultural, que ganhará o nome da irmã da escritora, Elisa Lispector. A notícia, apurada pela coluna da Mônica Bergamo, no caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo, revela, ainda, que a sobrinha-neta de Clarice, Nicole Algranti, é quem está à frente do projeto. A arquidiocese da capital pernambucana cedeu o imóvel a ela, na praça Maciel Pinheiro, em comodato, onde será criado um instituto voltado ao incentivo à literatura e ao cinema.

    Clarice nasceu na Ucrânia, país de onde seus pais conseguiram escapar, fugidos da perseguição nazista. Ao chegar ao Brasil, os Lispector se estabeleceram primeiro em Maceió e, depois, no Recife, lugar que abrigou muitos judeus desde pouco antes da Primeira Guerra. A escritora tinha cinco anos quando chegou à cidade, e lá passou a infância, antes de se mudar para o Rio de Janeiro com a família. Recife foi, para Clarice, a referência mais importante, a terra à qual sentia que pertencia de fato. “Pernambuco marca tanto a gente que basta dizer que nada, mas nada mesmo nas viagens que fiz por este mundo contribuiu para o que escrevo. Mas Recife continua firme.”

    Benjamin Moser, autor da biografia Clarice, (2009), escreveu sobre os últimos momentos da escritora, que teve a vista da praça da infância como uma de suas últimas imagens.

    “Meses antes de morrer, Clarice Lispector fez sua última viagem ao Recife, para dar uma palestra na universidade. Ela insistiu em se hospedar no Hotel São Domingos, na esquina da praça Maciel Pinheiro, onde ficava o velho banco judaico. Passou horas na janela olhando para a pracinha onde crescera. Para a pequena Clarice, conforme ela lembrou numa entrevista, aquele jardinzinho, onde os motoristas de táxi flertavam com as empregadas domésticas, parecia uma floresta, um mundo onde ela escondera coisas que nunca mais conseguiu recuperar.Depois de todos aqueles anos, só a cor da casa tinha mudado: ‘Minha lembrança é a de olhar pela varanda da praça Maciel Pinheiro, em Recife, e ter medo de cair: achei tudo alto demais [...] Era pintada de cor-de-rosa. Uma cor acaba? Se desvanece no ar, meu Deus.’”


  • Descoberta a primeira
    entrevista de Clarice

    Por Cosac Naify
    Sexta-feira, 12 fevereiro, 2010, às 08:20

    Neste mar de informações que é a internet – e, particularmente, o Twitter -, aqui na Cosac Naify nós pescamos um comentário da artista plástica Pinky Wainer sobre suas descobertas a respeito de seu pai, o jornalista Samuel Wainer, por meio da leitura de Clarice,. Um dos maiores nomes da imprensa brasileira, Samuel acompanhou – e interferiu – na vida política e cultural do Brasil durante as décadas de 1950, 60 e 70.

    Decidimos jogar a nossa rede e propor à Pinky que escrevesse mais sobre esses (re)encontros tão pessoais. Pedido feito, só não imaginávamos o quão precioso seria o material que ela nos enviaria.

    Leia a seguir o depoimento de Pinky Wainer e, na sequência, uma grande surpresa: a primeira entrevista concedida por Clarice Lispector, então uma jovem estudante universitária, garimpada em uma edição de 1941 da revista Diretrizes. “Que coisa fascinante”, disse Benjamin Moser, autor da biografia, quando conheceu estes textos. “Os claricianos vão adorar!”. Sendo assim, vamos a eles:

    SE ALGUÉM SOUBER, ME CONTE

    “Você sabia que seu pai está presente em boa parte da nova biografia da Clarice Lispector?”, me disse um amigo. Levei um susto. Comprei e comecei a ler, claro, pelo índice remissivo e as citações de Samuel Wainer. Eram muitas mesmo. Clarice havia sido uma das grandes amigas de Bluma, primeira mulher de meu pai. Os casais Gurgel Valente e Wainer conviveram nos anos 40, época de Diretrizes – revista mensal fundada por Samuel Wainer em 1938 – e da luta contra o Estado Novo de Getulio Vargas, que terminou com o fechamento da publicação e o primeiro exílio político de meu pai. Ele foi para a Europa onde cobriu, para os Diários Associados, a Segunda Guerra Mundial e também o Tribunal de Nuremberg. Bluma estava sempre com ele.

    Mas Clarice e Samuel também eram muito próximos em suas origens, então desconhecidas pelos brasileiros.

    Meu pai contava para nós, os filhos, uma história leve e divertida sobre a “sementinha” – como ele dizia –, de onde brotaram os Wainer. Vou resumir: a família vivia num vilarejo na Bessarábia e havia pogroms constantes, cometidos por agressores de várias etnias. Numa só noite, uma trisavó Wainer foi estuprada por vários homens de etnias diversas. “Por isso nunca saberemos exatamente de onde viemos”, ria meu pai, melancolicamente. Conforme Benjamin Moser nos relata, a mesma história de horror e sequelas aconteceu com a mãe de Clarice.

    (Preciso dizer que a pesquisa de Benjamin Moser é fantástica. Eu lia e me vinha à cabeça a falta de preguiça do escritor. Aliás, falta de preguiça ou tempo e dinheiro para pesquisa? O autor conta, de maneira didática e detalhada, como era a vida dos judeus pobres da Europa Central. Muitos vieram para as Américas no início do século XX. Nesse sentido, Clarice, relata, para os descendentes de judeus asquenazim, a história de seus antepassados. Praticamente um livro dentro do livro.)

    Jamais consegui entender muito a literatura de Clarice. Mas adoro suas crônicas, contos e livros infantis. Cheguei a ilustrar alguns. Para compensar, li muito sobre ela: Clarice Lispector é, em si, um livro muito bom. Um livrão. Com uma história muito triste.

    A turma de intelectuais contemporâneos a Clarice e Samuel virou história. Eram todos de esquerda, fundando publicações, lançando manifestos, brigando, namorando, sendo presos, cortejando o poder, roubando a mulher do amigo. Enfim, vida real, regada a uísque, cigarro e anfetaminas. Acredito que além do talento, eles ainda tiveram a chance histórica de estar no auge do vigor no pós-Guerra: A Idade de Ouro, como diz o historiador Eric Hobsbawm.

    Enquanto o grupo desfrutava essa turbulência criativa, a biografia de Moser fala de uma Clarice deprimida, triste. Seu amor por Lucio Cardoso precisou ser platônico. Seus livros, tão importantes, recebiam críticas oscilantes. Sua vida de mulher de diplomata não a satisfazia. No livro ela diz: diplomatas não fazem amigos, diplomatas almoçam (ou algo parecido). Assim, seu casamento logo se amornou. Mesmo com o nascimento de seus filhos e as lindas paisagens suíças, italianas e depois americanas.

    Já velhinho, meu pai ficava fazendo charme e costumava contar pequenas histórias engraçadas de sua convivência com alguém de muito prestígio, ou grande inteligência, ou dinheiro, ou muito nobre. Mas nunca, nunca mesmo, falou no nome de Clarice. Nem para falar mal. O que ele fazia às vezes, em família.

    Eu transcrevi as 52 fitas K7 que ele deixou gravadas e foram a base para o livro autobiográfico Minha razão de viver, editado por Augusto Nunes. Nas fitas também inexistem referências a Clarice. Encontrei apenas uma foto de Samuel Wainer, a escritora e o marido diplomata juntos em Paris.

    clarice_web

    Clarice, seu marido Maury Gurgel Valente, Apolonio de Carvalho, Samuel Wainer e Daniel, cunhado de Apolonio. Paris, 1946. Fonte: Acervo pessoal de Pinky Wainer

    É muito estranho não haver nada. Deve ter ocorrido uma briga feia. Mas muito feia mesmo, da qual Samuel Wainer preferiu não lembrar. Quem sabe algo sobre a separação de Bluma. (Em algum momento Bluma, casada, se apaixonou por Rubem Braga, um dos melhores amigos de Samuel Wainer. Tiveram um caso e ela engravidou. Procurou Rubem que, também casado, “fugiu” da responsabilidade. Tempos depois Bluma teve câncer e Samuel Wainer cuidou dela até a morte.)

    O livro também conta que Bluma ficou horrorizada quando Samuel Wainer se uniu a Getúlio, em 49. Eram de esquerda e a ideia de uma aliança com o velho ditador era chocante. Mas Clarice foi redatora do DIP no Estado Novo! Nada disso era suficiente para Samuel Wainer não falar sobre Clarice. Não sei de nada. Se alguém souber, me conte.

    ***

    Enquanto isso, o jornalista Vilmar Ledesma, meu amigo de Twitter, me enviou preciosidades. Vilmar garimpou volumes de Diretrizes do acervo da Biblioteca Mario de Andrade, em São Paulo, e transcreveu algumas coisas importantes (à mão, pois lá não é possível tirar xerox devido ao estado precário dos arquivos!). Coisas que devem ser inéditas para o grande público, já neste século XXI.

    OS ESTUDANTES BRASILEIROS E A LITERATURA UNIVERSAL
    (Diretrizes 71, 30 de outubro de 1941)

    Série de reportagens com universitários, no final de outubro de 1941, opinando sobra literatura. A ilustração é de uma garota bonita, com bolsa embaixo do braço, cercada por cinco rapazes e a legenda “Futuros advogados falam sobre literatura”. Lá no final da primeira matéria vem o seguinte trecho:

    “Na Faculdade de Direito subimos ao primeiro pavimento do edifício da rua Moncorvo Filho. Descemos novamente e vemos chegar uma jovem a quem abordamos. Chama-se Clarice Lispector e tem traços da raça eslava. É terceiro-anista e acede prontamente em responder às perguntas do repórter. “Leio de preferência livros, diz Clarice. Quanto à literatura nacional, em minha opinião, temos ótimos escritores, capazes de rivalizar com qualquer outro de qualquer literatura. Sobre a moderna literatura nacional, conheço alguma coisa; mais talvez do que a antiga”.

    Pode destacar algum vulto?
    Vários, como Graciliano Ramos, que me parece o maior, Rachel de Queiroz, Augusto Frederico Schmidt, etc.

    Na literatura moderna nacional existe algum escritor que em sua opinião possa se nivelar a Machado de Assis ou Euclydes da Cunha?
    Não se pode tomar para comparação um Machado de Assis, tão pessoal na sua obra. Mas em intensidade literária, dentro do seu próprio gênero, há escritores atuais que podem até superá-lo. Aliás, em minha opinião, seria mais fácil superá-lo do que igualá-lo. Machado tinha muita personalidade. Como romancista, ele não é seguro, não obedece a normas; por isso me parece fácil superá-lo, mais que igualá-lo. Euclydes da Cunha não me agrada…

    Qual o livro nacional ou estrangeiro que lhe tenha deixado mais impressão?
    Esta é uma pergunta difícil… Porque eu sempre passo épocas em que tal ou qual livro me impressiona. Depois o esqueço e outro toma o seu lugar. Às vezes o que me agrada num livro é o “tom”, o plano em que o autor se move. E se em outro livro o autor muda o “tom”, eu perco o interesse. É um estado d’alma.

    Acha que a Guerra possa influir sobre a literatura?
    Pode. Talvez um certo ceticismo se apodere da literatura do após-Guerra. Também os motivos humanos ocuparão seu lugar. Mas ao certo não se pode prever.

    Qual a sua opinião sobre a “coleção das moças”?
    Corresponde a uma necessidade da idade. Há uma fase na vida da moça em que tal literatura é indispensável. Mas apesar de eu já ter sofrido essa necessidade, hoje tenho pena das moças que lêem exclusivamente esta literatura.

    E sobre literatura infantil?
    Monteiro Lobato é sozinho uma literatura neste gênero. Suas obras compõem o que há de melhor a este respeito no Brasil. Além disso, temos Marques Rebelo. Ainda não se pode, todavia, confiar em uma literatura infantil no Brasil.

    E sobre a poesia?
    Eu nunca procurei a poesia. Gostei sempre mais da prosa. Admiro particularmente Augusto Frederico Schmidt.

    Qual o maior poeta nacional em sua opinião?
    Eu diria Castro Alves porque sei que é o melhor. Mas não tenho apreciação por condoreiros. Se a pergunta se refere aos que gosto, posso falar de Augusto Frederico Schmidt, com o seu Cântico de Adolescente que muito me impressionou há anos atrás.

    Quais os melhores livros da literatura universal, na sua opinião?
    Humilhados e ofendidos
    , Crime e castigo, de Dostoievski, Sem olhos em Gaza, do Huxley, Mediterrâneo, de Panait Istrati e as obras de Anatole France em geral. Mas isto é só do que já li.”

    Depois a própria Clarice se encarrega de nos apresentar a um colega. Augusto Baêna, quarto anista e presidente do Centro Cândido Figueiredo da Faculdade de Direito.

    (Na foto da reportagem, Clarice aparece com saia xadrez bem miudinho, blusa gola role reta de manga comprida, bolsa tipo carteira embaixo do braço e cabelos em quase coque.)


    ***

    Vilmar Ledesma encontrou também a crítica publicada na revista Diretrizes de 10/02/1944, sobre o primeiro romance de Clarice Lispector, Perto do coração selvagem. Publicado no Balanço Literário, com a recomendação “Leia, Se Quiser…”

    Perto do coração selvagem – 10/2/1944
    Um romance muito interessante, muito vigoroso, mas cheio de falhas que revelam a estreante, ainda não acostumada ao domínio de seus temas. Desordenado e vigoroso, este romance sobre a infância de Joana marca, sem dúvida, o aparecimento de uma romancista, que precisa apenas se disciplinar – e evitar certas seduções vulgares de que o seu livro dá provas – para realizar grandes romances. Uma experiência em grande escala – e quase inteiramente bem-sucedida.”

    Vilmar me disse mais…“Olha como ela fala dessa crítica numa carta de Belém pra irmã que consta no livro da Nadia Gotlib”, disse ele. “Diretrizes classificou o livro no “Leia se Quiser”, tratando-me com palmadinhas paternais nas costas, carões e conselhos. Chato e eu não ligo.”

    Pinky Wainer

  • O último combate de Elza

    Por Cosac Naify
    Quinta-feira, 10 dezembro, 2009, às 15:15

    Quando as “cobras-fumantes”, as tropas da Força Expedicionária Brasileira, desembarcaram em Nápoles, em 1944, duas mulheres ajudaram a tornar mais leve o fardo dos homens que foram lutar numa guerra cujas razões nem sequer diziam respeito a seu país. Uma delas, Major Elza Cansanção Medeiros, faleceu nesta terça-feira (8/12), aos 88 anos. Elza era a mulher mais condecorada do Brasil, segundo o Comando Militar do Leste, com 35 medalhas; a primeira brasileira a se apresentar como voluntária na Diretoria de Saúde do Exército, para lutar na Segunda Guerra Mundial, aos 19 anos.

    Na Itália, Major Elza conheceu Clarice Lispector, que acompanhava o marido diplomata. “Como não havia assistentes sociais no Exército brasileiro, Clarice ‘solicitou das autoridades militares, quer brasileiros, quer americanos, autorização para diariamente visitar o hospital e conversar um pouco com os doentes’, lembrava Elza.” Quem nos revela o fato é o norte-americano Benjamin Moser, autor da biografia Clarice,.

    “Nos lançamentos de Clarice, em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife, as pessoas perguntaram muito sobre as minhas experiências durante o processo do livro. É uma aventura fascinante, sobretudo por causa das pessoas que se encontra pelo caminho. Sempre comento sobre a veterana mais antiga da FEB, a Major Elza, que ainda se lembrava de Clarice Lispector na Itália de 1944, cortando as unhas dos pés dos pracinhas. Elza foi, de fato, uma pessoa única e sempre guardarei na memória nossas conversas, assim como sua dedicação total ao Brasil”, disse Moser ao saber da morte da veterana.

    Segundo informações de periódicos de Alagoas, terra dos pais de Elza, ela sonhava em lutar na linha de frente, mas teve que se conformar em seguir como uma das 73 enfermeiras no Destacamento Precursor de Saúde da Força Expedicionária Brasileira, já que, na época, o Exército Brasileiro não aceitava mulheres combatentes.

    O Comando Militar do Leste detalhou a participação de Elza na guerra: ela trabalhou nos hospitais de evacuação na Itália e nenhum soldado que foi tratado por ela morreu. Atuou como oficial de ligação e enfermeira-chefe no 7th Station Hospital, em Livorno. Com o fim da guerra, foi dispensada logo após o retorno ao país, indo trabalhar no Banco do Brasil.

  • Come-se e bebe-se bem por aqui

    Por Cosac Naify
    Quarta-feira, 9 dezembro, 2009, às 12:11

    Nem só de arte viveram nossos autores. Entre uma discussão literária e uma ideia brilhante, uma inspiração e uma frase perfeitamente construída, petiscos, pratos bem temperados ou a melhor safra eram degustados com primor. Os exemplos, colhidos em obras de nosso catálogo, são dos mais saborosos.

    Em Meu último suspiro, autobiografia de Luis Buñuel, um especialista nos deleites desta vida, o cineasta espanhol fala sobre aspectos fundamentais de seu cotidiano. No capítulo “Os prazeres deste mundo”, ele conta como o bar sempre foi, para ele, um lugar de “meditação e recolhimento, sem o qual a vida é inconcebível”, e ensina passo-a-passo como preparar um bom dry martini, seu drink preferido:

    “Considerando o papel primordial que ele [o dry martini] desempenhou nesta vida que relato, vejo-me obrigado a dedicar-lhe uma ou duas páginas. [...] Peço licença para dar minha receita pessoal, fruto de longa experiência, com a qual continuo a obter um sucesso lisonjeador. Guardo tudo o que é necessário no congelador na véspera do dia em que espero meus convidados, os copos, o gim, a coqueteleira. Tenho um termômetro que me permite certificar-me de que o gelo está numa temperatura de cerca de vinte graus abaixo de zero. No dia seguinte, quando chegam os amigos, pego tudo de que preciso. Sobre o gelo bem duro despejo algumas gotas de Noilly-Prat e meia colherinha de café de angustura. Agito tudo, depois jogo fora o líquido. Preservo apenas o gelo, que carrega o ligeiro vestígio dos dois perfumes, e sobre o gelo despejo o gim puro. Sacudo um pouco mais e sirvo. É só isso, mas é insuperável.”

    Já a célebre casa parisiense de Gertrude Stein, na Rue de Fleurus, retratada em A autobiografia de Alice B. Toklas, além de se tornar o palco modernista de discussões sobre arte e literatura, ficou também conhecida por ofertar boa comida e bebida. Ernest Hemingway, em Paris é uma festa, contou: “Era como uma das melhores salas do mais belo museu, com a vantagem de haver uma enorme lareira que nos proporcionava calor e conforto e de elas nos oferecerem boas coisas para comer, além de chá e licores”.

    Em Clarice,, no capítulo “Galinha ao molho pardo”, o biografo Benjamin Moser fala sobre a relação da autora com os animais, principalmente em seus livros infantis, como é o caso de uma galinha muito especial, protagonista de A vida íntima de Laura (1974), que por pouco não vai foi para a panela:

    “Existe um modo de comer galinha que se chama ‘galinha ao molho pardo’. Você já comeu? O molho é feito com o sangue da galinha. Mas não adianta mandar comprar galinha morta: tem que ser viva e matada em casa para aproveitar o sangue. E isto eu não faço. Nada de matar galinha. Mas que é comida gostosa, é. A gente come com arroz branco e bem solto.”

    Poderíamos continuar com água na boca ao falar dos doces de Elio Vittorini em Conversa na Sicília, do inigualável banquete descrito em Satíricon, de Petrônio, receitas para vários outros posts. Mas o blog da Cosac Naify prefere perguntar aos leitores: qual era o prato ou a bebida predileta de seu autor preferido? Mande o seu comentário!

    Satyricon, de Federico Fellini, filmado em 1968 nos estúdios Cinecittá. na imagem, uma cena de O banquete de Trimalquião

    Satyricon, de Federico Fellini, filmado em 1968 nos estúdios Cinecittá. Na imagem, uma cena de "O banquete de Trimalquião"






  • E Tchechelnik entrou no mapa

    Por Cosac Naify
    Quarta-feira, 25 novembro, 2009, às 12:42

    Visualizar Ucrânia Ocidental, c. 1920 em um mapa maior

    Os últimos dois ou três meses foram especiais para Tchechelnik. Dois eventos sem a menor relação direta puseram no mapa essa aldeiazinha ucraniana. Mais ou menos ao mesmo tempo, a Ucrânia entrou no Google Maps e foi lançada uma nova e original biografia da filha mais famosa de Tchechelnik: Clarice Lispector. Ou, para nós, brasileiros, apenas Clarice. Ou, para Benjamin Moser, seu biógrafo norte-americano, Clarice,

    Ela escreveu:

    “Nasci na Ucrânia, terra de meus pais. Nasci numa aldeia chamada Tchechelnik, que não figura no mapa de tão pequena e insignificante. Quando minha mãe estava grávida de mim, meus pais já estavam se encaminhando para os Estados Unidos ou Brasil, ainda não haviam decidido: pararam em Tchechelnik para eu nascer, e prosseguiram viagem. Cheguei ao Brasil com apenas dois meses de idade.”

    De fato, até chegar ao Google Maps essa região da Ucrânia padeceu de uma espantosa falta de informação cartográfica, em parte devido aos mapas errados feitos pelos soviéticos para confundir os invasores ocidentais — que na verdade nunca chegaram até lá.

    Quem chegou até lá foi Benjamin Moser, e fazer isso, ainda hoje, é difícil e demorado, depende de guias e de informações que se revelam desencontradas, quando não são pistas falsas. O mapeamento pelo Google é coisa recentíssima, de semanas ou meses para cá.

    Uma vista mais ampla da região mostra que a noroeste de Tchechelnik não há, até hoje, praticamente nada, nem povoamento nem estradas. Benjamin Moser nos dá uma ideia do que podemos encontrar no lugarejo:

    “Sua periclitante arquitetura de aldeia, pitorescamente pintada de verde e púrpura, é interrompida por umas poucas intervenções soviéticas de concreto caindo aos pedaços. Outros edifícios lembram populações desaparecidas: os católicos que rezavam na igreja polonesa foram embora faz tempo, e a sinagoga aonde Mania e Pinkhas Lispector teriam levado sua filha recém-nascida para ser abençoada está num triste estado, vazia, exposta às intempéries por trás da fachada de pedra ainda impressionante.”

    Moser imagina que a recém-nascida viu, se é que viu, uma Tchechelnik bem diferente:

    “Em 1920, só na cidadezinha de Tchechelnik, quinhentas moradias de camponeses foram saqueadas. O comércio foi destruído, os campos ficaram sem cultivo, grassaram epidemias. A fome reinava. Seis anos antes, Tchechelnik tinha 8 867 habitantes. Em janeiro de 1921, a população se reduzira a menos da metade.”

    Era a temporada dos pogroms, as ondas de ataques (saques, destruição, humilhação, assassinatos, estupros) contra as populações judaicas da região, num sinistro método de limpeza étnica ainda praticado em plena Europa até há pouco tempo. Em O Exército de Cavalaria Isaac Bábel faz um quadro estilhaçado da barbárie e da miséria em que a Ucrânia estava mergulhada nos anos que se seguiram à revolução de 1917 — horrores que os pais de Clarice viveram da maneira mais extrema.

    A reconstituição desse terrível momento em que nasceu uma escritora extraordinária é um dos pontos altos da narrativa de Benjamin Moser, que traz dados e descrições impressionantes sobre aquele canto do mundo que parecia esquecido por Deus.

    Agora que a Ucrânia está a dois cliques do Brasil, selecionamos alguns pontos por onde passaram os Lispector até chegar entre nós. Vamos usar o Google Maps para rememorar a odisseia e a coragem de Mania, Pinkhas, Leah, Tania e a pequena Chaya — que, mesmo sob um frio de 20 graus negativos, recém-nascida naquele 10 de dezembro de 1920, já era, temos certeza, Clarice Lispector.

    Basta clicar em “Visualizar em um mapa maior”, embaixo da imagem, e navegar pelo mapa, seja pelas legendas, que marcam os principais pontos por onde os Lispector passaram, seja pelo zoom (na barra do lado esquerdo da tela), para ver Tchechelnik em detalhes.

    O lançamento de Clarice, será na Livraria da Travessa de Ipanema, no Rio de Janeiro, nesta quinta-feira. Às 19h30, começará o bate-papo de Benjamin Moser com Cristiane Costa, e depois haverá sessão de autógrafos. Os 100 primeiros exemplares comprados na livraria ganharão um pôster com a foto de Clarice por Claudia Andujar.

    *

    O lançamento de Clarice, uma biografia teve apoio da Suzano de Papel e Celulose

  • Clarice e a esferográfica

    Por Cosac Naify
    Sábado, 21 novembro, 2009, às 16:06

    Leia abaixo a crônica de Humberto Werneck sobre seu primeiro encontro com Clarice Lispector — e também com o biógrafo dela, Benjamin Moser, a quem Werneck entrevistará nesta segunda-feira, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (av. Paulista, 2073, Teatro Eva Herz), às 18h00.

    O texto saiu neste sábado, na coluna de Werneck no Outlook, o suplemento cultural do jornal Brasil Econômico, e foi cedido pelo editor do caderno, Fred Melo Paiva, a quem este blog agradece efusivamente. No mesmo Outlook, Ronaldo Bressane assina texto sobre Moser e seu livro, que chegou às livrarias brasileiras neste fim de semana.

    Com Clarice Lispector, 1968 para o blog

    Clarice fita um cabisbaixo Werneck, ainda com a esferográfica na mão


    Meu traumatismo ucraniano

    Humberto Werneck

    É um danado, esse Benjamin Moser. Lá no Texas, onde nasceu, ele cismou um dia de aprender mais uma língua (hoje seis estão no papo), e, tendo desistido do mandarim, escolheu o português. Não demorou muito e o moço, atualmente com 33 anos, caiu em cima de um livro de uma brasileira nascida na Ucrânia – e caiu também apaixonado. Daí a pouco estava o Benjamin metido na empreitada nada simples de biografar a escritora, com a complicação adicional, para um pesquisador, de estar morando na Holanda, longíssimo de onde viveu Clarice Lispector.

    Por indicação de Alberto Dines, o gringo veio bater na minha porta, em São Paulo, falando um português espantosamente bom. Queria saber de uns escritores de Minas de quem Clarice foi amiga. Na minha condição de mineiro não-praticante, não pude ser de grande valia para o Benjamin, mas ganhei sua amizade – e, em incontáveis papos via skype, pude acompanhar a gestação de Clarice, (assim mesmo, com vírgula), livraço até por ter 650 páginas. Não é primeira biografia de Clarice, mas posso afirmar que se trata da melhor até agora. Tiro para o Benjamin meu imaginário chapéu. Que outro pesquisador se abalaria até a Ucrânia em busca de traços de quem lá viveu apenas sua primeiríssima infância, nos remotos anos 1920?

    O lançamento do livro, na semana que vem, fez regurgitar a lembrança do meu primeiro e único encontro com Clarice, acontecimento que foi para mim, se me permitem, um traumatismo ucraniano.

    Andava eu pelos 23 anos e estava recém-chegado à redação do magnífico suplemento literário que o contista Murilo Rubião tivera a audácia de criar como encarte semanal do insípido diário oficial do governo mineiro. Fiado num conto que ajudara a premiar num concurso universitário, Murilo não só me levou para trabalhar com ele como deu ao frangote desmedida corda. Coro de vergonha retroativa ao recordar a petulância com que eu, peremptório, dava palpite nos irretocáveis contos do próprio Murilo, tendo chegado, Deus meu, a pedir ao escritor perfeccionista que trocasse isso ou aquilo em textos consagrados antes mesmo de minha vinda ao mundo.

    Um dia Murilo me contou que Clarice Lispector estava em Belo Horizonte e me encarregou de pedir a ela um conto inédito e uma entrevista. O ano era 1968. Me lembro da reverência embasbacada com que a abordei numa roda de livraria. Não sabia ainda dos espinhos que Clarice eriçava às vezes no contato com estranhos, e gelei quando, ao ouvir o pedido de colaboração, ela indagou, com rude incredulidade: “Mas vocês pagam?” (Sim, pouco mas pagávamos.) E acrescentou, com a dicção rascante de sua língua presa, que estava “muito pobrrre”. Entre outros safanões da sorte, tinha vivido, dois anos antes, o pesadelo daquele incêndio que por pouco não a matou e que apagou um tanto de sua legendária beleza.

    Me lembro também de que na véspera da entrevista não consegui pegar no sono. E mais ainda da catástrofe que desencadeei com minha primeira pergunta, inspirada em algo que tinha lido alhures: “A paixão segundo G.H., não sendo um romance…”

    Nem pude a concluir a frase. “COMO não é um rrromance?”, rugiu Clarice Lispector, petrificando o aprendiz de repórter. Uma foto, que revejo agora, teve a crueldade de registrar o instante em que, fulminado pelo olhar enviesado de Clarice, baixei a cabeça, disposto a ir lá dentro me suicidar. O que não a impediu, ao fim da entrevista, de pedir para ficar com minha esferográfica de estimação, de tinta violeta, que lhe estendera para um autógrafo no meu exemplar de A maçã no escuro: “Posso ficarrr parrra mim?” Po-o-de… — consegui tartamudear.

    (Décadas depois, veja você, folheando o catálogo de uma exposição comemorativa dos 60 anos de Chico Buarque, dei com a reprodução de um bilhete de Clarice para o compositor, no final dos anos 60. O texto, datilografado, tem assinatura em tinta, você adivinhou, violeta! Pode ser a minha chance de entrar na história da literatura brasileira.)

    *

    O lançamento de Clarice, uma biografia teve apoio da Suzano de Papel e Celulose

Clarice: a história de uma foto, por Claudia Andujar

Por Cosac Naify
Terça-feira, 17 novembro, 2009, às 16:11

Capa_clarice_blog




A fotógrafa Claudia Andujar relembra o encontro com Clarice Lispector, em 1961, quando fez a foto que hoje ilustra a capa da biografia Clarice, (lê-se “Clarice vírgula”), de Benjamin Moser.

“Fui à casa de Clarice Lispector para fotografá-la a pedido da revista Claudia, que naquele ano de 1961 preparava uma reportagem sobre a escritora. Pouco me lembro daquele dia perdido no tempo, mas há detalhes que guardo para sempre.
Ninguém da revista me acompanhava e fui recebida com muita simpatia por aquela mulher linda, vestida com simplicidade e elegância.
Conversamos pouco. Quis deixá-la à vontade para a foto, e perguntei como gostaria de se posicionar. Se não me engano, a ideia de sentar diante da máquina de escrever e começar a trabalhar em algum texto foi de Clarice. E então ela se deixou absorver pelo ato de escrever, completamente entregue, sem quase notar minha presença.”




Clarice e seus olhos de piscina


Como fazer a biografia de Clarice Lispector, que toda a sua vida baralhou as datas? A investigadora Nádia Battella Gotlib passou por Lisboa e explicou as dificuldades de que é feita a fotobiografia de uma escritora que se “ficcionalizou”

Isabel Coutinho

Eram os anos 40 e o poeta brasileiro Manuel Bandeira estava numa “tristeza danada” por causa de uma mulher. Saiu do Praia Bar, no Flamengo, e quando ia “na calçada” encontrou a jornalista e escritora Clarice Lispector, que passeava de braço dado com o seu noivo, Maury.

O poeta fica impressionado com “os olhos da moça”. E contou este episódio ao jornalista Rubem Braga que não perdeu tempo e escreveu uma crónica, O poeta e os olhos da moça, que começa assim: “Conversa vai, conversa vem, eu disse um nome de uma mulher. O poeta me confessou que há muitos, muitos anos, tem vontade de fazer um poema sobre uma história que ele teve com essa mulher a que chamaremos Maria. Espanto-me: não sabia que o poeta tinha tido alguma história com a Maria. Ele ri: ‘- Não pensa que eu tive um caso com ela. Foi apenas uma impressão minha, foi uma coisa tão subjectiva – mas inesquecível. (…) Quando vou pisando na calçada me encontro com Maria, que vem de braço dado com o noivo. Meus olhos entraram directamente nos seus. Meus olhos, com toda a minha tristeza, toda a minha alma desgraçada, entraram de repente nos seus, mergulharam completamente neles. Ela se deteve um instante – eu só via aqueles olhos verdes – e me recebeu como se fosse uma piscina(…).’” Quando Rubem Braga contou esta história a Clarice Lispector, ela não se conseguiu recordar desse encontro e olhou-o, “admirada, com os seus olhos de piscina”.

Para a professora universitária de literatura brasileira Nádia Battella Gotlib, autora da biografia “Clarice, uma vida que se conta” (1995) e mais recentemente da “Fotobiografia Clarice” (2008), esta é uma das melhores histórias que já ouviu sobre a escritora brasileira. Este encontro entre Manuel Bandeira e Clarice Lispector (1920-1977), contado por Rubem Braga, é aliás citado em “Fotobiografia Clarice “(ed. Edusp/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo), cuja edição revista e aumentada saiu agora no Brasil e irá estar à venda em Portugal, onde Gotlib acaba de a lançar, no âmbito do cóloquio Clarice Lispector, que decorreu na Casa Fernando Pessoa (1 e 2 de Abril).

Como os detectives

A crónica que fala do poeta que se depara com uma mulher “em plena mocidade, em pleno esplendor de beleza e de felicidade” quando ele “estava na fossa” é um dos “melhores depoimentos” sobre Clarice na sua juventude. Rubem Braga só revelará a verdadeira identidade dos envolvidos nesta história – o verdadeiro nome de Maria dos olhos de piscina e do poeta – depois da morte de Lispector.

Foi também por vontade expressa da escritora que só foi tornado público depois da sua morte o único registo audiovisual que dela existe. Trata-se da entrevista que deu a Júlio Lerner, do programa Panorama Especial, onde com a sua voz, a “fala presa”, diz que faz questão de ser uma escritora “amadora” para manter a sua liberdade.

O trabalho de biografar Clarice Lispector é quase “detectivesco” porque a escritora brasileira de origem ucraniana fazia “questão de despistar” e de “sumir com sinais”. “A pesquisa de Clarice vai sempre caminhando, apesar da Clarice”, diz Nádia Battella Gotlib.

Enquanto preparava as aulas que dava na universidade e ia lendo a obra de Clarice, a professora começou a guardar imagens em pastas com a ideia de, um dia, as organizar. Eram imagens “xerografadas” retiradas de jornais e revistas a que se juntaram depois as imagens que encontrou nos acervos fotográficos de Clarice (na Fundação Casa Rui Barbosa e na casa do filho de Clarice, Paulo Gurgel Valente). Gotlib queria saber quando foi tirada determinada fotografia, em que circunstância e o que é que a autora estava produzindo naquele momento.

“Na realidade era um olhar meio sonhador tentando arrumar o material. Porque os estudiosos de Clarice que começaram nos anos 80 tinham um problema danado: nada batia em termos de datas. Ela ia mudando a data do nascimento em função do envelhecimento.” Num depoimento a escritora disse uma vez: “Nasci na Ucrânia. Quando? Não, não quero dizer.”

Nádia percebeu então que, para fazer “o histórico de Clarice”, teria que ir fazer uma pesquisa de campo. Começou a viajar. Foi para Recife e para Maceió, foi às escolas onde ela estudou procurar a documentação.

Grande ambiguidade

Foi também aos lugares onde Clarice viveu : Ucrânia, Itália, Suíça, Inglaterra, Estados Unidos (Clarice esteve 16 anos fora do Brasil). A biógrafa e investigadora foi a Tchetchélnik, na Ucrânia (na época Rússia), onde a escritora nasceu. E o romance autobiográfico No Exílio, de Elisa Lispector (irmã mais velha de Clarice, que não queria que ela publicasse o livro), onde se narra a história da família, foi também uma grande fonte de informação.

Na altura do encontro de Clarice Lispector com Manuel Bandeira esta ainda não tinha acabado o curso de Direito nem se tinha naturalizado brasileira para poder casar com Maury Gurgel Valente, o diplomata, pai dos seus filhos e de quem veio a separar-se anos depois. Ainda não tinha publicado o seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, nem tinha viajado para a Europa e para Argel, onde numa carta às irmãs escreve “todo este mês de viagem nada tenho feito, nem lido, nem nada – sou inteiramente Clarice Gurgel Valente”.

A investigadora teve que vencer uma certa resistência da própria Clarice Lispector em relação à pesquisa. Não dela pessoalmente porque quando começou a trabalhar a escritora já havia morrido, mas da falta de depoimentos sem ambiguidade. “O que eu tinha era uma ficção ambígua que ao mesmo tempo apontava para uma direcção como para outra”, conta. Nádia Battella Gotlib teve que enfrentar esses caminhos muito ambivalentes.

“As histórias em torno de Clarice são muito pessoais. São produto de uma experiência muito pessoal de cada um em relação a ela. É uma literatura que ataca as entranhas da pessoa. Você nunca lê Clarice de fora: ou mergulha no texto ou não lê Clarice”, explica a biógrafa. “Os depoimentos que eu recolhi às vezes eram muito filtrados pela experiência da literatura. Não se sabia o que é que era invenção a partir da literatura – o que era criação de leitor -, ou o que é que era mesmo experiência de vida com a Clarice.”

Existe uma Clarice “ficcionalizada na memória das pessoas que a conheceram”, concluiu Nádia Battella Gotlib.

(artigo publicado no PÚBLICO de 6 de Abril de 2009)