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"Joselayde Ribeiro:
Permita-me homenagear meus colegas da E.E. Imaculada Conceição (greve parcial) e Coronel Amantino de Porto Firme e também uma conterrânea da E.E. Padre Álvaro de Viçosa (somos todos de Porto Firme, zona da Mata) que comigo participaram dessa luta, sem enfraquecer um minuto.
Como todos os companheiros da grande Minas Gerais, tivemos verdadeiros momentos de tortura. A desunião entre colegas da mesma escola, cada um com sua DESCULPA para não aderir ao movimento... Algumas destas até compreensíveis, mas o mais difícil era quando voltávamos à escola para repassar as novidades sobre a greve e alguns nos tratavam com descaso: alguns de nós com mais de 25 anos de serviço naquela escola, outros com 16, 17... muitos anos que haviam nos tornado uma FAMÍLIA. E aquela nossa adesão à luta por todos que ali estavam, era pra ser motivo para nos unir ainda mais!
Mas não foi isso que aconteceu: Começaram a chegar notícias de que saíam comentários maldosos, irônicos, na sala dos professores tipo "Agora vou pra casa descansar porque os nossos HERÓIS estão lá em BH lutando por mim", entre outros.
Então paramos de ir à escola, para evitar confrontos. Quando ficávamos sabendo que algum colega estava meio "inclinado" a entrar em greve, então íamos até a casa dele e o trazíamos para o movimento. Isso fora da escola. Lá havia uma campanha "do contra", dos não politizados... É claro que alguns ficavam na sua, não se manifestavam, outros "amigos" nos respeitavam e até nos defendiam, realmente não podiam ficar sem pagamento (empréstimos a juros altos, etc). A gente sempre deixou clara nossa posição: ninguém é obrigado a entrar em greve, mas "pelo menos não atrapalha o nosso movimento", né?
Até que, com os editais de designação dos substitutos, tivemos que voltar a frequentar a escola para tentar impedir as designações. Foi então que a escola se dividiu mesmo: uma colega teve a coragem de "furar o olho da outra" com quem trabalhava na mesma secretaria, pegando seu 2º cargo na biblioteca... alguns colegas nossos começaram a "recrutar" candidatos de toda a região para pegar nossos cargos. Teve colega que nem trabalhava mais, o tempo todo pendurada no celular ligando pra todo mundo que conhecia... Soube que foi até nas turmas de Licenciatura da UFV.
Por falta de informação, as opiniões se dividiam dentro de nossa escola. Vários nos criticavam por irmos conversar com os candidatos. Diziam que era direito deles, que podiam estar precisando do dinheiro... poucos se colocavam nos nossos lugares. Não entendiam que aquelas pessoas estavam atrapalhando o movimento de greve, atrapalhando a nossa luta fazendo o jogo do patrão, desestabilizando os efeitos de nossa greve, nossa luta pela conquista que seria para todos. Eram nossos cargos, pô! Era nosso dinheiro que Anastasia estava tirando de nossos bolsos para pagar aqueles TAMPÕES. Tanto que hoje, nem que quiséssemos poderíamos repor tais aulas. É um dinheiro irrecuperável, gasto com traíras.
Resultado: hoje em nossa escola está um clima insuportável. Muita provocação. Tem gente que fica até "vigiando" nossa reposição pra ver se damos motivo para denunciarem.
A escola é minha vida, minha família. Tenho dois cargos efetivos em Língua Portuguesa. Entrei na luta por acreditar no movimento, nos profissionais, também para recuperar minha DIGNIDADE.
E fiquei muito feliz por ter tido mais 17 colegas que, junto comigo, tiveram garra de aguentar o movimento até o fim (apesar de que um deles, Paulinho Passos, suicidou-se ainda na segunda semana da greve - mas não se sabe o motivo do enforcamento).
Entre estes companheiros de luta, posso citar um casal (os dois são casados e têm dois filhos), pagamento cortado em dobro; uma colega que é arrimo de família (sua mãe e marido fazendo pressão o tempo todo - ela até adoeceu e teve que tirar licença), outra com ex-marido também em greve, e com dois filhos e prestação de apartamento para pagar foi FAZER FAXINA pra fora: um exemplo de vida, de luta, de dignidade. Uma lição até para aqueles que não entraram em greve por causa de dinheiro "eu não, vai cortar o meu pagamento".
Fizemos panfletagem, corpo a corpo com alunos, pais... fomos a todas as assembleias em BH (5 horas de viagem), participamos de várias situações envolvendo polícia, seguranças, uma das nossas chegou até a tomar o microfone da mão de um repórter (ao vivo) quando ele cobria o caso da "bomba" , dizendo para ele "mostrar o lado bom também".
Foi muita luta, muita tortura, muita pressão...
E teve colega de nossa escola que disse que "quem sabe fazer greve é professor do Ceará que enfrenta polícia, deu no Jornal Nacional" Pelo amor de Deus!!! Globo!!! ALIENAÇÃO ! Sabe notícia do Ceará e não sabe de Minas, onde está lotado, em exercício.
Agora faço o balanço e sinto orgulho por ter participado de cada ato, de cada minuto, e agradeço a Deus por ter-nos dado forças e a OPORTUNIDADE de ter participado deste movimento que para mim foi realmente de muito aprendizado: hoje acredito que somos EDUCADORES, que nossa luta não foi apenas pelo Piso e depois pela Carreira... mas muito para termos a consciência de nossa Força, nosso Poder de Luta, de União (só entre os que querem).
Após toda a pressão moral, financeira, psicológica... hoje o saldo é muito positivo.
Foi neste movimento que conheci meus colegas e pude através dele distinguir, com segurança, quais deles são AMIGOS, HERÓIS, LUTADORES, EDUCADORES ... e quais são covardes, pequenos, fracos, traidores.
E me sinto honrada por ter participado da luta... de ter sido uma gotinha d'água no meio desse oceano que alagou tantas vezes o pátio da Assembleia, que foi exemplo para nossos alunos, para os mineiros, que com certeza tirou o sono do governador e ainda tira até hoje.
Agradeço muito a toda a categoria de todo o estado: aqueles que persistiram até o fim, ou até enquanto aguentaram, aqueles que se acorrentaram , os que receberam gás de pimenta nos olhos, bomba de efeito moral, tiros de borracha, ar condicionado em temperatura insuportável e se embrulharam em jornais, os que fizeram greve de fome, a você Euler que como a Beatriz, liderou todo nosso movimento, e continua liderando até hoje.
Obrigada aos meus colegas (em ordem alfabética): Bili, Eva, Clarete, Claudinho, Dalton, Danielle, Diego, Glória, João José, Kátia, Léscia, Malu, Marlene,Neide, Paulinho (in Memorian), Ronaldo, Roseli, Toninha e Zélia. (Gina, Ritinha e Antônia, apesar não estarem em exercício também lutaram conosco).
Hoje tenho orgulho de dizer e posso dizer: Sou PROFESSORA da rede estadual de Minas Gerais!
Para mim só estas conquistas já me realizam. O que vier agora é lucro.
MARIA JOSELAYDE RIBEIRO (professora da E.E.Imaculada Conceição - Porto Firme)".