sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Antonio Kleber dos Santos Cecílio:"DESEMBARGADORES EMBARGAM NOSSA ÚLTIMA ESPERANÇA." ( Blog gritossemecos)

REFLEXÃO

DESEMBARGADORES EMBARGAM NOSSA ÚLTIMA ESPERANÇA

Há dois mil e quinhentos anos os pensadores já se preocupavam com a sanha do Estado em explorar o povo a fim de aquinhoar benevolentemente a elite. Entendia-se como de direito a maioria pagar para que alguns vivessem muito bem; afinal, o Estado sempre fez-se representar pela nobreza e em assim sendo, ela precisava ser defendida, ovacionada, imitada, respeitada e, por que não, perpetuada. Assim nasceram as dinastias comumente comandadas por linhagens de senhores nobres, que se mantinham no poder apoiados na força política das elites e ambos valiam-se um do outro mantendo a plebe sobre controle pelo medo da espada, do confisco, da guilhotina, da fogueira ou do degredo.
Se era direito então era justo. Daí tem início a dialética entre os opostos justiça e injustiça. Afinal, elas existem? Se o cidadão esta subordinado a um sistema de governo injusto, mas cumpre seus deveres cívicos, então ele não seria justo? Partindo dessa premissa é correto concluir que justiça e injustiça sejam subjetividades interdependentes e subordinadas a variáveis culturais, políticas, religiosas válidas em determinada época ou lugar, mas que podem ganhar ou perder importância ao longo do tempo e da evolução daquelas mesmas variáveis? Obvio que sim, pois a humanidade nunca foi uma massa estática e através mesmo da discussão e da contradição de velhos valores é que aconteceu a evolução para o alcance do que hoje se considera como civilização moderna. O adjetivo moderna, aí funcionando como uma filigrana dá ao conceito de civilização certo refinamento que nos transporta direto à idéia de democracia. Nessa situação o Estado perde sua condição de agente absoluto, pois sede espaço ao cidadão, que passa a figurar como protagonista central do Estado Democrático, cuja finalidade precípua não é mais a de se fazer representar por um ditador e sua elite centralizadora, mas a de defender e proteger o direito às liberdades básicas do ser humano, quais sejam: liberdade de expressão, de ir e vir, de educar-se, de investir, de procriar.
Todavia, esses direitos pétreos, com o aperfeiçoamento da filosofia democrática ganharam status de legalidade e passaram a ser regulados pela Constituição e por outros códigos legais, sendo o Poder Judiciário o pilar principal dessa salvaguarda. Entretanto no Brasil, país que se auto-intitula a segunda maior democracia do mundo, andam acontecendo fatos, que nos levam a ter certeza que a democracia brasileira é uma falácia, pois vários desses direitos ainda não são conquistas plenas e aqueles que já se concretizaram andam sendo vilipendiados pelos próprios agentes, cuja missão é exatamente a de regular e fiscalizar as relações entre os cidadãos e destes com o Estado.
Nessa democracia capenga, depois de vermos um senador da República, eleito democraticamente, ter o poder de calar um veículo de informação da importância do jornal ‘O Estado de São Paulo’, termos que engolir figurões, que deviam estar atrás das grades, conduzidos ao poder como se anjos fossem ainda temos que tragar novo boom de notícias que enojam até quem tem um mínimo de dignidade, dando conta de que o poder judiciário, nossa última esperança, também anda se esquecendo de que os cidadãos brasileiros não são presas, mas patrões, que merecem respeito, pois os pagam salários absolutamente dignos, muitas vezes maiores que os de outros profissionais, que também muita dureza enfrentaram, para chegar aonde chegaram e sem dúvida carregam tanta ou mais responsabilidades que esses impolutos senhores togados.
É um chocante achincalhe ouvir dizer que funcionários públicos de um país covarde como o Brasil, que não valoriza professores, nem respeita seus velhos e muito menos crianças, seu maior patrimônio, que usurpa de quem gera empregos e riquezas a maior carga tributária do mundo, pagar a qualquer servidor público quantias que chegam a estratosféricos seiscentos mil reais mensais (US$ 353 mil dólares para ficar mais elegante), enquanto que setenta por cento da população assalariada pelo mínimo levará oitenta e um anos para perceber o mesmo montante, lembrando que esse tempo equivale a quatro gerações. Entretanto, o pior ainda estava por vir, quando o presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, tranquilamente tentando justificar o injustificável, assegurou que era tudo dentro da lei e que estava esperando a fiscalização chegar de braços abertos. Ah, antes que me esqueça, ainda há que mencionar aquele adicional de insalubridade! Certamente seja referindo-se à toxidade da tinta das canetas Mont Blanc ou ao cloro da água que abastece os bebedouros do Tribunal.
Obvio que nós cidadãos brasileiros, portadores da maior paciência da história da humanidade, acreditamos que esta tudo dentro da legalidade. Afinal, o que poderia ser ilegal nas casas onde se falam e se escrevem em nome da lei? Nossa única dúvida, que talvez os nossos meritíssimos desembargadores não respondam, é se essa tal lei seria ditada por alguma divindade do bem ou do mal simpática a todos aqueles que se vestem de negro?
Bom! Do alto da nossa dolorosa indignação, diante de imagens e justificativas grotescas, que aqui nos rincões mineiros conhecem-se como “música para boi dormir”, necessário é que voltemos ao exercício dialético de acima. Num país injusto como o Brasil é justo alguém merecer regalias imperiais de tal vulto, ainda que seja funcionário publico de alta patente? A resposta deixo a cargo da sensibilidade do caro leitor.
Apenas para concluir; diante desses absurdos nacionais, me vem à lembrança a voz do meu velho e saudoso pai, um daqueles exemplares de homens quase extintos, pois nunca ouvi dizer que ele tivesse preço, atestado passado pela população inteira de uma cidade que teve a honra de conhecê-lo, a qual dizia: “meu filho, as leis podem carregar a mácula da insensatez dos homens, por isso é preciso que aquele que tem nas mãos a competência para decidir o destino de alguém, saiba aplicá-las de acordo com a consciência, pois ela não convive com interesses, mas, sobretudo, com a ética e a moral”.
Baseado nessa pérola podemos considerar que seja justo, porque é legal, nossos monárquicos desembargadores serem agraciados com tamanhas benesses, uma vez que certamente seja mesmo um extraterrestre o autor da lei, a qual os confere tão cintilantes vantagens; no entanto seria ético e a MORAL agradeceria, se uma explosão de luz os fizesse desconfiar que o poder de modificá-la reside em suas próprias mãos para o bem de um país aonde há trinta milhões de abandonados que não teem onde cair morto, obviamente não se esquecendo do resto, que paga por uma cesta básica quarenta e cinco por cento de imposto, cuja fome, avitaminoses e exclusão são suas inseparáveis companheiras.


ANTONIO KLEBER DOS SANTOS CECILIO

Antonio Kleber dos Santos Cecílio:"DESEMBARGADORES EMBARGAM NOSSA ÚLTIMA ESPERANÇA." o:"

REFLEXÃO

DESEMBARGADORES EMBARGAM NOSSA ÚLTIMA ESPERANÇA

Há dois mil e quinhentos anos os pensadores já se preocupavam com a sanha do Estado em explorar o povo a fim de aquinhoar benevolentemente a elite. Entendia-se como de direito a maioria pagar para que alguns vivessem muito bem; afinal, o Estado sempre fez-se representar pela nobreza e em assim sendo, ela precisava ser defendida, ovacionada, imitada, respeitada e, por que não, perpetuada. Assim nasceram as dinastias comumente comandadas por linhagens de senhores nobres, que se mantinham no poder apoiados na força política das elites e ambos valiam-se um do outro mantendo a plebe sobre controle pelo medo da espada, do confisco, da guilhotina, da fogueira ou do degredo.
Se era direito então era justo. Daí tem início a dialética entre os opostos justiça e injustiça. Afinal, elas existem? Se o cidadão esta subordinado a um sistema de governo injusto, mas cumpre seus deveres cívicos, então ele não seria justo? Partindo dessa premissa é correto concluir que justiça e injustiça sejam subjetividades interdependentes e subordinadas a variáveis culturais, políticas, religiosas válidas em determinada época ou lugar, mas que podem ganhar ou perder importância ao longo do tempo e da evolução daquelas mesmas variáveis? Obvio que sim, pois a humanidade nunca foi uma massa estática e através mesmo da discussão e da contradição de velhos valores é que aconteceu a evolução para o alcance do que hoje se considera como civilização moderna. O adjetivo moderna, aí funcionando como uma filigrana dá ao conceito de civilização certo refinamento que nos transporta direto à idéia de democracia. Nessa situação o Estado perde sua condição de agente absoluto, pois sede espaço ao cidadão, que passa a figurar como protagonista central do Estado Democrático, cuja finalidade precípua não é mais a de se fazer representar por um ditador e sua elite centralizadora, mas a de defender e proteger o direito às liberdades básicas do ser humano, quais sejam: liberdade de expressão, de ir e vir, de educar-se, de investir, de procriar.
Todavia, esses direitos pétreos, com o aperfeiçoamento da filosofia democrática ganharam status de legalidade e passaram a ser regulados pela Constituição e por outros códigos legais, sendo o Poder Judiciário o pilar principal dessa salvaguarda. Entretanto no Brasil, país que se auto-intitula a segunda maior democracia do mundo, andam acontecendo fatos, que nos levam a ter certeza que a democracia brasileira é uma falácia, pois vários desses direitos ainda não são conquistas plenas e aqueles que já se concretizaram andam sendo vilipendiados pelos próprios agentes, cuja missão é exatamente a de regular e fiscalizar as relações entre os cidadãos e destes com o Estado.
Nessa democracia capenga, depois de vermos um senador da República, eleito democraticamente, ter o poder de calar um veículo de informação da importância do jornal ‘O Estado de São Paulo’, termos que engolir figurões, que deviam estar atrás das grades, conduzidos ao poder como se anjos fossem ainda temos que tragar novo boom de notícias que enojam até quem tem um mínimo de dignidade, dando conta de que o poder judiciário, nossa última esperança, também anda se esquecendo de que os cidadãos brasileiros não são presas, mas patrões, que merecem respeito, pois os pagam salários absolutamente dignos, muitas vezes maiores que os de outros profissionais, que também muita dureza enfrentaram, para chegar aonde chegaram e sem dúvida carregam tanta ou mais responsabilidades que esses impolutos senhores togados.
É um chocante achincalhe ouvir dizer que funcionários públicos de um país covarde como o Brasil, que não valoriza professores, nem respeita seus velhos e muito menos crianças, seu maior patrimônio, que usurpa de quem gera empregos e riquezas a maior carga tributária do mundo, pagar a qualquer servidor público quantias que chegam a estratosféricos seiscentos mil reais mensais (US$ 353 mil dólares para ficar mais elegante), enquanto que setenta por cento da população assalariada pelo mínimo levará oitenta e um anos para perceber o mesmo montante, lembrando que esse tempo equivale a quatro gerações. Entretanto, o pior ainda estava por vir, quando o presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, tranquilamente tentando justificar o injustificável, assegurou que era tudo dentro da lei e que estava esperando a fiscalização chegar de braços abertos. Ah, antes que me esqueça, ainda há que mencionar aquele adicional de insalubridade! Certamente seja referindo-se à toxidade da tinta das canetas Mont Blanc ou ao cloro da água que abastece os bebedouros do Tribunal.
Obvio que nós cidadãos brasileiros, portadores da maior paciência da história da humanidade, acreditamos que esta tudo dentro da legalidade. Afinal, o que poderia ser ilegal nas casas onde se falam e se escrevem em nome da lei? Nossa única dúvida, que talvez os nossos meritíssimos desembargadores não respondam, é se essa tal lei seria ditada por alguma divindade do bem ou do mal simpática a todos aqueles que se vestem de negro?
Bom! Do alto da nossa dolorosa indignação, diante de imagens e justificativas grotescas, que aqui nos rincões mineiros conhecem-se como “música para boi dormir”, necessário é que voltemos ao exercício dialético de acima. Num país injusto como o Brasil é justo alguém merecer regalias imperiais de tal vulto, ainda que seja funcionário publico de alta patente? A resposta deixo a cargo da sensibilidade do caro leitor.
Apenas para concluir; diante desses absurdos nacionais, me vem à lembrança a voz do meu velho e saudoso pai, um daqueles exemplares de homens quase extintos, pois nunca ouvi dizer que ele tivesse preço, atestado passado pela população inteira de uma cidade que teve a honra de conhecê-lo, a qual dizia: “meu filho, as leis podem carregar a mácula da insensatez dos homens, por isso é preciso que aquele que tem nas mãos a competência para decidir o destino de alguém, saiba aplicá-las de acordo com a consciência, pois ela não convive com interesses, mas, sobretudo, com a ética e a moral”.
Baseado nessa pérola podemos considerar que seja justo, porque é legal, nossos monárquicos desembargadores serem agraciados com tamanhas benesses, uma vez que certamente seja mesmo um extraterrestre o autor da lei, a qual os confere tão cintilantes vantagens; no entanto seria ético e a MORAL agradeceria, se uma explosão de luz os fizesse desconfiar que o poder de modificá-la reside em suas próprias mãos para o bem de um país aonde há trinta milhões de abandonados que não teem onde cair morto, obviamente não se esquecendo do resto, que paga por uma cesta básica quarenta e cinco por cento de imposto, cuja fome, avitaminoses e exclusão são suas inseparáveis companheiras.


ANTONIO KLEBER DOS SANTOS CECILIO

Euller:"União, estados e municípios não têm compromisso com educação básica de qualidade para todos. Esta é a verdade nua e crua."

SEXTA-FEIRA, 27 DE JANEIRO DE 2012


A realidade do povo pobre do Brasil que a mídia das elites dominantes não mostra


União, estados e municípios não têm compromisso com educação básica de qualidade para todos. Esta é a verdade nua e crua. Por isso, os profissionais da Educação não são levados a sério pelos governantes e pelos titulares dos demais poderes constituídos.

Em Minas Gerais, neste instante, os profissionais da Educação ficaram sabendo o quanto perderam com a nova política remuneratória implantada unilateralmente pelo governo, que burlou a Lei do Piso de forma descarada, ante à omissão e conivência de ministério público, da justiça e do legislativo. Mas, tal fato não constitui exclusividade do estado de Minas Gerais e da sua política de choque de gestão iniciada no governo anterior - cuja característica central tem sido o descaso com os servidores da Educação em especial.

A falta de compromisso com o ensino básico e com seus profissionais atinge a todos os governos das três esferas. O governo federal, por exemplo, faz política seletiva para o ensino superior e uma pequena fatia que estuda nas escolas federais do ensino técnico. Trata-se de uma política seletiva e eleitoreira, pois exclui a enorme maioria pobre da população brasileira, que ao ser privada de um ensino básico de qualidade, é privada também de uma formação crítica, de uma prática cidadã consciente, e da capacidade de concorrer com os filhos das famílias ricas pelos melhores cargos e vagas em escolas superiores ou nas empresas.

O ensino público básico atinge em torno de 50 milhões de crianças, jovens e adultos, que têm na escola pública talvez sua única possibilidade de superação da dramática realidade criada pela reprodução do capital, que marginaliza, exclui, penaliza e joga para o crime organizado, na periferia dos grandes centros urbanos, milhares de crianças e jovens.

Aliás, oferecer um ensino de qualidade para todos parece ser um risco para os de cima, para estes políticos profissionais eleitoreiros, fisiológicos ou ideologicamente comprometidos com políticas excludentes, fascistas e neoliberais. Para eles, manter as pessoas das comunidades afastadas de um ensino de qualidade é o melhor caminho para garantir mão de obra barata, de um lado, e sustentar o crime organizado em pequena grande escala, de outro. Manter a periferia dominada pelo crime em pequena escala chega a ser uma forma de manter a própria comunidade intimidada, submetida às leis do silêncio e do medo, muito apropriadas para os feudos políticos eleitorais. O que eles não querem fazer oficialmente, para não queimarem a sua imagem pública, deixam para que os próprios segmentos dos excluídos executem tais tarefas.

A aparente modernização que certos políticos adoram arrotar e apresentar como modelo de eficiência não passa de um embuste, uma enganação contra a população de baixa renda. Eles são modernos apenas quando se trata de assegurar os fabulosos lucros e ganhos para os amigos deles, que dominam os meios de comunicação, os transportes coletivos, as empreiteiras, os bancos, e que, em contrapartida, financiam suas campanhas eleitorais, nesse jogo de cartas marcadas.

Quando cortam salários dos educadores - como fizeram e continuam fazendo em Minas e no Brasil - estão desviando recursos que deveriam ser investidos na formação de milhões de cidadãos brasileiros para o bolso de minorias privilegiadas. Não têm a menor vergonha em votar tetos salariais para a alta hierarquia dos três poderes, além de todas as benesses inerentes a estes cargos - auxílio paletó, auxílio moradia, gastos com viagens, hotéis, alimentação nos melhores restaurantes, etc., etc., etc. Mas, quando se trata de aplicar uma miserável lei federal que instituiu a Lei do Piso dos profissionais do magistério, fazem o maior drama. Enrolam, tergiversam e burlam a lei federal, para não pagar o que é de direito aos educadores. Em Minas, como em Goiás, em Santa Catarina, no Ceará ou no Rio Grande do Sul, entre outros, para não pagar o piso corretamente, os governos estaduais alteraram as leis estaduais, esvaziando o conteúdo da lei federal. Ou seja, aplicaram um calote nos profissionais da Educação, com a conivência dos ministérios públicos, da justiça, incluindo o STF, do governo federal e a homologação servil dos legislativos estaduais - e do federal também, que chegou a criar uma comissão para acompanhar a aplicação do piso, mas como os governantes de todos os partidos não pagam o piso, a tal comissão morreu antes de nascer.

Este é um país cujas elites dominantes não levam à serio a Educação básica e, consequentemente, tratam com descaso aos profissionais da Educação, porque não apostam no presente e no futuro de milhões de famílias pobres, que são massa de manobra para eleger a cada quatro anos aqueles que atuarão como seus algozes. Foi parte do povo pobre, sem consciência política, que elegeu o canalha do governador de São Paulo, que colocou a tropa de choque da PM para destruir a vida de 6 mil pessoas que moravam em casebres no Pinheirinho, São Paulo, em benefício de um único cidadão - um megaespeculador. Foi parte da população pobre, manipulada por esta mídia mafiosa e vendida, que elegeu o atual governador de Minas e seus deputados, bem como aos piores senadores que teoricamente representam Minas, mas são os mais ausentes dos problemas do estado, e que, juntos - governador, deputados, senadores e seus apoiadores -, destruíram a carreira dos profissionais da Educação de Minas Gerais.

Agora assume o pasta do MEC o sr. Mercadante, substituindo o falastrão e demagogo do Haddad, que nada fez pela Educação básica em sete anos. Pelo pouco que li nos jornais, Mercadante assume fazendo discurso oco, dizendo que é preciso mandar os bons professores para as piores turmas. Um completo desconhecedor da realidade da Educação básica. Deveria primeiro se preocupar em garantir a Carta Magna, que apregoa a valorização dos educadores com o cumprimento da Lei do Piso, ou então federalizar a folha de pagamento dos educadores do ensino básico, para acabar com esta realidade dramática que todos nós vivemos em todas as regiões do Brasil. Mas o problema dessa gente é que eles não têm contato com as realidades vividas nos estados e municípios, com o cotidiano do povo comum. Eles vivem nas nuvens, são blindados pela mídia, pelas tropas de choque das PMs, e até mesmo pelas entidades sindicais, que os promovem, ao invés colocá-los contra a parede e obrigá-los a se expor e a se queimarem, caso venham a trair aos interesses dos de baixo.

Não fosse a liberdade ainda existente na Internet, a realidade brasileira e mundial seria pior do que o fascismo. As elites detêm o total controle da grande mídia, dominam os aparelhos de estado - judiciário, legislativo e executivo - e geralmente dominam também as entidades sindicais, e com isso conseguem blindar os seus agentes, que vivem de aparência midiática. Há muito que os políticos que são votados não existem na vida real, mas são meras máscaras midiáticas construídas em laboratório, com conteúdo decorado e programado para dizer - e fazer, principalmente - o que interessa aos de cima, apenas.

É contra a possibilidade da maioria pobre se revoltar contra essa realidade descrita, injusta e profundamente desigual, que as elites investem pesado na destruição e no sucateamento do ensino público, e consequentemente, na desvalorização do profissional da Educação.

O que o governo de Minas e o governo federal e os demais governos e chefes dos demais poderes vêm fazendo contra os profissionais da Educação é parte integrante de uma política deliberada de manutenção dos pobres deste país na situação de escravos modernos. Forncedores de mão de obra barata, sem formação crítica e curral eleitoral para manter a roda da democracia de fachada girando sobre as nossas cabeças.

Que tenhamos a capacidade de resistir e reagir contra essa política destruidora dos de baixo, e saibamos, nós, os de baixo, nos unir e arrancar os nossos direitos sonegados. O direito ao piso salarial aplicado corretamente na nossa carreira; o direito à moradia digna, ao ensino de qualidade para todos, à saúde pública decente, à liberdade de expressão e opinião, e a reapropriação de espaços públicos, hoje apropriados por interesses privados. A recusa em valorizar os profissionais da Educação é o sinônimo da recusa em proporcionar às famílias pobres do Brasil, que são a maioria, um ensino público de qualidade.

Um forte abraço a todos e força na luta! Até a nossa vitória!

***
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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Euller:"Na democracia de fachada que existe em Minas e no Brasil, educadores mineiros aguardam o simulador das perdas salariais."

QUINTA-FEIRA, 26 DE JANEIRO DE 2012
Na democracia de fachada que existe em Minas e no Brasil, educadores mineiros aguardam o simulador das perdas salariais

Vamos começar pela minha situação: em janeiro 2012, pela tal remuneração unificada (subsídio), vou receber o valor total de R$ 1.336,70. Se o governo me pagasse o piso na carreira corretamente, receberia R$ 1.634,00. Perda mensal de quase R$ 300,00. Para quem tem mais tempo de serviço (tenho quase 8 anos e tive os biênios e quinquênios cortados pelo governo anterior) as perdas são bem maiores, como veremos nos comentários dos colegas. Mas, posso dormir sossegado porque meu futuro está garantido: em 2015 meu salário total vai pular para R$ 1.456,17. Com uma carreira maravilhosa dessa, não há mais o que reclamar, não é mesmo? Tenham bons pesadelos!



Todos nós já vimos coisas ruins demais durante a nossa existência. Uns mais, outros menos, a depender da sensibilidade de cada um, e também das circunstâncias sociais e políticas que cada um esteja envolvido. Não vou negar para vocês: nestes últimos dias estou remoendo um ódio, que mexe com minha habitual tranquilidade, por conta do covarde, cruel e desumano ataque aos moradores de Pinheirinho, em São Paulo. Eu sei que o ocorrido, ou até mesmo coisas mais graves, acontece todos os dias no Brasil e no mundo. Os palestinos que o digam, vítimas que são de sistemáticos e covardes ataques contra milhares de famílias. Os povos da África, igualmente, têm muito a dizer e a chorar pelo que fizeram no passado e continuam fazendo contra suas tribos, seus povos, sua rica cultura, sua brava gente, com a qual o Brasil tem uma dívida histórica impagável.

Em uma palavra, os de baixo, os trabalhadores explorados, estão (estamos) submetidos a um sistema perverso que ceifa a vida, a dignidade e a felicidade de milhões de pessoas, para manter a ganância vazia, pela posse privada ou pelo poder de alguns poucos. Canalhas, bandidos, infelizes, incapazes de repartir o pão com outrem. Querem tudo para si, e por isso despejam bombas, tiros, cassetetes pra cima da gente simples e indefesa.

As leis deste país são uma verdadeira piada, e a maior prova disso foi o nosso piso salarial nacional, aprovado em 2008, depois de 20 anos de enrolação, apesar de constar da Carta Magna de 1988. Pura malandragem destes políticos demagogos. Aprovaram uma lei federal, criaram expectativas para uma categoria sofrida e humilhada como a dos professores e demais profissionais do ensino básico. E passados quatro anos da aprovação desta lei e ela simplesmente não saiu do papel. Fomos enganados, enrolados e sabotados por partidos e governos de todas as esferas: do governo estadual, que alterou a lei local para não pagar o que a lei federal manda pagar, ao governo federal, que finge que não tem nada a ver com a lei federal sonegada pelos estados e municípios.

Se era para não aplicar a lei corretamente, na carreira, respeitando-se os direitos adquiridos, por que fizeram todo este barulho e propaganda em torno do piso salarial nacional? Pura sacanagem, demagogia, que reúne no mesmo balcão da enganação o PSDB de Aécio Neves, Anastasia, Serra e FHC, com o PT de Lula, Dilma, Haddad e Mercadante. No que tange ao ensino básico, que é mais importante, pois é ele que prepara milhões de crianças, jovens e adultos para a vida, estes partidos e governantes estão de mãos dadas no massacre aos profissionais da Educação.

A Justiça no nosso país? Outra piada de mau gosto. Funciona, com raras exceções, a serviço dos ricos e poderosos. Blindam os poderosos, jamais atacam os interesses dos governantes e massacram os de baixo com suas ordens de reintegração de posse, como fizeram agora em Pinheirinho, São Paulo. O interesse particular de um único cidadão, um megaespeculador, que até preso já fora, proprietário do terreno ocupado por seis mil almas, o interesse deste sujeito é mais importante do que o de centenas de famílias. Não se preocuparam os juízes, o governo municipal (canalha) de São José dos Campos e o de São Paulo, com os destinos dessa gente simples. Pouco importa se eles serão lançados ao relento, se serão trucidados na primeira esquina, se muitas famílias serão desfeitas em busca de sobrevivência; se centenas de crianças serão empurradas para o tráfico de drogas por falta de perspectiva. Nada disso preocupa a essa gente sem alma e sem caráter. O que preocupa essa gente é o sagrado direito mercantil de um imbecil construir algum condomínio de luxo para levantar milhões de lucro.

O direito à vida digna, à moradia, ao tratamento digno, a não ter a sua morada invadida de forma violenta, tudo quanto consta da nossa Carta Magna, foi sonegado, rasgado, pisoteado pelas tropas de choque que meteram bala nos moradores indefesos, enquanto o cínico governador de estado comemorava no mesmo domingo o acontecido. O mesmo STF que se apressara em proibir que bandidos de colarinho branco sejam algemados, fizera ouvidos moucos para com mais este massacre de centenas de famílias.

A liberdade de imprensa é outra piada neste país. O que existe é um monopólio da mídia nas mãos de poucas famílias, articuladas com esquemas corruptos de poder político, que decidem os destinos de milhões de pessoas, vendendo mentiras e fantasias baratas para uma população espoliada. Um dos poucos espaços de liberdade que ainda restam está na Internet, onde ainda podemos falar o que pensamos. Mas não duvidem que também neste espaço logo arranjarão alguma forma de cercear nosso direito. É o que vem tentando os EUA, que agora, depois do fechamento do Megauploud, perderam a cerimônia, e já pensam em fechar qualquer site que julgarem conveniente. Iniciativa semelhante de cerceamento da Internet, aqui no Brasil é autoria do ex-governador de Minas Eduardo Azeredo, outro serviçal dos poderosos.

Estamos lidando com pessoas cujos valores se assemelham aos da lógica do fascismo, ou de regimes exceção, de força, totalitários, que discriminam os pobres. Num sistema em crise, como se apresenta o capital, seus principais beneficiários tentam de toda forma transferir as consequências para os de baixo. Promovem políticas de higienização social, jogando os moradores pobres para as franjas dos centros urbanos. Cortam salários, como fez o governo de Minas com os profissionais da Educação, e tentam cortar cada vez mais os direitos e conquistas sociais da população pobre, enquanto mantém e ampliam as vantagens dos de cima. Vocês devem ter visto pela TV a reportagem sobre os mega salários dos desembargadores do Rio de Janeiro, que chegam a R$ 150 mil reais mensais. Enquanto os professores lutam por mísero piso de R$ 1 mil e poucos reais, e ainda assim, os governos, como o de Minas e tantos outros, têm a coragem de burlar este direito.

Ministério Público em Minas Gerais? Outra piada. Depois que o ex-governador e atual senador pelo Rio de Janeiro escolheu o terceiro da lista tríplice para representar este órgão, e diante da atuação vergonhosa do MP durante a nossa greve de 112 dias pelo cumprimento de uma lei federal - atuando como autarquia do governo de Minas - não dá para lever a sério este órgão.

Enfim, no meio desta realidade dramática, resta-nos resistir, buscar a nossa auto-organização e unidade na luta para enfrentar os ataques dos de cima. Não temos a escolha de não querer lutar, a menos que concordemos em perder, perder, perder, sem revidar. E isso não faz parte da natureza humana. E muito menos da nossa natureza, nossa, dos de baixo, explorados, massacrados, mas prontos para a luta.

Por enquanto, aos profissioanais da Educação de Minas Gerais, que tiveram seus direitos cassados, sonegados, burlados descaradamente, ante uma justiça omissa, um MP conivente e um legislativo que é outra piada, composto por um bando de carneiros serviçais do governo, só resta aguardar a publicação da nova condição salarial do subsídio com o tal simulador, que vai simular a nossa dor, ou dissimular a farsa do piso que não foi pago. Caso seja disponibilizado, que cada colega faça a sua consulta e depois mostre para o mundo o quanto cada um perdeu com esta armação feita em Minas para não cumprir a lei federal.

Cada centavo sonegado do nosso bolso será um testemunho vivo de que as leis neste país, e os poderes constituídos que deveriam fazer cumprir estas leis, são meras frases ocas ou peças decorativas quando se trata de beneficiar aos de baixo.

Melhor seria, assim sendo, que a população pobre tivesse a compreensão de que deve se organizar e arrancar os seus direitos na luta, já que as leis e as instituições carcomidas são meras fachadas para esconder o reino das negociatas que beneficiam a alguns poucos, apenas.

Um forte abraço a todos e força na luta! Até a nossa vitória!

***
P.S. Para quem desejar consultar o novo salário basta clicar no primeiro item dos Dados Funcionais no Portal do Servidor.

Postado por Blog do Euler às 00:42 17 comentários

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Blog do Euler vai organizar simulador paralelo para mostrar o quanto se perdeu com o novo sistema remuneratório, que burlou a Lei do Piso.

Blog do Euler vai organizar simulador paralelo para mostrar o quanto se perdeu com o novo sistema remuneratório, que burlou a Lei do Piso


Assim que o governo disponibilizar o seu simulador, a partir do próximo dia 26 (era para ser dia 20, o que não aconteceu), vamos realizar um trabalho paralelo com o simulador do governo. Esta iniciativa vai funcionar da seguinte forma: o servidor da Educação coloca os dados no simulador oficial do governo e tenta descobrir quanto vai receber de salário total. Em seguida, visita o nosso blog e coloca, num comentário, os seguintes dados: a condição funcional até dezembro de 2010 (exemplo: PEB IV D) e as vantagens adquiridas até dezembro de 2011, tipo: número de biênios, quinquênios, pó de giz, gratificação por pós-graduação, etc. Coloque também o valor encontrado no site do governo (o interessado não precisa colocar o nome aqui no blog). De posse desses dados, e com base no valor do piso salarial de 2012 com o reajuste de 22% e aplicado ao nosso plano de carreira e sua tabela salarial vigente até dezembro de 2011, faremos o cálculo de quanto deveria ser o salário total de cada servidor da Educação.

Como cada caso será analisado isoladamente, o resultado que apresentaremos pode demorar um pouco, mas tentaremos responder a todos, ou o maior número possível de comentários. Além disso, os diversos casos apresentados poderão corresponder às realidades de outros colegas, que saberão o quanto perderam com o novo sistema.

Está óbvio para todos nós que o governo burlou a lei federal que instituiu o piso salarial nacional e por isso todos nós seremos prejudicados. A nova lei do subsídio, também chamada de novo modelo de remuneração, acabou com as gratificações, que foram somadas ao vencimento básico, quando este não havia sido sequer corrigido de acordo com a lei federal. Portanto, o governo transformou o nosso piso (vencimento básico) em remuneração total, em desacordo com a lei federal e com a decisão irrecorrível do STF.

Além disso, para efeito de cálculo da remuneração a ser paga em 2012, o governo rebaixou os índices de promoção (de 22% para 10%, e em alguns casos para 5%) e progressão (de 3% para 2,5%) e tomou como referência o valor do piso de 2011, e cujo resultado será pago de forma parcelada entre 2012 e 2015. Somente em janeiro de 2012, por exemplo, o reajuste do piso salarial nacional será de 22%. Mas os salários dos profissionais da Educação de Minas serão reajustados em apenas 5% a partir de abril de 2012. Como se não bastasse, o governo congelou até 2016 a carreira dos educadores, que não poderão mais conquistar qualquer promoção neste longo período.

O próprio exemplo utilizado pelo governo, na propaganda oficial no portal do servidor, para tentar convencer os professores das vantagens do novo e "transparente" sistema, dá-nos uma ideia do confisco. Pelo exemplo citado, um professor com curso superior e 23 anos de serviços prestados receberá, em 2012, apenas R$ 1.380,00 de remuneração total - valor este muito próximo do salário do professor em início de carreira, que receberá R$ 1.320,00. Um verdadeiro ato de destruição da carreira dos profissionais da Educação.

Este mesmo professor (com 23 anos de serviço), se tivesse recebendo corretamente pelo antigo sistema remuneratório - com o piso salarial nacional aplicado na carreira -, teria no contracheque um valor aproximado de R$ 2.970,00 - ou seja, mais do que o dobro do que o valor que será pago pelo governo.

Na verdade, fica cada vez mais claro que os profissionais da Educação de Minas Gerais foram (fomos) vítimas de um verdadeiro golpe dado pelo governo de Minas, com a conivência do legislativo, do judiciário, do ministério público e da mídia, além do governo federal, todos se omitindo ou se aliando ao governo nos seus atos voltados para confiscar direitos assegurados em lei aos trabalhadores da Educação. Calcula-se que mais de R$ 1 bilhão é o tamanho do confisco anual aplicado aos educadores, enquanto o governo exibe, em sua propaganda, números pomposos para tentar iludir a população menos informada da realidade.

Claro está que a categoria terá que reagir a esta agressão e confisco de direitos. Urge que se prepare uma boa ação na justiça para cobrar este e outros tantos direitos que foram retirados pelo atual governo e seu antecessor, que juntos elegeram a Educação pública e os profissionais da Educação como os grandes alvos de destruição. No governo do faraó foram oito anos de arrocho salarial, confiscos e retirada de direitos; no atual governo, consolidou-se o golpe fatal voltado para destruir de vez a carreira dos educadores e com isso, destruir o sonho de muitas gerações de estudantes, que dependem da escola pública como único ou principal meio de formação cidadã e ascensão social.

Minas Gerais deve ser apresentada para os mineiros e para os brasileiros como o pior exemplo de projeto político para a Educação. Ainda que as estatísticas e resultados altamente questionáveis sejam apresentados em propaganda paga, a realidade nua e crua é outra: os profissionais da Educação, que são aqueles que produzem a Educação em interação com os estudantes, estão desmotivados, pois foram humilhados, maltratados, empobrecidos, tiveram seus direitos roubados e se não houver uma radical mudança na política do governo, a Educação pública em Minas vai ao total declínio nos próximos anos. E contra isso, há que se organizar uma grande mobilização da comunidade.

Portanto, aguardemos o (dis)simulador do governo no dia 26 para que iniciemos a nossa comparação paralela com o verdadeiro piso aplicado na carreira, que em Minas Gerais não aconteceu, em total descumprimento a uma lei federal; ante à omissão de todos os poderes das três esferas, que deveriam fazer algo, e até agora nada fizeram. Numa cumplicidade criminosa à luz da legislação federal vigente no país.


Um forte abraço a todos e força na luta! Até a nossa vitória!

P.S. Recomendo a leitura do texto do Frei Gilvander no post abaixo. Além da narrativa doas execuções cometidas em Unaí, que continuam impunes, chama-nos a atenção mais dois fatos gravíssimos: a prática da escravidão, que permanece ainda hoje, e o uso do agrotóxico sem controle, que provoca câncer - o que aliás, seguramente está acontecendo em todo o país, pois não existe fiscalização adequada contra os poderosos do agronegócio. Assim como banqueiros e empreiteiros nadam de braçada nos recursos públicos, favorecidos por políticas feitas por parlamentares capachos, que são eleitos para dizerem amém ao que mandam os governos e seus financiadores, em clara traição ao povo que os elegeu. Somente a mobilização popular, a auto-organização pela base e a resistência organizada e unida dos de baixo poderá colocar um fim nesta tragédia.

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domingo, 15 de janeiro de 2012

Aécio, Anastasia e os R$4,3 bilhões‏

Recebi este e-mail e repasso.

Aécio, Anastasia e os R$4,3 bilhões‏


Olha aí pessoal, onde foi parar o dinheiro para a valorização do funcionário público, para pagar o piso salarial dos professores, para a melhoria do serviço público em Minas? Ninguém sabe, ninguém viu. Quem sabe foi para a campanha milionária para eleger o desconhecido Anastasia?

E aí, quem vai querer votar em Aécio para presidente em 2014?
Até a revista Veja (que é uma porcaria) tá noticiando? Nessa guerra entre José Serra e Aécio Neves nós mineiros é que sairemos ganhando, pois a podridão do P$DB de MG vai vir à tona.
Abraços,
Carla




Aécio Neves no banco dos réus. Senador eleito é acusado de desviar R$ 4,3 bilhões
Publicado em 01/12/2011 por Reinaldo
A Promotoria de Justiça da Saúde entrou com uma ação civil pública por ato deimprobidade administrativa contra o ex-governador de Minas Gerais e senador eleito Aécio Neves e a ex-contadora geral do estado, Maria da Conceição Barros.Na ação é questionado o destino de R$ 3,5 bilhões que teriam sido declarados na lei orçamentária como dinheiro repassado à Companhia de Saneamento de MinasGerais (Copasa) para investimentos em obras de saneamento básico. De acordo com a promotora Joseli Ramos Pontes, o repasse do dinheiro não foi comprovado.Sob a grave acusação de desvio de R$ 4,3 bilhões do orçamento do Estado de Minas Gerais e que deveriam ser aplicados na saúde pública, a administração Aécio Neves/Antônio Anastasia (PSDB) – respectivamente ex e atual governador mineiro – terá que explicar à Justiça Estadual qual o destino da bilionária quantia que supostamente teria sido investida em saneamento básico pela Copasa entre 2003 a 2009.
Devido à grandeza do rombo e às investigações realizadas pelo Ministério Público Estadual (MPE) desde 2007, por meio das Promotorias Especializadas de Defesa da Saúde e do Patrimônio Público, o escândalo saiu do silêncio imposto à mídia mineira e recentemente foi divulgado até por um jornal de âmbito nacional.
Se prevalecer na Justiça o conjunto de irregularidades constatadas pelo MPE na Ação Civil Pública que tramita na 5ª Vara da Fazenda Pública Estadual sob o número 0904382-53.2010 e a denúncia na ação individual contra os responsáveis pelo rombo contra a saúde pública, tanto o ex-governador Aécio Neves, quanto o candidato tucano Antônio Anastasia, o presidente da Copasa, Ricardo Simões, e a contadora geral do Estado poderão ser condenados por improbidade administrativa.
Dos R$ 4,3 bilhões desviados, R$ 3,3 bilhões constam da ação do MPE, que são recursos supostamente transferidos pelo governo estadual (maior acionista da Copasa) para investimento em saneamento básico, na rubrica saúde, conforme determina a lei, entre 2003 e 2008. Como a Justiça negou a liminar solicitada pela promotoria no ano passado, para que fossem interrompidas as supostas transferências, a sangria no orçamento do Estado não foi estancada.
De acordo com demonstrativos oficiais da Secretaria de Estado da Fazenda, somente em 2009 a Copasa recebeu mais de R$ 1,017 bilhões do governo Aécio/Anastasia para serem aplicados em ações e serviços públicos de saúde para cumprimento da Emenda Constitucional nº 29/2000, à qual os estados e municípios estão submetidos, devendo cumpri-la em suas mínimas determinações, como, por exemplo, a aplicação de 12% do orçamento em saúde pública (a partir de 2004), considerada a sua gratuidade e universalidade. Em 2003 a determinação era que se aplicasse o mínimo de10% da arrecadação.
Da mesma forma que não se sabe o destino dos R$ 3,3 bilhões questionados pelo MPE, também não se sabe onde foi parar esses R$ 1,017 supostamente transferidos para a Copasa em 2009.
O cerco do MPE às prestações de contas do governo estadual iniciou-se em 2007, quando os promotores Josely Ramos Ponte, Eduardo Nepomuceno de Sousa e João Medeiros Silva Neto ficaram alertas com os questionamentos e recomendações apresentadas nos relatórios técnicos da Comissão de Acompanhamento da Execução Orçamentária (CAEO), órgão do Tribunal de Contas do Estado (TCE), desde a primeira prestação de contas do governo Aécio. Chamou-lhes a atenção, também, o crescimento, ano a ano, a partir de 2003, das transferências de recursos à Copasa para aplicação em saneamento e esgotamento sanitário.
Os promotores Josely Ramos, Eduardo Nepomuceno e João Medeiros querem que a administração do governo de Minas e da Copasa, conduzida na gestão Aécio Neves/Anastasia, devolva ao Fundo Estadual de Saúde os R$ 3,3 bilhões que é objeto da Ação Civil Pública que tramita na 5ª Vara da Fazenda Pública Estadual e que segundo eles podem ter sido desviados da saúde pública.
No pedido de liminar na ação, os promotores já antecipavam e solicitavam à Justiça que “seja julgado procedente o pedido, com lastro preferencial na metodologia dos cálculos apresentados pelo Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais, para condenar os réus, solidariamente ou não, à devolução de todos os valores transferidos à COPASA do orçamento vinculado às ações e serviços de saúde que não foram utilizados em saneamento básico entre os anos de 2003 e 2008, totalizando R$ 3.387.063.363,00 (três bilhões, trezentos e oitenta e sete milhões, sessenta e três mil e trezentos e sessenta e três reais), a serem depositados no Fundo Estadual de Saúde.”
Como o MPE encurralou o governo e Copasa
Para encurralar o governo do Estado e a Copasa, o MPE se valeu de sua autonomia investigativa e requereu às duas instituições as provas que pudessem revelar como foram aplicados os recursos públicos constantes das prestações de contas do Executivo e nos demonstrativos financeiros da empresa.
O que os promotores constataram foi outra coisa ao analisarem os pareceres das auditorias externas realizadas durante esse período: “Além disto, as empresas que realizaram auditoria externa na COPASA, durante o período de 2002 a 2008, não detectaram nos demonstrativos financeiros da empresa os recursos públicos que deveriam ser destinados a ações e serviços da saúde.”
As discrepâncias contidas nas prestações de contas do Estado levaram os promotores a consultar a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), à qual a Copasa deve apresentar seus demonstrativos financeiros e balanços anuais.
Em sua resposta à consulta, a CVM respondeu ao Ministério Público Ofício que “após análise de toda a documentação, não foram encontrados evidências da transferência de recursos da saúde pública para investimentos da COPASA, nos termos da Lei Orçamentária do Estado de Minas Gerais e na respectiva prestação de contas do Estado de Minas Gerais, conforme mencionado na consulta realizada por esta Promotoria de Justiça”.
Na página 26 das 30 que compõem a ação, os promotores afirmam o seguinte sobre a ausência das autoridades convocadas para prestar esclarecimentos sobre o assunto:
“Ressalte-se que a COPASA recusou-se a prestar informações ao Ministério Público sobre os fatos aqui explicitados. Notificado a comparecer na Promotoria de Justiça de Defesa da Saúde, seu Presidente apresentou justificativa na data marcada e não compareceu.A Contadora Geral do Estado também notificada a prestar esclarecimentos, na condição de técnica que assina a Prestação de Contas, também apresentou justificativa pífia e não compareceu na data marcada. Finalmente, a Auditora Geral do Estado, que também assina as Prestações de Contas do Estado, que poderia e até deveria colaborar com a investigação, arvorou-se da condição de servidora com status de Secretário de Estado, por força de dispositivo não aplicável à espécie, contido em lei delegada estadual (sic) e não apresentou qualquer esclarecimento ao Ministério Público.”
Fabrício Menezes – Jornalista Fonte: Blog da Renata

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

EULLER:"Reajuste de 22% para o piso salarial dos educadores não se aplicará a Minas Gerais. Afinal, estamos em outro país?"

QUINTA-FEIRA, 12 DE JANEIRO DE 2012
Reajuste de 22% para o piso salarial dos educadores não se aplicará a Minas Gerais. Afinal, estamos em outro país?






Caso se confirme o reajuste de 22% para o piso salarial nacional dos profissionais da Educação do Brasil, em janeiro de 2012, a ser anunciado pelo MEC, os educadores de Minas Gerais não serão contemplados com o novo piso. Em Minas, por conta da Lei do Subsídio aprovada a toque de caixa pelo governo e seus deputados, o reajuste dos profissionais da Educação será de apenas 5%, e em abril de 2012.

O motivo do descompasso entre a política nacional de valorização dos educadores, instituída por lei federal e por decisão irrecorrível do STF, e a realidade específica de Minas pode ser explicada pelo descumprimento da norma legal que instituiu a Lei do Piso em 2008. A Lei Federal 11.738, que regulamentou o inciso VIII do artigo 206 da Constituição Federal, determina os seguintes pressupostos:


a) que o piso salarial dos profissionais do magistério é vencimento básico - e não remuneração total -, sobre o qual incidirão as gratificações e vantagens adquiridas pelo servidor da Educação. O próprio STF, questionado por cinco desgovernadores sobre a interpretação desta parte claríssima da lei, pronunciou-se em abril de 2011: "piso é salário inicial, vencimento básico, e não remuneração total";

b) que o piso fosse pago integralmente - ainda que respeitada a proporcionalidade da jornada de trabalho de cada ente da federação - a partir de janeiro de 2010;

c) que os estados e municípios criassem o plano de carreira ou adaptassem o plano de carreira existente, ajustando-o às normas da Lei Federal que instituiu a Lei do Piso. Ou seja, no caso de Minas, que se aplicasse a Lei do Piso na carreira existente, ao invés de destruí-la;

d) que um terço da jornada de trabalho fosse dedicada às atividades extraclasse, ou seja, fora de sala de aula;

e) que em janeiro de cada ano o piso seja reajustado pelo mesmo percentual do aumento anual do custo aluno ano.

Começando pelo final, o custo aluno ano já anunciado pelo MEC é de cerca de 22%. Logo, embora o MEC e o governo Federal estejam enrolando em anunciar o novo valor do piso - e com isso dando tempo aos governos estaduais e municipais de pressionarem os deputados para alterarem a lei do piso, como já tentaram fazer em 2011 -, não restará outra medida a ser anunciada pelo MEC senão a confirmação do reajuste do piso em 22%.

Tal reajuste colocaria o valor do piso em torno de R$ 1.450,00 para o profissional com ensino médio e jornada de trabalho de até 40 horas semanais. Em Minas Gerais, caso a lei federal fosse aplicada corretamente na tabela salarial do plano de carreira criado pelo governo do faraó e seu afilhado em 2004/2005 - e recentemente destruído pelo governo do afilhado e seus 51 deputados - o vencimento básico ficaria assim, para a carreira inicial dos professores:

PEBIA (professor com ensino médio): R$ 870,00; PEBIIA (professor com licenciatura curta): R$ 1.061,40; PEBIIIA (professor com licenciatura plena): R$ 1.294,90; PEBIVA (professor com especialização): R$ 1.579,79; PEBVA (professor com mestrado): R$ 1.937,24; PEBVIA (professor com doutorado): R$ 2.351,35.

Sobre estes valores de vencimento básico incidiriam as gratificações, como pó de giz, biênios, quinquênios, trintenário, gratificação por pós graduação. Um professor com curso superior em início de carreira, por exemplo, tendo somente o pó de giz, receberia pelo menos R$ 1.553,88. Se este professor já estivesse na Letra C, seu vencimento total seria de R$ 1.648,51. Para um professor mais antigo no estado - por exemplo, com 20 anos de serviço prestado, e com 110% de gratificações, e se estivesse na Letra D -, teria direito a um salário total de R$ 3.565,73 por um cargo completo.

Mas, como o governo de Minas não cumpriu a lei federal que instituiu o piso, e ao contrário disso, fez exatamente aquilo que era proibido fazer, os educadores do estado receberão valores bem inferiores ao que têm direito pela lei federal. No subsídio, o professor com curso superior em início de carreira receberá R$ 1.320,00 de salário total e terá um pífio reajuste de 5% em abril de 2012. Os professores mais antigos receberão em torno de 50% do valor a que teriam direito em relação ao piso corretamente aplicado na carreira. Em outro post, eu calculei aqui que as perdas anuais serão entre R$ 3.000,00 - para os novatos - a R$ 30.000,00 - para os mais antigos servidores.

Ao instituir o subsídio 1 e depois o subsídio 2, com o nome de modelo unificado de remuneração, o governo destruiu a carreira dos profissionais da Educação de Minas, confiscando as gratificações e transformando o piso em remuneração total. Ou seja, o governo somou os valores nominais das gratificações com o vencimento básico quando este estava com valores defasados, antes de se aplicar o piso, criando assim a parcela única total, e com isso descaracterizando a lei do piso.

O resultado desta engenharia salarial confiscatória é que as gratificações enquanto percentuais sobre o vencimento básico desapareceram. Como não há vencimento básico a ser corrigido anualmente em Minas, mas remuneração total, o valor do subsídio - por ser remuneração total e não vencimento básico - fica sempre acima do valor proporcional do piso salarial. Com isso, o governo de Minas não precisará aplicar os reajustes anuais anunciados pelo MEC. Pela fórmula que burlou a lei do piso, Minas poderá ficar vários anos sem conceder um centavo de reajuste salarial e ainda assim o subsídio ficará dentro dos valores nominais do valor do piso. Pois, são dois conceitos diferentes: piso é salário inicial, enquanto subsídio é remuneração total, aquilo que o STF rejeitou. Portanto, claro está que tal fato se deve a uma manobra do governo para escapar da norma federal que instituiu a lei do piso.

O grave nisso tudo é que a lei do piso fora criada para valorizar o profissional da educação. Trata-se de uma exigência constitucional, inserida em toda a legislação federal educacional. Foi por este motivo, inclusive, que o STF considerou o piso dos educadores enquanto vencimento básico como matéria constitucional. Porque trata-se de uma política nacional voltada para a valorização dos educadores - política esta que transcende aos interesses regionais voltados para outras prioridades, como é o caso de Minas Gerais e de outros estados e municípios. O legislador - e assim entendeu o STF - compreendeu que o piso era o mecanismo concreto de viabilizar uma política nacional de valorização dos educadores. Tanto assim que a lei federal que instituiu o piso nacional inseriu o caráter de compartilhamento, cooperação, entre os entes federativos, além da fonte de financiamento do piso, para que não houvesse desculpas para não se pagar o piso aos educadores.

Mas, em Minas Gerais, quebrando o ordenamento jurídico nacional e o pacto federativo, e em clara desobediência à norma federal que instituiu a Lei do Piso, criou-se outra lei estadual, após a criação da Lei do Piso e da decisão do STF - o que constitui uma afronta aos poderes constituídos - sepultando o plano de carreira dos educadores existente, e impondo mudanças que esvaziam o conteúdo da Lei do Piso, tornando-a letra morta no estado (ou país?) de Minas Gerais.

Infelizmente, tal fato se deu com a aquiescência do poder legislativo mineiro, que mais uma vez se apequenou diante de sua atribuição constitucional; e também diante da omissão do Ministério Público estadual, que também deixou de cumprir o seu papel constitucional de fiscal da lei. A própria justiça, ao perceber tal desvio de conduta do poder executivo, em clara ameça ao interesse público que tem direito ao ensino de qualidade - o qual está diretamente associado à política de valorização dos educadores - igualmente tem se omitido. E para completar o quadro de descaso para com os interesses da população, o estado de Minas tem uma grande mídia que é grande em tamanho e em negócios, mas pequena em matéria de jornalismo sério, independente e em defesa da população, especialmente dos mais necessitados.

Portanto, o anúncio do novo piso salarial nacional, que não tarda a acontecer - apesar da enrolação do governo federal - não se aplica a Minas Gerais, mas talvez sirva como estímulo para que a categoria não desista de lutar pelos direitos que a lei assegura. Que sejamos capazes de construir a nossa estratégia de luta, que passa por uma adequada assistência jurídica em defesa do piso e pela devolução do que nos foi tirado em 2011 (redução ilegal de salário, cortes, redução do 13º salário, pagamento de reposição menor do que o combinado), e pela mobilização da comunidade em defesa da Educação pública de qualidade, da nossa carreira, e do piso salarial a que nos pertence.

Um forte abraço a todos e força na luta! Até a nossa vitória!

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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Bill Gates: " O que as escolas não ensinam."




O reitor de uma Universidade do Sul da Califórnia enviou um e-mail para a Microsoft convidando Bill Gates a fazer um discurso no dia de formatura, incentivando os formandos no início de suas carreiras e, para sua surpresa, Bill Gates aceitou. Esperava-se que ele fizesse um discurso longo, de mais de uma hora, afinal ele é o dono da Microsoft e possuiu a maior fortuna pessoal do mundo! Mas Bill foi extremamente lacônico, falou apenas durante 5 minutos, subiu em seu helicóptero e foi embora.

A seguir, as 11 regras que ele compartilhou com os formandos naquela ocasião:

“- Vocês estão se formando e deixando os bancos escolares, para enfrentarem a vida lá fora. Não a vida que você querem, não a vida que vocês sonharam ter, a vida como ela é. Você estão saindo de um mundo educacional que está pervertendo o conceito da educação, adotando um esquema que visa proporcionar uma vida fácil para a nova geração. Essa política educacional leva as pessoas a falharem em suas vidas pessoais e profissionais mais tarde. Vou compartilhar com vocês onze regras que não se aprendem nas escolas:

Regra 1: A vida não é fácil. Acostume-se com isso.

Regra 2: O mundo não está preocupado com a sua auto-estima. O mundo espera que você faça alguma coisa de útil por ele (o mundo) antes de aceitá-lo.

Regra 3: Você não vai ganhar vinte mil dólares por mês assim que sair da faculdade. Você não será vice-presidente de uma grande empresa, com um carrão e um telefone à sua disposição, antes que você tenha conseguido comprar seu próprio carro e ter seu próprio telefone.

Regra 4: Se você acha que seu pai ou seu professor são rudes, espere até ter um chefe. Ele não terá pena de você.

Regra 5: Vender jornal velho ou trabalhar durante as férias não está abaixo da sua posição social. Seu avós tinham uma palavra diferente para isso. Eles chamavam isso de “oportunidade”

Regra 6: Se você fracassar não ache que a culpa é de seus pais. Não lamente seus erros, aprenda com eles.

Regra 7: Antes de você nascer seus pais não eram tão críticos como agora. Eles só ficaram assim por terem de pagar suas contas, lavar suas roupas e ouvir você dizer que eles são “ridículos”. Então, antes de tentar salvar o planeta para a próxima geração, querendo consertar os erros da geração dos seus pais, tente arrumar o seu próprio quarto.

Regra 8: Sua escola pode ter criado trabalhos em grupo, para melhorar suas notas e eliminar a distinção entre vencedores e perdedores, mas a vida não é assim. Em algumas escolas você não repete mais de ano e tem quantas chances precisar para ficar de DP até acertar. Isto não se parece com absolutamente NADA na vida real. Se pisar na bola está despedido… RUA! Faça certo da primeira vez.

Regra 9: A vida não é dividida em semestres. Você não terá sempre férias de verão e é pouco provável que outros empregados o ajudem a cumprir suas tarefas no fim de cada período.

Regra 10: Televisão não é vida real. Na vida real, as pessoas têm que deixar o barzinho ou a boate e ir trabalhar.

Regra 11: Seja legal com os CDF´s – aqueles estudantes que os demais julgam que são uns babacas. Existe uma grande probabilidade de você vir a trabalhar para um deles.”

Reflita agora sobre as palavras do Bill e pense em como isso se enquadra no conceito de Valor e Honra.

Cidades mineiras afetadas pelas chuvas, São João del Rei já tem centenas de famílias desalojadas.


As coisas aqui estão ficando difíceis assim como em muitos lugares de Minas e do Brasil. Há sim má vontade política de estruturar a cidade de forma a suportar a época das chuvas, assim como há culpa de todos que com o péssimo hábito de jogar lixo nas ruas, boeiros e no córrego, contribuem para piorar a situação.
Vejam essas fotos!!!!
Vanda




(foto de Vinícius do Axé)





(Paulo Henrique Nunes)






(foto de Lucas Santos)


(foto de Isabel Vale)





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10/01/2012 12h51 - Atualizado em 10/01/2012 12h53
São João Del Rei tem cerca de 300 famílias desalojadas, diz Defesa Civil
Cerca de 800 pessoas foram afetadas pelas chuvas no município.
Vinte e cinco moradores estão desabrigados.
Do G1 MG


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O Rio das Mortes e o Córrego Linheiros transbordaram em São João Del Rei, na Região Central de Minas Gerais, e deixaram cerca de 300 famílias desalojadas, segundo a Defesa Civil municipal. O órgão informou que 800 pessoas foram afetadas pela chuva deste fim de semana, sendo que 25 estão desabrigadas. Choveu forte no município de sábado (7) até esta segunda-feira (9).

De acordo com a Defesa Civil, três casas desabaram e uma corre risco de desabar. Não houve vítimas e as famílias desabrigadas foram encaminhadas para uma escola pública da cidade. O bairro Colônia Giarola está totalmente alagado, e mais quatro bairros estão parcialmente inundados.

O Corpo de Bombeiros informou que, desde domingo (8), eles recebem vários chamados nas cidades de Tiradentes, Santa Cruz de Minas, além de São João Del Rei, devido as chuvas.

Santa Cruz e Tiradentes tiveram ruas alagadas por rios que passam pela cidade, afirmou ainda a corporação. O acesso a Tiradentes pela MG-265 foi interditado devido a alagamento na pista. A Maria Fumaça que faz trajeto entre Tiradentes e São João Del Rei não está funcionando por causa da chuva.

A rodovia que dá acesso de São João Del Rei para Ritápolis, a MG-494, está bloqueada. Além delas, a MGT-383, próximo ao município de Prados, também teve o tráfego impedido por causa da inundação, segundo o Corpo de Bombeiros.

Balanço
A Coordenadoria Estadual de Defesa Civil de Minas Gerais informou que as mortes pelas chuvas no estado subiram para 15 nesta segunda-feira (9). O número refere-se ao período desde outubro do ano passado, quando começaram a ser contabilizados os óbitos causados pelas enchentes e deslizamentos.

De acordo com o órgão, três pessoas estão desaparecidas, uma em Santo Antônio do Rio Abaixo, outra em União de Minas e uma em Além Paraíba. No total, 167 municípios foram atingidos pelas tempestades durante o período, afetando mais de 2,2 milhões de pessoas. Destas, 12.875 pessoas estão desalojadas e outras 1.240 estão desabrigadas. Trinta e seis pessoas ficaram feridas. Até esta terça-feira (10), 131 casas e 112 pontes foram destruídas.
Segundo o balanço da Defesa Civil, divulgado nesta terça-feira, 116 cidades já decretaram situação de emergência em Minas Gerais.

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Minas Gerais afetada

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

EULLER:"Se houvesse a federalização, os recursos do FUNDEB em 2012 dariam para pagar R$ 3.000,00 de salário para os professores de todo o Brasil."

SEGUNDA-FEIRA, 9 DE JANEIRO DE 2012
Se houvesse a federalização, os recursos do FUNDEB em 2012 dariam para pagar R$ 3.000,00 de salário para os professores de todo o Brasil


As elites brasileiras não querem que a Educação pública no ensino básico funcione a contento. Por isso aplicam golpes, calotes, confiscos, ao invés de buscarem reais soluções para os problemas da Educação básica, sendo o da valorização do profissional da Educação o principal deles. O piso salarial nacional, por exemplo, criado para cumprir essa função determinada pela Carta Magna - a de valorizar o educador - tem surtido efeito inverso, como acontece em Minas Gerais - mas não somente -, onde o governo, para não cumprir a lei federal, alterou a lei estadual, esvaziando a essência da Lei do Piso.

A par desta realidade dramática, ficamos sabendo, através do site do MEC, que em 2012 a receita do FUNDEB será de R$ 114 bilhões de reais. O FUNDEB, como já explicamos aqui, é um fundo contábil que recebe repasses constitucionais dos impostos dos municípios e estados e a complementação da União. Cada ente federado administra o "seu" FUNDEB praticamente ao bel prazer, já que não existem mecanismos sérios de fiscalização e controle, o que provoca geralmente desvios, má utilização, inchaço da folha de pagamento, etc. E com isso, os grandes prejudicados são os profissionais da Educação e a população brasileira, que necessita e tem direito a um ensino público de qualidade.

Contudo, bastaria uma conta rápida para percebermos o quanto os recursos da Educação existem, mas são investidos de forma inadequada, em função deste sistema descentralizado de gestão do FUNDEB. No Brasil existem cerca de 3 milhões de profissionais da Educação na ativa, sendo que dois terços destes são professores. Façamos então uma conta simples: R$ 114 bilhões (recursos totais do FUNDEB) divididos para 3 milhões de educadores, dá uma média de R$ 38.000,00 por ano para cada profissional da Educação. Este valor dividido por 13,33 (13 salários mais o terço de férias) resulta em R$ 2.850,00 mensalmente por educador. Mas, se considerarmos que boa parte dos profissionais é composta por servidores com ensino médio e salários mais baixos do que os cargos com exigência de ensino superior - além das diferentes situações funcionais - veremos que, com os recursos do FUNDEB seria possível pagar pelo menos R$ 3.000,00 por professor por cargo.

Ainda que fosse necessário uma pequena complementação extra do governo federal, para as poucas realidades onde os salários tenham atingido patamares maiores, seria possível iniciar assim uma real política de valorização profissional dos educadores. Se houvesse de fato interesse e disposição política para tal. E vocês podem perguntar: e por que então os recursos do FUNDEB, distribuídos de forma descentralizada, são insuficientes? Uma primeira resposta pode ser a de que existem realidades diferentes, com estados ricos arrecadando mais que estados ou municípios pobres. Isso, contudo, só justifica a necessidade de um controle nacional destes recursos, para a sua distribuição com os mesmos critérios. Mas, há outras respostas para a dúvida levantada. Uma delas, é a má gestão dos recursos por prefeitos e governadores, que lançam mão das verbas do FUNDEB para bancar coisas que fogem à natureza deste fundo. Por exemplo: pagar pessoal que não é da Educação com recursos do FUNDEB; ou pagar pessoal da Educação que já esteja aposentado, os quais devem receber sua merecida aposentadoria - com valores equivalentes aos do pessoal da ativa - com recursos do tesouro do estado, caso a previdência não detenha tal recurso, mas não do FUNDEB; além de desvios com contratações de serviços e obras superfaturadas.

Se os recursos do FUNDEB fossem administrados por uma secretaria nacional, que ficasse responsável pela remuneração de uma folha federalizada dos profissionais da Educação, seguramente a história seria outra. Acabaria a politicagem de estados e municípios em manusear a folha e a contratação para atender a interesses de caixa, ou de políticos regionais; seria possível estabelecer uma política nacional de fato, com a real aplicação do piso salarial nacional e um plano de carreira nacional, com a devida valorização dos profissionais. E até mesmo a remoção entre profissionais de distintas redes em qualquer parte do país poderia ser pensada. Além, é claro, de uma política séria de formação continuada.

Nada disso acontece porque as elites dominantes não têm interesse que o estado cumpra o seu papel constitucional, de oferecer um ensino público de qualidade para todos, especialmente para a maioria da população de baixa renda, que necessita e tem direito a este ensino de qualidade. Ao não remunerar dignamente o educador, não valorizar o profissional da Educação, os governantes apostam no sucateamento do ensino público, abrindo e ampliando os espaços para a crescente privatização do ensino.

E enquanto isso, o que assistimos em todo o Brasil? Os estados e municípios desenvolvendo políticas de choque de gestão, sinônimo de choque de confisco salarial dos educadores, recusando-se até mesmo a pagar o rebaixado valor do piso salarial nacional. É o triste retrato de um país cujos governantes e parlamentares e juízes e promotores públicos demonstram, com raras e honrosas exceções, pouco respeito para com os interesses públicos dos de baixo.

E assim caminha o Brasil: de um lado, a propaganda de um valor pomposo para o FUNDEB de 2012 de R$ 114 bilhões, o qual, aritmeticamente falando, daria para proporcionar R$ 3.000,00 mensais para cada professor por cada cargo; de outro lado, a realidade nua e crua dos governos estaduais e municipais burlando a lei do piso e pagando a metade ou menos do valor a que os educadores fazem jus.

Que os profissionais da Educação, os pais de alunos e os estudantes reflitam sobre essa realidade e lutem para mudá-la. Esta mesma realidade, que está presente também muito provavelmente na Saúde pública, ou nos recursos que os políticos arrecadam durante as enchentes - e depois deixam de usá-los corretamente -, entre outros. O que não podemos é assistir a tudo isso calados, sem nada fazer.

Um forte abraço a todos e força na luta! Até a nossa vitória!

***


Frei Gilvander:

Balanço da Reforma Agrária em 2011 feito pela CPT

Vejam balanço da reforma agrária em 2011, realizado pela equipe da CPT do nordeste, objetivo e claro. 05/01/2012.

O início de 2011 foi marcado pela perspectiva de que o governo da Presidenta Dilma pudesse percorrer o caminho para superar os desafios e impasses históricos da Reforma Agrária no Brasil. Com o apoio da maioria no Congresso Nacional, a nova Presidenta teria, nesse campo estratégico, condições políticas para impulsionar um processo de Reforma Agrária, o que nunca foi feito no Brasil.

Apesar dessas legítimas expectativas, o que se configurou na prática foi que o Estado brasileiro direcionou toda a sua energia para garantir o avanço de um modelo ultrapassado de desenvolvimento para o país, com um perfil concentrador de renda, prejudicial ao meio-ambiente e às populações tradicionais.

De fato, as diretrizes política e econômica do governo são as mesmas do grande capital. Como consequência desta opção, os maiores impactados foram os trabalhadores e trabalhadoras rurais, as comunidades tradicionais, indígenas, posseiros, ribeirinhos, toda a diversidade de povos que vivem no campo brasileiro e a mãe Terra.

De um lado, isso reflete uma violência e o abandono do povo excluído. Do outro, tem provocado um momento de retomada de mobilizações e independência dos pequenos, frente à traição de quem julgavam ser aliados. Essa importante retomada vem acontecendo em toda América Latina.

No Brasil, a obsessão do Governo da Presidenta Dilma pela implantação de grandes projetos e pela produção ilimitada de commodities tem levado as populações tradicionais, indígenas e camponeses a retomarem seus originais métodos de protesto. Exemplo emblemático disto é o debate em torno da Hidroelétrica de Belo Monte e do Código Florestal.

A Reforma Agrária agoniza.

Os números da Reforma Agrária deste governo, em relação às famílias assentadas, foram ainda piores do que o primeiro ano do governo anterior. Em 2011, somente 6.072 famílias foram assentadas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). O número é pífio e insignificante diante da quantidade de famílias acampadas que se encontram do outro lado das cercas do latifúndio do agronegócio. De acordo com estimativas do próprio Incra, existem aproximadamente 180 mil famílias debaixo da lona preta em todo o país.

De um lado, o número insignificante de desapropriações. Do outro, um imenso contingente de famílias sem terras. Esta realidade se choca com outra: a da grande disponibilidade de terras improdutivas e devolutas no país. Os dados oficiais mostram que mais de dois terços das propriedades de grande e médio porte não cumprem com sua função social. Terras improdutivas, assim como as devolutas, deveriam ser destinadas imediatamente para fins de Reforma Agrária, no entanto já possuem um destino definido: o agro-hidronegócio e os projetos de desenvolvimento.

Mesmo nas áreas de assentamentos, continuou faltando política de Estado. Neste cenário de total ausência de incentivo à agricultura camponesa, muitas famílias foram mantidas à mercê do capital, de seus interesses e de seus instrumentos de controle e de exploração. Nas regiões de monocultivo da cana-de-açúcar, por exemplo, as Usinas ocupam o vácuo deixado pelo Estado e se apropriam do território camponês, oferecendo financiamento, infraestrutura e assistência técnica às famílias, tornando-as reféns da lógica definida pelo modelo de produção do agronegócio.

Por outro lado, o Governo não mediu esforços para garantir o avanço do agronegócio e do latifúndio, principalmente sob áreas tradicionalmente ocupadas por camponeses e camponesas. Um dos exemplos mais marcantes aconteceu em maio, quando a presidenta Dilma assinou de uma única vez, o decreto de desapropriação de quase 14 mil hectares na Chapada do Apodí/RN, para implantação do Projeto de irrigação que beneficiará meia dúzia de empresas do agronegócio. Em consequência, serão atingidos e prejudicados milhares de pequenos agricultores que desenvolvem experiências de convivência com o semiárido, reconhecidas internacionalmente.

É espantoso que Lula, em seus últimos anos de governo, não tenha chegado a desapropriar 14 mil hectares para a Reforma Agrária no RN e que Dilma, muito provavelmente, não desaproprie 14 mil hectares para essa finalidade em todo o seu governo. Entretanto, logo no seu primeiro ano de mandato, ela já desapropriou essa grande quantidade de terras para atender ao agronegócio. Além deste caso, vimos também a desapropriação de cerca de 8 mil hectares na região de Assú, também no RN, para a Zona de Processamento de Exportação (ZPEs).

Para os Povos indígenas e quilombolas que travam no dia-a-dia um embate pelo direito a terra, enfrentando a chegada do agronegócio e dos projetos governamentais, não há o que comemorar em 2011. Foram homologadas apenas três terras indígenas, sendo duas no estado do Amazonas e uma no Pará. O Governo não se sensibilizou nem com a situação dos povos indígenas de Mato Grosso do Sul, em especial os Kaiowá e Guarani, que vivem em conflito com fazendeiros e usineiros da região. Nenhuma ação foi feita para homologação das terras neste estado. No caso das populações descendentes de Zumbi dos Palmares, fora a desapropriação do território da comunidade de Brejo dos Crioulos, em Minas Gerais, poucos foram os resultados conseguidos frente às reivindicações e resistências das 3,5 mil comunidades quilombolas existentes no Brasil. De todas, apenas 6% tem a titulação de suas terras.

Também em 2011 foi dada a concessão, pelo Ibama, da licença de instalação para a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu (PA), o que possibilitou o início das construções na região. Belo Monte é uma das principais obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e a primeira de inúmeras usinas a ser instalada na região Amazônica para beneficiar as grandes mineradoras, devastar a floresta e acabar com a forma de viver dos índios. Com ela, expande-se sobre a floresta o modelo de exploração e degradação planejado há 50 anos pelo grande capital.

Na contramão do que reivindicam as populações tradicionais e os sem terras, o Governo ainda anunciou uma redução do orçamento da Reforma Agrária para 2012. De acordo com o projeto de lei orçamentária previsto para o ano de 2012, as ações de obtenção de terras terão uma drástica redução de 28% em relação a 2011 e de 31,2% em relação a 2010. Além disso, a assistência técnica, já inviabilizada pelo Governo nos anos anteriores, ainda sofrerá uma redução de 30% em relação a 2010. Para a implantação de infraestrutura, o orçamento prevê uma perda de 8% em relação a 2011. Já a área da educação sofreu uma perda de quase R$ 55 milhões em comparação a 2009, correspondendo a uma redução de 63% de seu orçamento.

O Retrocesso continuou também na lei. O ano de 2011 se encerra com mais uma vitória da Bancada Ruralista. A aprovação do Código Florestal no Congresso Nacional ultrapassou as expectativas dos aliados da motoserra no Governo. Com retrocessos históricos, o Código prevê, entre outros exemplos gritantes, a anistia aos desmatadores anteriormente a julho de 2008, no que diz respeito ao dever de recuperação ambiental. Posição esta, aquém do entendimento consolidado até então pelo conservador Poder Judiciário brasileiro.

Como se não bastasse, a Lei complementar de nº 140, no que se refere à gestão ambiental, foi sancionada pela presidenta Dilma no final do ano, sem alardes. Com a aprovação da lei complementar, as competências de gestão ambiental ficam diluídas nos Estados e nos Municípios, que são muito mais vulneráveis a pressões políticas e empresariais.

A nova ameaça de retrocesso em curso é o lobby para um novo Código Mineral, que vem sendo redigido no Governo e no Congresso Nacional, sem o debate e sem a participação da sociedade e das populações diretamente interessadas e que serão atingidas, em sua grande maioria comunidades tradicionais.

Enquanto isso, avançam os grandes projetos de forma truculenta.

Em 2011, obras impactantes como a Transposição do Rio São Francisco, a Transnordestina, projetos de mineração, construções de BR's, a especulação imobiliária, obras da Copa, Porto de Suape, a construção da Hidrelétrica de Belo Monte e do Rio Madeira, barragens, além de outros mega-projetos, foram um dos principais causadores de conflitos agrários no país.

Para se ter uma ideia da gravidade desses efeitos sobre as populações tradicionais, no período de janeiro a setembro de 2011, registramos um total de 17 assassinatos de trabalhadores no campo. Destes assassinatos, pelo menos 8 têm ligações com a defesa do meio ambiente, 04 estão relacionados com as comunidades originárias ou tradicionais.

Em Alagoas, ocorreu o avanço do projeto de plantação de Eucalipto por parte do Grupo Suzano, especializado na fabricação de papel e celulose. O Grupo reivindica uma área de 30 mil hectares para viabilizar o investimento. O Governo do Estado já sinalizou positivamente e já tem mapeadas as terras que serão destinadas para a plantação do monocultivo.

Na Paraíba, outro fato emblemático foi o apoio incondicional do Governo para a implementação de uma Fábrica de Cimentos da Empresa Elizabeth em uma área de assentamento no litoral sul do Estado. A área que será ocupada pela Empresa também é reivindicada pelo povo indígena Tabajara.

Em Pernambuco, a Transnordestina atingiu as comunidades camponesas por onde tem passado, desde o Sertão, como o caso do município de Betânia até a Zona da Mata, como as famílias de Fleixeiras, no município de Escada, que resistiram bravamente ao despejo que daria lugar aos trilhos da Ferrovia.

Lutas e Resistência Camponesa em 2011.

Os camponeses e as camponesas continuam lutando pela Reforma Agrária e resistindo ao avanço do latifúndio e do agronegócio. Mesmo diante de todas as dificuldades impostas pelo Estado e pelo agronegócio, estes camponeses teimam em reescrever a história. Das 789.542 famílias assentadas nos últimos dez anos, 87% permanecem resistindo e produzindo no campo, sem qualquer tipo de incentivo governamental para a agricultura camponesa.

Apesar da diminuição das ocorrências das ocupações e acampamentos em 2011, aumentou o número de famílias envolvidas nestes conflitos de luta pela terra. Este ano, de acordo com os dados parciais da CPT, foram 245.420 pessoas envolvidas no período de janeiro a setembro de 2011, enquanto que no mesmo período de 2010, foram 234.150 pessoas envolvidas.

Registramos em 2011 mais de 350 mobilizações no país, protagonizadas pelos povos do campo. É como se em cada um dos 365 dias do ano, camponeses e camponesas organizados se mobilizassem em defesa da Reforma Agrária, dos direitos dos povos do campo e pelos territórios dos povos originários e de uso comum.

Algumas grandes mobilizações marcaram este ano que se encerra. Em agosto, cerca de 70 mil mulheres camponesas ocuparam as ruas de Brasília, reivindicando seus direitos, durante a Marcha das Margaridas.

Naquele mesmo mês, mais de 4 mil trabalhadores rurais sem terra ligados à Via Campesina montaram acampamento na capital federal, exigindo do Governo o compromisso com a Reforma Agrária. Por sua vez, “Aperte a Mão de Quem te Alimenta”, foi o nome da marcha realizada pelo MLST, de Goiânia até Brasília, e que explicitou a importância da produção agroecológica e da criação de assentamentos para garantir alimentos saudáveis, sem utilização de agrotóxicos.

Mais recentemente, cerca de 15 mil pessoas foram as ruas em Juazeiro e em Petrolina protestar contra a proposta do Governo de construir cisternas de PVC, que vai contra toda a metodologia de relação com o semiárido, construída pelas populações ao longo dos anos.

Além dos trabalhadores e trabalhadoras rurais sem terra, os quilombolas e indígenas também estiveram firmes em suas manifestações em 2011. Durante o mês de maio, os povos indígenas realizaram uma de suas maiores mobilizações, o acampamento Terra Livre, realizado em Brasília e que reuniu centenas de indígenas de mais de 230 povos de todo o país para apresentar suas principais reivindicações. Já no início de novembro, mais de dois mil quilombolas estiveram reunidos em Brasília, quando ocuparam pela primeira vez o Palácio do Planalto durante a Marcha Nacional em Defesa dos Direitos dos Quilombolas.

2012: Marcharemos na Luta pela Reforma Agrária.

Apesar do Estado brasileiro e de seus governantes condenarem a Reforma Agrária à morte, ela segue a cada dia pulsando com mais intensidade nas veias dos camponeses e das camponesas, como se ouvissem os ecos do compromisso de Elizabete Teixeira, na ocasião do sepultamento do seu companheiro: "Continuarei a tua luta". Este é o chamado que ecoa para aqueles e aquelas que acreditam e lutam em defesa da vida, da vida plena.

“Eu vim para que todos tenham Vida e Vida em abundância.” (João 10:10)

Comissão Pastoral da Terra - Nordeste II – dia 5 de janeiro de 2012.

Um abraço afetuoso. Gilvander Moreira, frei Carmelita.
e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br
www.gilvander.org.br
www.twitter.com/gilvanderluis
Facebook: gilvander.moreira
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sábado, 7 de janeiro de 2012

CONTO:" AMOR", DE CLARICE LISPECTOR e interpretações variadas



Clarice Lispector


Amor

Clarice Lispector


Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.

Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.

Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem.

No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.

Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.

O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher.

O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.

A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.

O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles.

Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam assustados.

Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida.

Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito.

A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.

O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.

Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.

Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite.

Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico.

Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo.

A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si.

De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho.

Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.

Um movimento leve e íntimo a sobressaltou — voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aléia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pêlos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu.

Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber.

Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos.

Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega — era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.

As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.

Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo.

Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria — e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto.

Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito — o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava — que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se tremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado — amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal — o cego ou o belo Jardim Botânico? — agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha... Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles... Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. Q sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o.

Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha?

Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.

Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lados que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranqüilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo — e que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.

Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar.

Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água - havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d'água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos.

Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos.

Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros. Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu.

Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.

Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.

— O que foi?! gritou vibrando toda.

Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:

— Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras.

Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago.

— Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela.

— Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo.

Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.

Acabara-se a vertigem de bondade.

E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.


(Texto extraído no livro “Laços de Família”, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1998, pág. 19, incluído entre “Os cem melhores contos brasileiros do século”, Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2000, seleção de Ítalo Moriconi.)

Clarice Lispector: tudo sobre a autora e sua obra em "Biografias".


ANÁLISES:

1-Análise filosófica sobre o conto Amor, de Clarice Lispector

Sumário

1. O conto
2. O ser-idiota
3. O medo de pensar
4. O thaumazein do amor
5. O ovo e a galinha

1. O conto

Amor é uma narrativa de Clarice Lispector que cujo centro é uma mulher comum, Ana, casada, com os filhos crescendo. A vida era normal, "os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos."

A vida de Ana era rotineira e feliz em seu apartamento no nono andar, costurava para os meninos, recebia o marido de volta em casa todas as tardes e os movéis empoeirados todas as manhãs "como se voltassem arrependidos". Um dia, foi às compras e, depois, cansada, subiu no bonde para voltar à casa. Recostou-se no banco, procurando conforto, num suspiro de meia satisfação. Revê sua vida: plácida, sem tempestades, tudo no lugar. Com o saco de tricô que ela mesma tecera ao colo, cheio de ovos frescos, Ana é apenas uma mulher que vai às compras. Mas vê, com o bonde parado, um cego que, tateando, no escuro de si mesmo, as mãos estendidas para a frente, sorri.

A partir daí, Ana tem sua epifania, revelação da vida. Descontrolada emocionalmente, perde o ponto onde deveria descer. Desce no Jardim Botânico e lá permanece, com a alma em estado de sobrelevação, por toda a tarde, até que anoiteça e se veja sozinha. Grita para que abram o portão e arfante chega à casa, onde faz um jantar às pressas para a família. Durante o jantar, não presta atenção a nada, a vida está modificada, o homem mascando chiclete, a cegueira e a vida, a certeza de que a humanidade sofre. Aperta o filho a ponto de assustá-lo e, quando todos se vão, diante do espelho, ouve o fogão dar um estouro. Era um defeito do fogão, mas que a traz de volta para a vida cotidiana. Abraça o marido, diz que não quer que ele sofra (ela mesma estava sofrendo por ter descoberto o mundo). Ele ri, e ela, antes de dormir, sopra a flama do dia.

2. O ser-idiota

A filósofa Hannah Arendt afirmou que "uma vida vivida na privatividade do que é próprio ao indivíduo (idion), à parte do mundo comum, é 'idiota' por definição"[1] e "para o indivíduo, viver uma vida inteiramente privada significa, acima de tudo, ser destituído de coisas essenciais à vida verdadeiramente humana: ser privado da realidade"[2]. Portanto, se, no fundo, "Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas" e "fazia obscurantemente parte das raízes negras e suaves do mundo", alimentando "anonimamente a vida", Ana era idiota por definição.

Alude-se, aqui, à metáfora da árvore cujas raízes representam a vida obscura e anônima de Ana, que entretanto é o sustentáculo da sobrevivência daquilo que se vê de árvore em plena luz, a vida pública. Em meio à crise, que pôs em xeque seu idiotismo, Ana sente o Jardim [Botânico] ser tão bonito a ponto de ter "medo do inferno" e é bem provável que essa sensação esteja conectada ao suplício de uma vida privada e subterrânea. Sua casa fica no nono andar e o nono círculo do Inferno, segundo a Divina Comédia de Dante Alighieri, é o último e mais subterrâneo de todos os círculos infernais.

3. O medo de pensar

O que significa pensar? "A característica principal do pensamento é interromper toda ação, todas as atividades habituais, sejam elas quais forem"[3]. Valéry resume bem essa idéia ao dizer "tantôt je suis, tantôt je pense"[4]. Sem ser platônico, poderíamos de fato dizer que há dois mundos: o do pensamento e o das atividades habituais do cotidiano. É a faculdade de pensar o meio pelo qual o homem voluntariamente se retira desse mundo.

O sossego, o vazio do mundo, parece ser a melhor condição material para que se realize o pensamento, pois facilmente a atividade de pensar pode ser turbada pelas ocupações habituais que o cotidiano exige. Numa existência cheia de ocupações cotidianas, dificilmente haverá tempo de "parar para pensar". É o caso de Ana, que tinha tanto medo de pensar que "sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia".

Kant define a maioridade como a capacidade de pensar por si mesmo, algo de que todo ser humano é capaz quando atinge a idade da razão na adolescência. Maioridade é luz - a razão ilumina, clareia - e luz revela novidade (nova-idade). A menoridade de um adulto mentalmente sadio é uma menoridade culpada porque é resultado de uma escolha do próprio adulto em ignorar o thaumazein (espanto) ou buscar a resposta em terceiros. Ana, que "não sentia ternura pelo próprio espanto", vivia numa menoridade culpada até o dia em que não resistiu ao thaumazein do amor e passou a pensar como seria a vida a partir daquele dia: A nova-idade trazida por essa iluminação revela-se na indagação: "Quantos anos levaria até envelhecer de novo?"

4. O thaumazein do amor

Clarice, no conto O ovo e a galinha, assim define o amor:

"Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor, porque o amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões. Há os que se voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que pensava que era amor."[5]

A noção de amor enquanto perda é recorrente no cristianismo, no platonismo e na literatura. Deus amou o mundo de tal maneira que perdeu seu filho unigênito para esse mesmo mundo. Jesus amou o mundo perdendo a si mesmo, doando sua própria carne para que fosse compartilhada pelos homens (comunhão). Em Camões, é "um cuidar que ganha em se perder".

O tamanho do amor é proporcional ao tamanho da perda de si. Quem se perde inteiramente evidentemente morre, mas ama além de si mesmo, como diz Vinícius no Soneto do Amor Total: "É que um dia em teu corpo de repente / Hei de morrer e de amar mais do que pude." No mito dos seres esféricos de Platão, sugere-se que o amor-a-dois deve representar a perda da metade de si.

Ana é tomada de amor na medida em que lhe ocorrem perdas: ela perde o sentido normal do tato e a rede de tricô fica "áspera entre seus dedos"; perde o sentido de haver um lar no mundo, pois este se mostra mais "hostil" e "perecível", chegando a sentir-se "expulsa de seus próprios dias"; perde o senso de orientação a ponto de segurar-se no banco da frente "como se pudesse cair do bonde"; perde o ponto em que deveria descer; perde a noção de tempo que ficou no Jardim e chega a sentir-se "banida" para o lado dos que "lhe haviam ferido os olhos".

No conto, junto do conceito de amor como perda, está o conceito de piedade rousseauniana. Em Rousseau, a piedade é definida como capacidade do homem em "temperar o ardor que sente por seu bem-estar por meio de uma repugnância inata ao ver o semelhante sofrer"[6]. O amor piedoso é paradoxal, pois a doçura de estar amando, de sentir-se leve por se haver perdido, mistura-se à repugnância ao sofrimento alheio. O sofrimento que Ana sente pelo cego que "mascava chicles na escuridão"[7] e pelo Jardim Botânico que "apodrecia" opera nela o paradoxo do amor piedoso: ela sente uma "náusea doce", nojo e fascínio.

O tamanho do amor de Ana era imenso. A perda de si foi completa. O assassinato foi profundo. Seu grande amor, sua "piedade de leão", a fez apertar seu filho com tanta força contra si que o assustou. A grandeza de Ana era tanta que "qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças"; sua misericórdia era violenta. Ela amava muito, mas isso não a faria uma santa, pois um santo é tudo menos violento.

5. O ovo e a galinha

"A galinha é o disfarce do ovo. Para que o ovo atravesse os tempos, a galinha existe. Mãe é para isso."[8] Em Clarice, não há como evitar a associação entre as figuras da mãe e da galinha: Figuras que, articuladas em torno da questão do amor, fazem-nos supor que a rapidez com que Ana retorna às suas atividades habituais, ao assustar-se com o estouro do fogão, tenha a ver com o mal da galinha.

Todo susto da galinha é porque estão sempre interrompendo o seu devaneio. A galinha é um grande sono - a galinha sofre de um mal desconhecido. O mal desconhecido da galinha é o ovo - ela não sabe explicar: 'sei que o erro está em mim mesma', ela chama de erro a sua vida, 'não sei mais o que sinto', etc.(...) Para a galinha não há jeito: está na sua condição não servir a si própria. Sendo, porém, o seu destino mais importante que ela, e sendo o seu destino o ovo, a sua vida pessoal não nos interessa."[9]

Bibliografia

ARENDT, Hannah. A condição humana. Trad. por Roberto Raposo. Rio de Janeiro: Forense, 1991.
______________. A Dignidade da Política: Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1993. p. 149.
LISPECTOR, Clarice. Amor. In: Laços de família. Rio de Janeiro: Nova Fronteira 1998. p. 19-33.
_________________. Medo da Eternidade. In: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 446-8.
_________________. O ovo e a galinha. In: Felicidade clandestina; contos. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p. 51.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Os Pensadores. Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade Entre os Homens. São Paulo, Nova Cultural, 1999.

Notas

[1] Hannah Arendt. A condição Humana, p. 47
[2] Ibidem, p. 68.
[3] Hannah Arendt. A Dignidade da Política: Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1993. p. 149.
[4] Do francês: "ora sou, ora penso".
[5] Clarice Lispector. O ovo e a galinha. In.: Felicidade clandestina; contos. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p. 55.
[6] Jean-Jacques Rousseau. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. p. 157-8.
[7] Em Clarice, o ato de mascar chicletes está associado ao sofrimento de quem está condenado a fazer a mesma coisa por toda uma eternidade: "a vantagem de ser uma bala eterna me enchia de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito" (Clarice Lispector. Medo da eternidade. In:. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 448)
[8] Clarice Lispector. O ovo e a galinha. In.: Felicidade clandestina; contos. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p. 51
[9] Ibidem. p. 53

(c) 2002 Israel de Alexandria



2-PALAVRAS-CHAVE
Literatura; mulher; Amor; Clarice Lispector.
Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? E que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.
(Clarice Lispector, "Amor" in. Laços de Família, 1998. p. 26-27)
INTRODUÇÃO
O conto Amor de Clarice Lispector publicado no ano de 1982 presente na obra Laços de Família apresenta uma temática voltada para as questões existenciais, em que a personagem protagonista Ana, em um determinado momento da sua vida cotidiana demonstra uma extrema insatisfação com a realidade a sua volta.
A partir dos estudos sobre a literatura feminina e a história da mulher na sociedade ao longo dos tempos. Procuraremos analisar a personagem Ana segundo o que algumas autoras, como Rita Terezinha Schmidt e Maria Consuelo Cunha Campos defendem a cerca da mulher na literatura.
Clarice Lispector pode ser vista como uma das grandes motivadoras na narrativa de autoria feminina, que começa a se expandir no universo cultural brasileiro, apresentando características inovadoras em termos de linguagem e de perspectivas. Conhecida por sua complexa subjetividade e seus questionamentos do mundo externo sob o interno, nos proporciona uma leitura, em seu conto Amor, da tomada de consciência de mundo da personagem protagonista. Por a isso, enxergamos na personagem Ana a figura de um ser humano com aspectos psicológicos incomuns, em conflito consigo mesma e tudo que representa para a sua família e a sociedade.
A análise da personagem Ana, nos proporciona um maior entendimento das questões existenciais, por se tratarem de monólogos interiores da personagem que acontecem e se combinam num estilo indireto livre até por fim se encontrarem em toda obra. No qual teremos uma redução dos vários universos pessoais às correntes de consciência. A obra da autora sublinha a precariedade e o nomadismo da consciência da existência entre as alegrias e as agonias do ser.
Os teóricos de base utilizados para a elaboração deste artigo foram: SCHMIDT, 1995; CAMPOS, 1992.
LITERATURA E GÊNERO
Maria Consuelo Cunha Campos, em seu texto sobre o gênero na literatura, fala dos papéis masculinos e femininos na sociedade. Os papéis sociais dos sexos estão culturalmente determinados, como se sabe o sistema gênero-sexo enquanto constituição simbólica sócio-histórica organizada socialmente é vivenciada simbolicamente, por meio da interpretação das diferenças dos sexos, a identidade incorporada no modo de ser e de vivenciar o corpo.
[...] na relação masculino e feminino, a opressão e exploração deste último pelo primeiro: a história das sociedades até agora existentes constituiria uma história da subordinação das mulheres pelos homens em base aos sistemas gênero-sexo que culturalmente produziram. Donde não se tratar de pura diferença, mas sim de diferença hierarquizada em vista de poder. (CAMPOS, Maria Consuelo Cunha. Gênero. In Palavras da crítica. Rio de janeiro: Imago Ed., 1992.p. 111-112).
Conforme a história, os sistemas gênero-sexo revelam a subordinação das mulheres pelos homens em base culturalmente estabelecida. Biologicamente a diferença dos sexos é marca da alteridade que parte do pressuposto básico de que todo o homem social interage e interdepende de outros indivíduos e que a existência do "eu - individual" só é permitida mediante um contato com o outro.
A ginocrítica, ciência que faz um estudo feminista da escrita da mulher, afirma que essa escrita é marcada pelo sexo. Sendo assim, acredita-se que através da desnaturalização e desideologização da opressão sofrida pela mulher, há o predomínio de valores culturais patriarcais na literatura produzida pela mulher.
A crítica feminista condena o desprezo pela contribuição da mulher na literatura, ou seja, o desprezo de determinadas escritoras, a exclusão devido a predominância masculina amparada pela ideologia sexista que apóia os valores referentes ao papel tradicional da mulher. Além disso, denuncia a predominância do androcentrismo, o masculino como referência, o cânon literário marcado pela inferiorização feminina.
[...] na crítica feminista, ocorre a denúncia da perspectiva androcêntrica que, estatuindo o ponto de vista masculino como a referência, fazia redundar o cânon literário num jogo de cartas não menos previamente marcadas, pela inferiorização feminina prévia. (idem, p. 118)
Conforme a história mostra, existiram três fases da mulher na literatura, a primeira marcada pela mulher imitando a escrita masculina, adotando pseudônimos, vestuários e padrão de conduta masculino. A segunda marcada pela mulher lutando pelo seu direito, nessa fase a escrita da mulher se torna uma escrita de protesto em face de exclusão e rebaixamento sofrido.
E a última fase denota uma escrita marcada pela conscientização, a partir dos anos 60 da auto-afirmação da escrita-mulher, nessa fase a escrita é caracterizada pela diferença em relação ao homem, pois como a vivência da mulher é diferente a vivência do homem o seu discurso conseqüentemente se torna diferente, desse modo a escrita feminina difere da masculina.
Enfim, a conscientização feminina ocorre quando a mulher, por meio da análise de sua vida íntima e de seu comportamento frente à cultura a que está inserida, toma consciência do seu papel na sociedade. A problemática das relações de gênero como um conjunto de relações sociais sustenta a idéia de ambos, homem e mulher estarem inter-relacionados e presos ao gênero. Assim, nas sociedades ocidentais contemporâneas os sistemas gênero-sexo têm sido utilizados conceitualmente de acordo com o sistema de dominação.
Desse modo, Rita Terezinha Schmidt, vem acrescentar que de um modo geral a negação da mulher como sujeito do discurso no contexto da literatura brasileira até a década de 70, levou a escritoras como Raquel de Queiroz, Cecília Meireles e Clarice Lispector a contradizer por parte de suas obras críticas, a tradição estética de base que excluiu a mulher da produção artística, dando lugar unicamente ao homem, alegando ser a arte um dom essencialmente masculino.
Com a mulher exercendo o papel secundário da reprodução, a diferença da experiência feminina foi neutralizada e sua representação reduzida de importância por não atingir ao patamar de "excelência" exigido pela crítica literária da época. Sendo assim, a experiência feminina na literatura, foi marcada pela exclusão e desvalorização do seu discurso.
Porém, mesmo com as resistências encontradas, tais escritoras desafiaram o processo de socialização e transgrediram os padrões culturais pré-estabelecidos, nos proporcionando assim, uma tradição de cultura feminina que apesar de desenvolvida numa cultura dominante, abre espaço ao diálogo, as discussões e tensões, levando ao desequilíbrio das representações cristalizadas pelo masculino.
ANÁLISE DA PERSONAGEM ANA
A partir da leitura dos textos de Maria Consuelo Cunha Campos e Rita Terezinha Schmidt, faremos uma análise do conto"Amor" presente na obra Laços de Família de Clarice Lispector. A obra citada foi escrita muito antes da sua publicação em 1982, portanto faz-se alusão a sociedade da época da década de 60 para 70.
A época em que foi escrito o conto "Amor" foi marcada pelo início da realização de projetos culturais e ideológicos alternativos decorrentes da crise no moralismo rígido da sociedade na década de 50. Na década de 60 para 70 apresentou o estado de espírito que pode ser definido por "um tom mais ácido", revelando experiências com drogas, a perda da inocência, a revolução sexual e os protestos juvenis contra a ameaça de endurecimento dos governos. É nessa época que se dá início a uma grande revolução comportamental o surgimento do feminismo e os movimentos civis em favor dos negros e homossexuais.
Foi nessa perspectiva que Clarice Lispector escreveu o conto"Amor" que, de forma complexa e subjetiva, faz uso intenso de metáforas, relatando a história da personagem Ana, uma simples dona de casa entregue a uma vida de rotina, como por exemplo, cuidar dos filhos, da casa e do marido Sob uma visão crítica a cerca do papel da mulher na sociedade, revelou sua angústia por ser uma escritora da década de 60, a qual sofreu pela falta de valorização na literatura por ser uma mulher.
A personagem vive cercada por situações simples e corriqueiras, mas guarda em seu inconsciente desejos que insiste em negar por considerá-los um perigo à situação segura e reconfortante que imagina viver.
Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores, cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno dos empregados do edifício. Ana dava a tudo, tranquilamente, suas mãos pequenas e fortes, sua corrente de vida.
(LISPECTOR, p. 17-18)
Segundo Campos, conforme a história mostra, existiram três fases da escrita da mulher na literatura, a primeira marcada pela mulher imitando a escrita masculina, adotando pseudônimos, vestuários e padrão de conduta masculino. A segunda marcada pela mulher lutando pelo seu direito, nessa fase a escrita da mulher se torna uma escrita de protesto em face de exclusão e rebaixamento sofrido. E a última fase denota uma escrita marcada pela conscientização, a partir dos anos 60, pela auto-afirmação da escrita-mulher, nessa fase a escrita é caracterizada pela diferença em relação ao homem, pois como a vivência da mulher é diferente da vivência do homem, o seu discurso conseqüentemente se torna diferente, desse modo a escrita feminina difere da masculina.
Seguindo o pensamento de Campos, Clarice Lispector apresenta em sua obra uma escrita determinada e feminina, mostrando criticamente os valores nos quais acredita. A partir da personagem Ana, ela mostra as contradições e angústias vividas por uma dona de casa durante uma época de transição de valores culturais estabelecidos pela sociedade de base patriarcal.
A personagem Ana, procurava se entregar a uma vida tranqüila e previsível, na qual não poderia haver espaços para situações inusitadas. Mas, em determinados momentos apresenta certo desconforto, pois havia dentro dela, sensações que ela não conseguia negar, que insistiam em emergir do seu inconsciente. A personagem se perdia, mas, lutava para encontrar um equilíbrio em tudo que vivia. Ana desejava algo, mas não sabia exatamente o que era. Estava presa àquele mundo de convenções e se sentia mais segura ali, "Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantava riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se.[...]" (LISPECTOR, p. 18).
Havia momentos na vida da personagem, que causavam angústias, percebemos que a personagem se sente encurralada, perdida em si mesma, pois repensando a sua vida começam a surgir desejos que podem ser entendidos como ânsia pela liberdade.
No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Nela havia aos poucos emergido[...].
(LISPECTOR, p. 18).
Ana constrói para si uma vida que segundo ela, considera segura e reconfortante, tenta deixar de lado toda aquela inquietação que há tempos a persegue e considera um perigo, uma ameaça, uma risca à vida que havia escolhido para si mesma, assim procura ver as coisas que tem como certas, concretas e seguras, contrapondo a sentimentos insólitos que sentira em sua juventude e volta e meia desperta do seu inconsciente.
Clarice Lispector nesse conto relata a "imagem" de mulher existente numa sociedade onde ainda persistem valores ultrapassados. Ana mesmo com o anseio de libertar-se da mesmice na qual está condicionada, tem medo. Não consegue se aceitar e reconhecer estas sensações que volta e meia se fazem presentes em sua mente, que poderiam ser vistas como a possibilidade de mudança para uma vida na qual poderia se auto-afirmar e ser sujeito da sua própria existência. Sem se prender aos padrões e convenções da época.
Seria preocupação, reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido.
(LISPECTOR, p. 19)
O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e escolhera.(LISPECTOR, p. 18-19)
Desse modo, de acordo com Rita Terezinha Schmidt, com a negação da mulher como sujeito do discurso no contexto da literatura brasileira até a década de 70, Clarice Lispector era reconhecida por parte da sua crítica. Ela negava a tradição estética basicamente européia, que definia a produção artística como unicamente um dom essencialmente masculino e a mulher com o papel secundário da reprodução. Sendo assim, a experiência feminina na literatura, foi marcada pela exclusão e desvalorização do seu discurso.
Logo, Ana vivenciava momentos nos quais se angustiava, pois se defrontava com o que considera fantasmas interiores, mas que pode ser considerado como um fluxo de consciência em que a ela, poderia se libertar daquele mundo que a oprimia. Só que por estar presa a uma idéia cristalizada, a personagem vê como se o perigo estivesse justamente nesses momentos de perturbação psicológica.
O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto. A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego. O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles.
(LISPECTOR, p. 19)
A partir deste fragmento, percebemos que a inquietação na personagem é ainda maior, ela finalmente emerge na pessoa do cego, Ana se vê nele, o cego representa o significante, pois ele traz à tona o que tanto perturbava a personagem, a falta de liberdade, o seu desejo de ter uma vida diferente da que havia imposto a si mesma "Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgira-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume (LISPECTOR, p. 20).
Seu desejo de liberdade emergia-se por fim, a personagem reconhece o sentimento que tanto a perturbara, sentimento de frustração, de não realização, percebera que tudo aquilo que lhe bastara em um determinado momento não fazia mais sentido, era a tão sozinha liberdade que ficara presa em si mesma. Tudo que vivera até agora, não era real, passou a compreender isso na figura do cego com sua indiferença, a sua presença causara um grande transtorno a Ana, e fez com que entendesse que na sua condição não se sentia realizada, estava presa às convenções sociais e deixara de viver.
A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido, não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçara ao redor. O mal estava feito. Porquê? Teria esquecido de que haveria cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobre aviso, tinham um ar hostil, perecível... o mundo se tornara de novo um mal-estar.(LISPECTOR, p. 21)
Neste fragmento percebemos que tudo se desconstrói ao redor da personagem, as coisas fugiram ao seu controle. Ela desperta para a realidade, e isso tudo a amedronta. Tudo está se desorganizando a sua volta. E ela não sabe como lidar com essas novas sensações ou com essa nova consciência de mundo.
Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? E que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.
(LISPECTOR, p. 27)
A situação de desconforto era cada vez mais intensa, todos os questionamentos emergiam em sua mente, como assumir ou não a sua vontade de viver uma outra realidade, de sair deste mundo de convenções ou ignorar e deixar as coisas seguirem na mesma linha, continuar vivendo a mesma vida.
Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver. Acabara-se a vertigem de bondade. E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela soprou a pequena flama do dia.(LISPECTOR, p. 30)
A personagem acaba se prendendo ao mundo ao qual já estava acostumada, por considerá-lo mais seguro, porém a sua consciência não continua a mesma, agora Ana consegue assumir sua própria identidade. Assim, a personagem possivelmente teria se identificado com o cego, pois ele representava o seu próprio reflexo, uma pessoa igualmente limitada.
Contudo, ao se dar conta da pessoa que havia se tornado surge uma nova identidade, a de uma mulher que fez sua escolha e que decidiu continuar com a estrutura pré-existente dos papéis sexuais e sociais das relações que constituem a família e a sociedade.
Enfim, a conscientização feminina, conforme Campos, ocorre quando a mulher, por meio da análise de sua vida íntima e de seu comportamento frente à cultura a que está inserida, toma consciência do seu papel como mulher na sociedade. E da problemática existente nas relações de gênero como um conjunto de relações sociais que sustenta a idéia de ambos, homem e mulher estarem inter-relacionados e presos ao "gênero".
Diante disso, o que parecia ser um relato de uma simples experiência acaba por nos mostrar uma grande revelação, a percepção de uma realidade atordoante, quanto a questões corriqueiras do cotidiano da personagem Ana e à tomada de consciência de seu valor como mulher.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O nosso trabalho buscou analisar o conto de Clarice Lispector Amor, a partir da visão literária feminista. Sabemos que a situação de submissão da mulher é um fenômeno histórico, em que esta sofreu um processo de exclusão e diminuição de seu papel social. Assim, historicamente a figura feminina foi sendo associada aos cuidados domésticos e familiares, herança de uma sociedade patriarcal, tornando-a, assim, inferior dentro da hierarquia familiar e sacrificando nesta perspectiva sua própria identidade, pois de tanto ser obrigada ideologicamente a viver sob a máscara da aceitação dos valores hegemônicos, perdia-se de si mesma.
Desse modo, a literatura feminina vem destacar as desigualdades de poder nas relações de gênero que ainda são profundas, na tentativa de desconstruir certas representações que historicamente instrumentalizam a opressão às mulheres e a outras minorias.
REFERÊNCIAS
JOBIM, José Luís (org.). Palavras da Crítica. Coleção Pierre Menard. Rio de Janeiro: Inago, 1992. p. 111-125.
LISPECTOR, Clarice. "Amor" in. Laços de Família. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
SCHMIDT, Rita Terezinha. "Repensando a cultura, a literatura e o espaço da autoria feminina". In:NAVARRO, Márcia Hoppe (Org.). Rompendo o silêncio: gênero e literatura na América Latina. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1995.


3- O AMOR(E A MULHER):UMA CONVERSA (IM)POSSÍVEL ENTRE CLARICE LISPECTOR E SARTRE
Valeska Zanello
Universidade de Brasília


Resumo: Com o presente trabalho visamos fazer uma análise do conto “O amor”, de Clarice
Lispector, a partir das seguintes categorias apontadas por Sartre em O ser e o nada: olhar-ser
olhado, instrumentalidade (funcionalidade) e amor. Partimos da experiência elaborada por
Clarice em seu texto, na qual Ana, dona de casa atarefada e ‘empenhada’ em servir aos familiares
(“pura funcionalidade”), se depara, numa de suas idas e vindas à cidade, com um cego mascando chicletes. Ora, um cego é um olho que não olha, é um olho sem função. É essa vivência
que abre a Ana a dimensão do amor, num sentido muito específico (que aponta para as relações
de gênero), e do qual a descrição fenomenológica de Sartre parece não dar conta.
alavras-chave: amor; mulher; Clarice Lispector; Sartre.
Co p y r i g h t ¤ 2 0 0 7 b y Re v i s t a
Estudos Feministas.
1
LISPECTOR, 1974, p. 21-31.
Valeska Zanello
Universidade de Brasília
Em “O Amor”,
1
Clarice Lispector nos relata a história
de Ana, uma dona de casa atarefada em cumprir seus
deveres de mãe e esposa, completamente ‘sugada’ em
seu mundinho previsível e cotidiano. Podemos dizer que
ela é muito mais dependente de sua servidão do que talvez
os próprios beneficiados. Em algumas horas do dia, Ana
pressente o ‘perigo’ se aproximar: uma espécie de lacuna,
de falta, um vazio. E é essa ‘rachadura’ que Clarice Lispector
vai explorar. Numas dessas horas, à tarde, depois de fazer
suas compras, ao retornar para casa, Ana toma um bonde
e, contemplando a paisagem, avista um cego mascando
chicletes. Aparentemente uma cena banal, mas no quadro
d a q u e l e m o m e n t o t o m a u m a d i m e n s ã o a t é e n t ã o
imprevisível para ela: Ana é invadida por uma piedade
absolutamente profunda, espantosa, que beira o nojo.
Completamente tomada por essa experiência, a
personagem nem percebe a partida do bonde, deixando
cair a caixa de ovos que havia comprado – acontecimento
que sai do previsto, dos trilhos repetitivos de seu cotidiano,VALESKA ZANELLO
532 Estudos Feministas, Florianópolis, 15(3): 531-539, setembro-dezembro/2007
de sua medíocre vidinha do dia-a-dia. A personagem
permanece nesse estado por um bom tempo, olhando as
coisas e as pessoas de uma maneira um tanto ‘estranha’. É
nesse espanto que Clarice mostra ou aponta a vivência
de Ana quanto à sua escolha (sua vida como mera
p o s s i b i l i d a d e , c o m o ‘ e s c o l h i d a ’ ) , e a a n g ú s t i a
desconstrutora, mas também possibilitadora de novas
escolhas (o que não ocorre: a personagem oblitera seus
abismos... não suportando a vertigem).
Ao retornar para casa, vemos Ana se esforçar por
mergulhar novamente em seu cotidiano: através da ‘culpa’
que sente ao rever seu filho. “É pelas crianças!” (E não é
esta a justificativa de tantas mulheres?). Ela tenta espremer
a vastidão do que vivenciou na estreiteza de sua cozinha,
quartos, limpeza e relações domésticas – totalmente
conhecidas, previsíveis e esgotadas. E é o próprio marido
que a reconduz a seu mundinho tamponado, morno, sem
frestas.
Duas questões emergem como essenciais para o
presente ensaio: por que Clarice denominou este conto
de “O amor”? E por que logo um cego é, no conto, o objeto
de transição, cortante, interpelador (interpela-dor) da
retirada da personagem de sua funcionalidade de dona
de casa para seu estado de torpor?
Comecemos pela segunda pergunta. Sartre, em O
ser e o nada,sublinha, de maneira enfática, a importância
do olhar do outro no congelamento de traços do ser-parasi como um em-si. Isto é, coisificando o para-si que se sente e se vê em face do outro como objeto. Ora, Sartre também nos diz que podemos colocar/captar o outro em sua pura
funcionalidade: a indiferença. Ele nos diz:
Trata-se pois de uma cegueira com relação aos outros
[...]. Quase não lhes dou atenção; ajo como se estivesse
sozinho no mundo; toco de leve pessoas como toco de
leve paredes; evito-as como evito obstáculos; sua
l i b e r d a d e - o b j e t o n ã o p a s s a p a r a m i m d e s e u
coeficiente de adversidade; sequer imagino que
possam me olhar [...]. Essas pessoas são funções: o
bilheteiro nada mais é que a função de coletar
ingressos; o garçom nada mais é que a função de servir
fregueses.
E por que não continuar? A mãe pode vir a ser
identificada com a função de cuidar das crianças, de sua
alimentação, de seus horários e estudos, etc.; a esposa,
com a função de preparar a comida, afagar o esposo e
satisfazê-lo sexualmente; etc. Parece que a personagem
descrita por Clarice enquadra-se nesse congelamento do
olhar dos outros: ela é transparente, pura funcionalidade,
que garante o bom andamento da casa e da família.

SARTRE, 1997, p. 474.

SARTRE, 1997.Estudos Feministas, Florianópolis, 15(3): 531-539, setembro-dezembro/2007 533

O AMOR (E A MULHER): UMA CONVERSA (IM)POSSÍVEL ENTRE CLARICE LISPECTOR E SARTRE

Vejamos bem: ela é congelada na cegueira dos outros,
enquanto puro instrumento. Mas há algo que no conto
aponta também para os ‘benefícios’ dessa posição:
almofada para a angústia de sua própria liberdade e de
suas escolhas. A personagem não entra em conflito, como
poderia nos fazer pensar uma leitura sartreana, com o olhar
do outro, mas antes se nutre desse olhar, identificando-se
com o que nele se reflete como dela mesma. Isto é, a
própria personagem coisifica, ou reduz o outro, à sua
própria funcionalidade de olhar. É assim que ela precisa
ser vista. Isto não lhe acontece: isto é escolha. “Ela plantara
as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas
apenas. [...] Certa hora da tarde as árvores que plantara
riam dela. Quando nada mais precisava de sua força,
inquietava-se.”

Assim, manter o outro na sua funcionalidade
do olhar não é conflito, é homeostase, não passiva, calma,
n e u t r a , ma s t e n s a . Tr a t a - s e n ã o d e um “ o u / o u ” t ã o característico de um modo reducionista de pensar, mas
de um “e”, complexo, e que resulta num sistema ‘vivo’
processual. Diferentemente dos textos que indicam uma
dupla possibilidade à personagem feminina – “ou refletir a
ima g em ma s c u l i n a , me t o n ími a e me t á f o r a d e uma
ideologia opressora, ou perder-se no vazio da loucura e
da marginalização”

– acreditamos que o conto de Clarice
“indica novas possibilidades para o imaginário cultural,
implantando novas questões num imaginário que se torna
reativado em novas direções”.

Sartre ainda pensa a subjetividade na relação
sujeito-objeto, em um esquema no qual “ora eu conquisto,
ora o outro me conquista”. Trata-se de ‘vencer’ e não de
conviver. A pergunta agora é: o que do outro me constitui
e o que no outro eu constituo? Se durante a década de 70
a crítica literária da obra de Lispector seguiu os passos de
Benedito Nunes, no que tange à tendência existencialista
e universalizante, trata-se aqui de pensar o que o conto
de Clarice pode, por seu turno, desconstruir da própria
concepção satreana (a nosso ver, binária-patriarcal) acerca
do que venha a ser o amor e, ainda nesse sentido, o que o
conto sobre o amor nos abre como possibilidades de
reflexão acerca da ‘mulher’, pois “ao desestabilizar os
estereótipos de gender e as formas de articulação do
poder, instalados pelo patriarcado, Lispector também
desmantela as bases dos essencialismos”.

Para Sartre, o ápice da consciência da liberdade
se dá exatamente à beira do pressentimento de estar sendo
coisificado pelo outro (quando me sinto prestes a perdê-
la). Mas, no caso de Ana, personagem do conto de Clarice
L i s p e c t o r, n ã o s e d á o mesmo, p o i s a redução d a

LISPECTOR, 1974, p. 21.

HELENA, 1997, p. 106.
7
HELENA, 1997, p. 38.
6
Lucia HELENA, 1997, p. 28.
5
Ruth BRANDÃO, 2004, p. 56.VALESKA ZANELLO
534 Estudos Feministas, Florianópolis, 15(3): 531-539, setembro-dezembro/2007
personagem à pura funcionalidade, como vimos, não lhe
representa angústia, mas antes alívio:
No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a
raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe
dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de
mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse
inventado. O homem com quem casara era um homem
verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros.
[...] Assim ela o quisera e escolhera. Sua preocupação
reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde,
quando a casa estava vazia, sem precisar mais dela, o
sol alto, cada membro da família distribuído nas suas
funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se
apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não
havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto
– ela o abafava com a mesma habilidade que as lides
em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer
compras ou levar os objetos para consertar, cuidando
do lar e da família à revelia deles.

Ela precisa ser útil, funcional.

E Clarice descreve a
escolha de vida da personagem como uma grande
aceitação que dava ao seu rosto um ar de mulher.
Num de seus pas seios , a f im de manter- se na
funcionalidade da família (fazer compras, etc.), Ana deparase com o inesperado e o adormecido. Aqui entra um
aspecto interessantíssimo do conto e que nos faz colocar
em xeque as próprias idéias de Sartre: o aparecimento do
cego, ela vê o cego.
Ora, tudo ia se encaminhando ‘bem’ na vida diária
des sa per sonagem, na sua ida às compras , na sua
previsibilidade, até que do bonde ela avista um cego
mascando chicletes. O que há de tão estranho nisso?,
podemos nos perguntar. Uma resposta contundente se
e v i d e n c i a : o c e g o é u m o l h o q u e n ã o o l h a . A
funcionalidade do olho é o olhar, mas no cego o olho é
c o i s a . A q u i s e e v i d e n c i a a r e d u ç ã o , p o r p a r t e d a
personagem, do outro à sua funcionalidade do olhar. O
olho do cego é, assim, um espelho às avessas: um buraco
negro, no qual a personagem se sente sugada até a alma,
em puro estado de ódio, torpor, piedade e nojo. “Era um
cego [...]. Inclinada, olhava o cego profundamente, como
se olha o que não nos vê [...], como se ele a tivesse
insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão
de uma mulher com ódio.”

Abre-se o fundamento (que antes era a manutenção
daquilo a que o olhar do outro a reduzia e alimentava:
pura funcional idade) , surgindo a pos s ibi l idade de a
per sonagem deparar- se com a sua própr ia fal ta de
fundamento: sua liberdade. Vertigem... Suas escolhas

Discordamos aqui, portanto, de
Berta Waldman, para quem Ana
parece ser uma mulher tranqüila
e em paz consigo mesma. Ver
Berta WALDMAN, 1992.

LISPECTOR, 1974, p. 22.

LISPECTOR, 1974, p. 23.Estudos Feministas, Florianópolis, 15(3): 531-539, setembro-dezembro/2007 535
O AMOR (E A MULHER): UMA CONVERSA (IM)POSSÍVEL ENTRE CLARICE LISPECTOR E SARTRE
passam a ser ressentidas como meras possibilidades. Em
outras palavras, o ápice da consciência da liberdade,
nesse caso, se dá justamente quando o olhar do outro some,
quando não há mais sustento ou amparo: tudo se esboroa.
Perdida nesse buraco, Ana não percebe a partida do
bonde e deixa que os ovos caiam de sua bolsa e se
quebrem, alguns, no chão:
O mal estava feito [...]. Mesmo as coisas que existiam
antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso,
tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara
de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas
amarelas escorriam. [...] Ela apaziguara tão bem a vida,
cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha
tudo em serena compreensão, separava uma pessoa
das outras, as roupas eram claramente feitas para serem
usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite
– tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro.
E um cego mascando goma despedaçava tudo isso.
12
A personagem sente-se então ‘dessituada’ no seu
mundinho, perdendo os hábi tos , lugares , horár ios e
“mundanidade” de seu modo repetitivo de viver, caindo
numa “bondade extremamente dolorosa”. A ênfase se faz,
então , no olho que não olha, no olho sem função ,
despedaçando a funcionalidade do mundo de Ana.
Acreditamos que o cego não é, na verdade, apenas “o
mediador de uma incompatibilidade latente com o mundo
que jaz no ânimo de Ana”,
13
mas que a escolha da própria
cegueira como abertura de mundo da personagem aponta
para a nomeação de importantes questões relacionadas
ao gênero.
Em primeiro lugar, faz-se necessário sublinhar o fato
de ser a personagem principal uma mulher, escravizada
(pelo outro, mas também por si mesma) ao olhar do outro.
Essa relação entre a mulher e o olhar/ser olhada é um tema
b a s t a n t e d i s c u t i d o , c o m e n t a d o e r e v i s i t a d o p e l a
psicanálise.
14
A questão então é: será gratuita, no conto,
esta escolha? Por que Clarice nos diz que sua grande
‘aceitação’ transformava seu rosto em rosto de ‘mulher’? E,
finalmente, por que o conto se intitula “O amor”?
Sartre, em O ser e o nada, situa a experiência do
amor na primeira atitude para com o outro, juntamente
com a linguagem e o masoquismo. Ele nos nos diz que “o
amor é um empreendimento, ou seja, um conjunto orgânico
de projetos rumo a minhas possibilidades próprias”.
15
No
entanto, o amor é conflito, pois nos coloca em relação
direta com a liberdade do outro: daí ter saído de Sartre a
afirmação, hoje em dia quase um slogan, de que “o inferno
são os out ros ” . Mas es se inferno não se es tabelece
definitivamente no conto clariceano. Ocorre, ao contrário,
15
SARTRE, 1997, p. 457.
14
Ver, entre outros, Luce IRIGARAY,
1977; Lucien ISAREL, 1995; Juan
NAS IO, 1991; S igmund FREUD,
1974.
13
Benedito NUNES, 1995, p. 85.
12
LISPECTOR, 1974, p. 24-25.VALESKA ZANELLO
536 Estudos Feministas, Florianópolis, 15(3): 531-539, setembro-dezembro/2007
como já afirmamos, uma ausência de luta, de conflito (pelo
me n o s n a r e l a ç ã o ma r i d o –mu l h e r ) , f i rma n d o - s e um
apaziguamento via a homeostase funcionalidade do olhar/
funcionalidade do ser olhada. É o cego, enquanto ausência
de olhar, que abre à personagem possibilidades outras que
não a funcionalidade. É ele que lhe abre a porta, antes
evitada, do conflito. Após ‘ultrapassá-la’, Ana se dirige ao
J a r d i m B o t â n i c o , e m e s t a d o d e t o r p o r, e s p a n t o , e
admiração em face da crueza da vida: “A crueza do mundo
era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não
era o que pensávamos. [...] As árvores estavam carregadas,
o mundo era tão rico que apodrecia”.
16
Algo acontece à
personagem que nela trespassa vida, pulsão, força, crueza
pulsátil: “A piedade pelo cego era tão violenta como uma
ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu”.
17
Ana permanece nesse estado por um bom tempo.
É importante ressaltar que Clarice denomina “amor”
exatamente esse estado de ‘abertura’. Mas, enquanto
mulher, e funcionalidade mãe, Ana se lembra de seus filhos,
é fim de tarde e eles chegarão em casa... Culpa. Morte. A
personagem corre então para casa e “por um instante a
vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo
moralmente louco de viver”.
18
Seu filho corre ao seu encontro. Ana abraça-o com
força, com espanto, protegendo-se trêmula, porque “a vida
era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora
criado – amava com nojo”:
Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como
se soubesse de um mal – o cego ou o belo Jardim
Botânico? – agarrava-se a ele a quem queria acima
de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é
horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse
o chamado do cego? Iria sozinha... Havia lugares ricos
e pobres que precisavam dela. Ela precisava deles...
Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da
criança entre os braços, ouviu seu choro assustado.
Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele
rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te
esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se
afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de
onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais
recebera .
19
O olhar não é mais materno (ruptura também da
homeostase dessa função), mas de uma falta, ‘abertura’.
O filho a estranha: a “chave”, como nos diz Sartre acerca
da funcionalidade do outro, não entra, não é eficaz. “Cadê
minha mãe?”, pergunta o menino, chama-a. “Partindo-se
disso, será possível utilizá-las como for melhor aos meus
interesses, caso conheça suas ‘chaves’ e essas ‘palavras-
18
LISPECTOR, 1974, p. 28.
17
LISPECTOR, 1974, p. 28.
16
LISPECTOR, 1974, p. 27.
19
LISPECTOR, 1974, p. 29. Grifos
nossos.Estudos Feministas, Florianópolis, 15(3): 531-539, setembro-dezembro/2007 537
O AMOR (E A MULHER): UMA CONVERSA (IM)POSSÍVEL ENTRE CLARICE LISPECTOR E SARTRE
chave’ aptas a desencadear seus mecanismos”,
20
ou seja,
o retorno de Ana à sua função materna.
Acreditamos que a descrição fenomenológica que
Sartre faz da experiência do amor não dá conta da
especificidade dessa experiência de amor que Clarice
descreve e que não se inscreve na relação com o outro,
na intersubjetividade (apesar de ter sido com o outro ‘cego’
que ela se abriu, se possibilitou). Através da ausência da
funcionalidade do olhar do outro é que Ana se depara
com a vastidão, agora incabível nesse mundinho reduzido
da limpeza, do fogão, da cozinha, do marido e dos filhos:
De que tinha vergonha? Não havia como fugir. Os dias
que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água
escapava. Estava diante da ostra. E não havia como
não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era
mais piedade: seu coração enchera-se com a pior
vontade de viver.
21
A homeostase funcional é rompida: invade-lhe um
fluxo de vida intenso: possibilidades... Com medo da
intensidade do fluxo de vida pelo qual é invadida (a
experiência de amor, para Clarice Lispector), Ana dirigese para a cozinha, a fim de ajudar a empregada a preparar
o jantar. Continua invadida por essa corrente, que lhe faz
estranhar pequenos, mas intensos sinais de vida que se lhe
avizinham: aranhas, moscas, besouros, etc. Chegam o
marido, os irmãos e suas mulheres. E “apesar de ter usado
poucos ovos, o jantar estava bom”.
22
Ana tenta a todo custo
retomar seu lugarzinho anterior... Eles conversam à mesa,
riem, distraem-se. “E como a uma borboleta, Ana prendeu
o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse
seu.”
23
Quando as visitas vão embora, Ana se sente ainda
tocada pela experiência vital e brutal pela qual passou:
“O que o cego desencadeou caberia nos seus dias?
Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer
movimento seu e pisaria numa das crianças”.
24
Escuta então
um estouro na cozinha: grita assustada. Nada demais
aconteceu, apenas um pequeno acidente, normal, com
o marido que derramara café. Diz a ele que deseja que
nada lhe aconteça. Ele, é importante frisar, é ele que a
reconduz ao seu mundinho:
É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que
não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão
da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás,
afastando-a do perigo de viver. Acabara-se a vertigem
de bondade. E, se atravessara o amor e seu inferno,
penteava-se agora diante do espelho, por um instante
sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar,
24
LISPECTOR, 1974, p. 31.
23
LISPECTOR, 1974, p. 31.
22
LISPECTOR, 1974, p. 31.
21
LISPECTOR, 1974, p. 29.
20
SARTRE, 1997, p. 474.VALESKA ZANELLO
538 Estudos Feministas, Florianópolis, 15(3): 531-539, setembro-dezembro/2007
como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama
do dia.
25
O desfecho da história de Ana se dá pelo olhar-se
no espelho. Mas o que é um espelho? “É o único material
inventado que é natural. Quem olha um espelho, quem
consegue vê-lo sem se ver, quem entende que a sua
profundidade consiste em ele ser vazio [...] esse alguém
percebeu o seu mistério de coisa.”
26
Ana não vê o vazio –
contemplado e aberto pelo olho do cego – mas sua própria
imagem, reintroduzida na banalidade de seu cotidiano:
“O olhar no espelho já assinala o desdobramento do sujeito,
que se vê como um outro, objetivo e impessoal”.
27
Percebemos assim que o amor, nesse conto, se abre
para a personagem não na relação com o marido, nem
com o filho, mas no inesperado evento do cego. É talvez
na possibilidade fecunda de não ser olhada, pelo menos
de uma determinada maneira (enquanto funcionalidade
seja para a casa, a família ou para a beleza; homeostase
na qual e a qual a mulher se mantém e mantém), que
sobre espaço para a vastidão do mundo que não cabe
na redução, na aceitação ativa, que Clarice denomina
de destino de mulher e que, sem sombra de dúvidas,
poderíamos relacionar ao que Sartre denomina de má-fé.
É na falta de fundamento, e de sustento, que sua escolha,
enquanto escolha pessoal, se lhe aparece dolorosamente
c o m o m e r a p o s s i b i l i d a d e . O q u e f a z e r c o m e s s a
experiência aponta para destinos possíveis, dos quais Ana
escolhe, novamente, a funcionalidade. Destino de mulher?
É talvez uma pergunta, e uma crítica, que Clarice tenha
apontado indiretamente, sutilmente. E que outros destinos
de mulher são possíveis? É possível um destino de mulher
sem má-fé? Ou será que um destino de mulher sem má-fé
será fatalmente tachado como mascul ino em nos sa
sociedade? São questões que, a partir do conto, se
abriram...
Fazemos nossas as palavras de Cixous:
28
“Lá, mais à
frente, onde o filósofo perde o fôlego ela (Lispector)
continua, mais longe ainda, mais longe do que todo saber
[...]. Ela não sabe nada. Não leu os filósofos. Contudo, temse às vezes a impressão de ouvi-los murmurar em suas
florestas. Ela descobre tudo”.
BRANDÃO, Ruth Silviano. “A loucura feminina na letra do
texto”. In: BRANDÃO, Ruth Silviano; CASTELLO BRANCO,
Lúcia. A mulher escrita. Rio de Janeiro: Lamparina, 2004.
p. 51-57.
28
Hélène CIXOUS, 1999, p. 115.
25
LISPECTOR, 1974, p. 31.
26
LISPECTOR, 1973, p. 94.
27
NUNES, 1995, p. 107.Estudos Feministas, Florianópolis, 15(3): 531-539, setembro-dezembro/2007 539
O AMOR (E A MULHER): UMA CONVERSA (IM)POSSÍVEL ENTRE CLARICE LISPECTOR E SARTRE
CIXOUS, Hélène. A hora de Clarice Lispector. Rio de Janeiro:
Exodus, 1999.
FREUD, Sigmund. Estudos sobre a histeria (1893–1895). Rio
de Janeiro: Imago, 1974. (Edições Standard Brasileira
das Obras Completas de Sigmund Freud, v. XX).
LISPECTOR, Clarice. Água-Viva. Rio de Janeiro: Antenova,
1973.
______. Laços de família. Rio de Janeiro: José Olympio,
1974.
HELENA, Lucia. Nem musa, nem medusa: itinerários da
escrita em Clarice Lispector. Niterói: EDUFF, 1997.
IRIGARAY, Luce. Ce sexe qui n’en est pas un. Paris: Minuit,
1977.
ISAREL, Lucien. A histérica, o sexo e o médico. São Paulo:
Escuta, 1995.
NASIO, Juan. A histeria: teoria e clínica psicanalítica. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.
NUNES, Benedito. O drama da linguagem: uma leitura de
Clarice Lispector. São Paulo: Ática, 1995.
SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada. Petrópolis: Vozes, 1997.
WALDMAN, Berta. Clarice Lispector: a paixão segundo C.L.
São Paulo: Escuta, 1992.
[Recebido em maio de 2006
e aceito para publicação em fevereiro de 2007]
Abstract: The present work analyses Clarice Lispector’s story “The Love”, starting from the following
categories pointed by Sartre in Being and the Anything: to see and to be seen, functionality and
love. Starting from the experience elaborated by Clarice in her text, in which Ana – a housewife,
always busy serving her family (“pure functionality”) –, in one of her goings and comings to and
from the city, comes across a blind man chewing a chewing gum. But a blind man has an eye
that doesn’t see, it is an eye without function. It is this experience that opens to Ana the dimension
of love, in a very specific sense (which points out to the gender relationships), and for which the
phenomenological Sartre’s description seems to us somewhat limited.
ords: Love; Woman; Clarice Lispector; Sartre


4-Uma Leitura Psicanalítica da Personagem Ana em Amor de Clarice Lispector



Mara Regina Santos Rita de Cássia de Souza Moreira ¹ Adilma Nunes Rocha ²

Este trabalho tem como proposta apresentar uma análise do conto Amor de Clarice Lispector, a partir da teoria psicanalítica de Lacan.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura; psicanálise; Amor; Clarice Lispector.

Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? E que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.

(Clarice Lispector, "Amor" in. Laços de Família, 1998. p. 26-27)

INTRODUÇÃO

O conto Amor de Clarice Lispector publicado no ano de 1982 encontrado na obra Laços de Família apresenta uma temática voltada para as questões existenciais, em que a personagem protagonista Ana, em um determinado momento da sua vida cotidiana rotineira demonstra uma extrema insatisfação com a realidade a sua volta.

A partir dos estudos sobre a teoria freudiana do psicanalista francês Jacques Lacan compreendemos a questão do sujeito humano, bem como seu lugar na sociedade e sua relação com a linguagem. Desse modo, procuraremos analisar a personagem Ana segundo o que Lacan define como o estado imaginário que seria uma condição em que nos falta qualquer centro definido do eu, no qual o eu que possuímos se confunde em uma incessante troca.

Clarice Lispector conhecida por sua complexa subjetividade e seus questionamentos do mundo externo sob o interno, nos proporciona uma leitura, em seu conto Amor, da tomada

____________________________

¹ Graduandos do curso de Letras Vernáculas da Universidade do Estado da Bahia – Campus XXI, VI semestre vespertino.

² Professor orientador

de consciência de mundo da personagem protagonista. Devido a isso, enxergamos em Ana a figura de uma ser humano com aspectos psicológicos incomuns, que nos possibilita uma análise psicanalítica.

A análise psicanalítica da personagem Ana, nos proporciona um maior entendimento das questões existenciais, são monólogos interiores da personagem que se acontecem e se combinam num estilo indireto livre até por fim se encontrarem em toda obra. Teremos então uma redução dos vários universos pessoais as correntes de consciência. A obra da autora sublinha a precariedade e o nomadismo da consciência da existência entre as aleluias e as agonias de ser.

Os teóricos de base utilizados para a elaboração deste artigo, foram: EAGLETON, 2001; RALLO, 2005; SCHUITZ, 2005.

LITARATURA E PSICANÁLISE

Jacques Lacan, psicanalista francês, estudou a psicanálise, a partir da teoria freudiana. Seu foco principal era a questão do sujeito humano, seu lugar na sociedade e a relação com a linguagem, sendo que a última era a de seu maior interesse.

Lacan na tentativa de reinterpretar Freud buscou embasar-se em suas teorias estruturalistas do discurso a fim de relacioná-lacom a psicanálise. Para Lacan a criança em seu desenvolvimento ainda não distingue o sujeito do objeto, logo ela se ver no estado imaginário numa condição que não permite que se defina ou que defina seu "eu". No período pré-edipianoa criança se sente dependente do corpo da mãe e em determinados momentos ela terá instintos agressivos contra o corpo da mãe.

Conforme a teoria lacaniana a criança ainda não se reconhece no espelho momento esse conhecido como "fase do espelho", pois ela ainda se vê no imaginário e não consegue aceitar a imagem que vê no espelho como sendo sua, é nessa fase que a criança começa a construir seu "eu".

O pai representa para a criança o incesto, pois ela ao perceber a distinção dos sexos entre a mãe e o pai, se sente apenas como parte de uma relação familiar. Como de acordo com o complexo de Édipo a criança se sente atraída pela mãe, ao descobrir o papel que o pai desempenha na família, reprime seu desejo culposo, conhecido como inconsciente.

A criança refletida no espelho é como uma espécie de "significante" algo que atribui significação e resulta em significado. O significante e o significado estão unidos como um signo, a criança se vê refletida no espelho e se assemelha ao reflexo, logo para Lacan os objetos refletem-se a si mesmos uns aos outros, acriança encontra plenitude na frente do espelho e a identidade total no significado de seu reflexo, ainda não foi estabelecido nenhum "hiato" entre o significante e o significado, entre o sujeito e o mundo.

As identidades surgem em conseqüência da diferenciação e da semelhança com outros sujeitos à sua volta, assim ao passar dessa fase a criança passa do imaginário para a "ordem simbólica" que conforme Lacan é a "estrutura pré existente dos papéis sexual e social e das relações que constituem a família e a sociedade".

Um significante leva a outro, o "mundo metafórico" do espelho transfere-se ao "mundo metonímico" da linguagem. Assim a partir dos significantes produzir-se-ão significações ou significados. De acordo com Lacan entende-se por desejo o "movimento interminável de um significante para outro", o desejo nasce pela falta de algo que se tenta suprir. Desse modo, a linguagem mexe com a falta, a ausência de objetos reais indicados pelos signos. Ao partir para a linguagem, consequentemente significa estar presa ao desejo e distante do "real", do que está inacessível e fora do alcance da significação, ou seja, exterior a "ordem simbólica".

Sendo assim, o inconsciente se estrutura como a linguagem, pois além de funcionar como metáforas e metonímias, também se assemelha a concepção pós-estruturalista da linguagem, sendo composto por menos signos e significações estáveis do que significantes. Em resumo, o "inconsciente é apenas um movimento e uma atividade constante de significantes, cujos significados nos são muitas vezes inacessíveis por serem reprimidos".

ANÁLISE PSICANALÍTICA DA PERSONAGEM ANA

O conto Amor de Clarice Lispector, de forma complexa e subjetiva, fazendo uso intenso de metáforas, relata a história da personagem Ana, uma simples dona de casa entregue a uma vida de rotina, como por exemplo, cuidar dos filhos, da casa e do marido. A personagem vive cercada por situações simples e corriqueiras, mas guarda em seu inconsciente desejos que insiste em negar por considerá-los um perigo à situação segura e reconfortante que imagina viver.

Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E crescia árvores, crescia árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno dos empregados do edifico. Ana dava a tudo, tranquilamente, suas mãos pequenas e forte, sua corrente de vida.

(LISPECTOR, p. 17-18)

A personagem Ana, procurava se entregar a uma vida tranqüila e previsível, na qual não poderia haver espaços para situações inusitadas. Mas, em determinados momentos um certo desconforto. Pois havia dentro dela, sensações que ela não conseguia negar, que insistia em emergir do seu inconsciente. A personagem se perdia, mas lutava para encontrar um equilíbrio em tudo que vivia. Ana desejava algo, mas que não sabia exatamente o que era. Estava presa àquele mundo de convenções e se sentia mais segura ali, "Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantava riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se.[...]" (LISPECTOR, p. 18).

Havia momentos na vida da personagem, sentimentos que guardava dentro de si, que causavam angústias, percebemos que a personagem se sente encurralada, perdida em si mesma, o que segundo Lacan pode ser considerado como se a partir do processo de auto-análise estivesse a procura do objeto de desejo que pode ser entendido como a liberdade, algo que está além do seu eu, mas que a personagem insiste em negar.

No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Nela havia aos poucos emergido[...].

(LISPECTOR, p. 18).

Ana constroe para si uma vida que segundo ela, considera segura e reconfortante, tenta deixar de lado toda aquela inquietação que a tempos a persegue e considera um perigo, uma ameaça, um risco a vida que havia escolhido para si mesma, assim procura ver as coisas que tem como certas, concretas e seguras, contrapondo aos sentimentos insólitos que sentira em sua juventude e volta e meia desperta do seu inconsciente.

Segundo a teoria de Freud do pós-estruturalismo, revista por Lacan, a personagem está presa a fase imaginária. E mesmo com o anseio de libertar-se da mesmice na qual está condicionada, tem medo. Não consegue se aceitar e reconhecer estas sensações que volta e meia se fazem presentes em sua mente, que poderiam ser vistas como a possibilidade de mudança da personagem por uma vida na qual poderia se auto-afirmar e ser sujeito da sua própria existência. Sem se prenderaos padrões e convenções da época. Sensações estas que poderia despertar a personagem do mundo imaginário e desperte para o que Lacan classifica como "Real", que se caracteriza por aquilo que causa inquietação, por estar fora do alcance da significação.

Seria preocupação, reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto – ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido.

(LISPECTOR, p. 19)

O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e escolhera.

(LISPECTOR, p. 18-19)

Esses momentos angustiavam a personagem, pois ela se defrontava com o que considera fantasmas interiores, mas que pode ser considerado como um fluxo de consciência em que a personagem, poderia se libertar daquele mundo que a oprimia. Só que por estar presa a fase do imaginário, Ana vê como se o perigo estivesse justamente nesses momentos de perturbação psicológica.

O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto. A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego. O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles.

(LISPECTOR, p. 19)

A partir deste fragmento, percebemos que a inquietação na personagem é ainda maior, ela finalmente emerge na pessoa do cego, e Ana se vê nele, o cego representa o significante, posto por Lacan, pois ele traz a tona o que tanto perturbava a personagem, a falta de liberdade, o seu desejo de ter uma vida diferente da que havia imposto a si mesma, "Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgira-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume (LISPECTOR, p. 20).

Seu desejo de liberdade emergia-se por fim, a personagem reconhece o sentimento que a tanto a perturbara, sentimento de frustração, de não realização, percebera que tudo aquilo que lhe bastara em um determinado momento não fazia mais sentido, era a tão sozinha liberdade que ficara presa em si mesma. Tudo que vivera até agora, não era real, passou a compreender isso na figura do cego com sua indiferença, a sua presença causara um grande transtorno a Ana, e fez com que entendesse que na sua condição não se sentia realizada, estava presa as convenções sociais e deixara de viver.

A rede de tricô era áspera entre os dedos, não intima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido, não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçara ao redor. O mal estava feito. Porquê?. Teria esquecido de que haveria cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobre aviso, tinham um ar hostil, perecível... o mundo se tornara de novo um mal-estar.

(LISPECTOR, p. 21)

Neste fragmento percebemos que tudo se desconstroe ao redor da personagem, as coisas fugiram ao seu controle. Ela desperta para a realidade, e isso tudo a amedronta. Segundo Lacan, o "Real" que está causando problemas e angústias, tudo está se desorganizando a sua volta. E ela não sabe como lhe dar com essas novas sensações.

Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? E que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.

(LISPECTOR, p. 27)

A situação de desconforto, era cada vez mais intensa, todos os questionamentos emergiam em sua mente, entre assumir a sua vontade de viver uma outra realidade, de sair deste mundo de convenções ou ignorá-la e deixar as coisas seguirem na mesma linha, continuar vivendo no mundo do imaginário.

Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver. Acabara-se a vertigem de bondade. E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela soprou a pequena flama do dia.

(LISPECTOR, p. 30)

A personagem a partir do que descreve Lacan em sua teoria do pós-estruturalismo, não consegue se libertar do mundo imaginário. Acaba se prendendo ao mundo no qual já estava acostumada, por considerá-lo mais seguro.

Sendo assim, Ana não consegue assumir sua própria identidade, desse modo segundo a teoria lacaniana, a personagem possivelmente teria se identificado com o cego, pois ele representa o seu próprio reflexo, uma pessoa igualmente limitada. Assim, conforme escreve Lacan, as identidades surgem em conseqüência das semelhanças com outros sujeitos a sua volta. Logo, Ana não consegue passar da fase do imaginário para a simbólica que de acordo com a teoria psicanalítica é a estrutura pré-existente dos papéis sexuais e sociais das relações que constituem a família e a sociedade.

Diante disso, o que parecia ser um relato de uma simples experiência acaba por nos mostrar uma grande revelação. A percepção de uma realidade atordoante, quanto a questões corriqueiras do cotidiano da personagem Ana.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O nosso trabalho buscou analisar o conto de Clarice Lispector Amor, a partir da visão psicanalítica. Sabemos que o objeto de estudo da psicanálise é decifrar os enigmas da experiência humana e na literatura é de grande contribuição, pois ambas lêem o homem na sua vivência cotidiana e seu possível destino histórico.

Desse modo, a psicanálise proporciona meios que permitem uma melhor leitura da literatura ou de uma obra literária como o nosso caso. Sendo assim, a teoria a qual nos atentamos, a partir de Lacan, para analisarmos a personagem Ana foi de grande contribuição para entendermos o comportamento incomum da personagem frente a realidade e seu lugar na sociedade e no mundo.

REFERÊNCIAS

EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução. 4ª. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

LISPECTOR, Clarice. "Amor" in. Laços de Família. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

RALLO, Elizabeht. Métodos de crítica literária. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

SCHUITZ, Duane P. História da psicologia moderna. São Paulo: Pioneira Thompson Learning, 2005.


Autor: Rita Moreira




5-O mal estar do amor em Clarice:
uma releitura através de Freud e Bauman


"Desde que alberguemos uma única vez o mal, este não volta a dar-se ao trabalho de pedir que lhe concedamos a nossa confiança”.
Franz Kafka


O presente ensaio tem como proposta uma análise do conto Amor, de Clarice Lispector, a partir do olhar de dois autores que se debruçam sobre as relações entre os homens na modernidade: Sigmund Freud e Zygmunt Bauman.

O conto tem início num final de tarde em que a personagem Ana sobe em um bonde com as compras, pensando em seus filhos, sua casa, e na forma como construiu um cotidiano onde se abriga das emoções e das incertezas e reflete sobre uma vida construída de forma a não abrir espaço para grandes paixões:

“Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha – com persistência, continuidade, alegria”.

Ana represara a felicidade em busca de segurança, pois, segundo Freud, o que chamamos de felicidade seria a satisfação das necessidades, mas que só é possível como manifestação episódica.

Ana havia se tornado alguém obscuro, ou, como ela mesma se representava, alguém que “fazia parte das raízes negras e suaves do mundo”. Abolindo a incerteza e a emoção, restava apenas o cotidiano, no qual ela mergulhara para estar em segurança. Assim, Ana possuía uma vida na qual os dias se sucediam, uns iguais aos outros, e isto lhe dava tranqüilidade:

“Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida”.

Ao conter seus impulsos, Ana abdicou de grandes paixões para alcançar o que denominava de “vida verdadeira”:

“No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros”.

O refugiar-se do mundo, o isolamento voluntário, o afastamento em relação às pessoas que poderiam trazer emoções e a busca de uma vida que ela considerava sólida, a “felicidade da quietude.” (FREUD, 1987:85), na verdade, era uma forma de se proteger contra o sofrimento que pode advir dos relacionamentos humanos.

“Assim ela o quisera e escolhera”. Vivia uma vida sem grandes sobressaltos, onde tudo podia ser antecipado e controlado, onde nada de surpreendente aconteceria. Esta fora a sua escolha. Ana reduzira suas expectativas em relação à vida e à felicidade, “tal como, na verdade, o próprio princípio do prazer, sob a influência do mundo externo, se transformou no mais modesto princípio da realidade(...)”.(FREUD, 1987:85).

A tática de Ana para conseguir este afastamento consistia em não pensar, não sentir, não lamentar; simplesmente embriagar-se nas lides de dona-de-casa e de mãe. Para evitar sofrimento, insegurança e relações fugidias, Ana se refugiara no casamento, uma relação sólida, porque garantida pelo “até que a morte os separe”.

“Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto – ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. (...) E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim”.

Ana se agarrava aos objetos, às tarefas, aos deveres, para afogar seu desejo de viver e de encontrar um mundo que, ao mesmo tempo em que poderia lhe trazer prazer, também poderia significar sofrimento. A cada manhã “acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos”.[1]

Ana, na verdade, procura se preservar daquilo que Bauman identifica como o sentimento de fragilidade e de insegurança dos vínculos humanos e dos desejos conflitantes de apertar os laços e, ao mesmo tempo, mantê-los frouxos. Ana não se sente muito feliz na sua vida organizada segundo as normas da civilização, mas segundo Freud, é muito difícil formar uma opinião sobre o papel que a condição cultural desempenha nesta questão, pois segundo Freud, “ela seria a soma integral das realizações e regulamentos que distinguem nossas vidas das de nossos antepassados e animais e que servem a dois intuitos, a saber: o de proteger os homens contra a natureza e o de ajustar os seus relacionamentos mútuos”. (FREUD, 1987:97)

A maneira encontrada por Ana para garantir uma vida que ela considerava como racional, eliminando o que é considerado irrelevante no mundo moderno era o isolamento. Mas, mesmo estando ao abrigo das grandes paixões, defendida dos “perigos” do mundo pelas muralhas do cotidiano que ela havia construído e que lhe ocupava os sentidos, Ana temia perder a “segurança” e a “tranqüilidade” da vida e das relações que construíra. O que a ameaçava não era algo externo:

“Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se”.

Naquela tarde todos os perigos, todos os sentimentos voltaram. Quando o bonde parou...

“Foi então que olhou para o homem parado no ponto. A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego”.

A visão deste homem despertou em Ana todos os sentimentos que sufocara durante tanto tempo. O sentimento de amor, não um amor sexual, mas aquilo que Bauman identifica como o preceito do amor ao próximo, tendo como base a idéia de que este é o princípio fundador da humanidade e de que, sem ele, nenhum outro preceito teria sentido.

“Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgira-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível”.

Ana redescobre o amor ao próximo, o que, segundo Bauman, desafia e interpela os instintos estabelecidos pela natureza, mas também confere significado à sobrevivência por ela instituído, assim como o do amor próprio que o protege.

“O mal estava feito. Por que? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar”.

A visão do cego mascando chicletes desperta Ana para a possibilidade de um mundo ao mesmo tempo prazeroso e hostil. O mundo do mal-estar, mas também da liberdade. O mundo de todas as possibilidades, sem fronteiras ou regulamentos, do qual ela havia voluntariamente se apartado, mas que veio ao seu encontro naquela tarde. Liberdade da qual Ana havia se afastado. [2]

Amar o próximo, para Bauman, significa respeitar o valor das diferenças, que enriquecem o mundo e reconhece-lo como um lugar fascinante e agradável, abrindo espaço para todas as possibilidades e promessas. Este sentimento inundou Ana, que se sentiu acuada, porque retirada de seu esconderijo.

“O que chamara de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas”.

Ana estaria percebendo a impossibilidade de renunciar aos instintos. Tal renúncia, que, segundo Freud, domina os relacionamentos humanos, é geradora do que ele identifica como frustração cultural. (FREUD, 1987:104)

Segundo Bauman, Ana teria matado sua própria humanidade, procurado a sobrevivência ao assassinar a humanidade de outros seres humanos e, ao se defrontar com a fragilidade do cego, encarou sua própria fragilidade, a volatilidade de suas escolhas, bem como a impossibilidade de manter-se dentro de suas muralhas. Ana constatou a insegurança de sua fortaleza:

“Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite – tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca”.

Reencontrar-se com os “perigos do mundo” trouxe sobressalto

“Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite”.

Sem se dar conta, Ana entrou no Jardim Botânico:

“A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si. De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho. Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais”.

O sentimento de fragilidade tornava-se mais forte:

“Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava a terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber”.

Ana encontrava-se naquilo que Freud identificou como “um estado de sentimento imparcialmente suspenso, constante e afetuoso, que tem pouca semelhança com as tempestuosas agitações do amor genital”.O encontro com o outro, a saída do enclausuramento, levavam à sensação de que:

“A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos”.

Ana estava frente a frente com o medo do desconhecido e com a ameaça do amor ao próximo. E tudo isso, em Ana, habituada a interagir com desconhecidos, levada ao individualismo e desligada dos outros, gera pânico:

“Ao mesmo tempo que imaginário – era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega – era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante. As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada”.

A sensação de morte e as náuseas experimentadas por Ana podem ser entendidas como manifestações eróticas . [3] Ela tinha sido invadida pelo mundo que durante tanto tempo havia evitado. E a tranqüilidade do isolamento na “normalidade” foi substituída pelo medo e pela “barbárie”:

“Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos, enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia seu cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno”.

Ana tenta se refugiar na vida normal. Tenta sair do Jardim e voltar à sua casa, à sua fortaleza segura:

“Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho escuro, atingiu a alameda. Quase correndo – e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto. Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito – o que sucedia?”

Não se pode prever as ações do “outro”, e por isso ele causa medo. Sendo incerteza e insegurança, sua presença incomoda, chegando muitas vezes a ser repugnante. Contudo, o habitante da grande cidade não pode evitá-lo. Por isso as fortificações construídas para “deixar o outro do lado de fora”, excluir-se, proteger-se: são formas de tentar o distanciamento.

“Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver”.

A vontade de viver que poderia ser interpretada como um impedimento à civilização, ou o que Bauman identifica como mixofilia (atração pelo diferente) estavam em Ana. Para Bauman, o urbano é formado por uma mistura de mixofobia (pavor de estranhos) com mixofilia. O que atrai no urbano é a diferença, ao mesmo tempo em que se desenvolve o sentimento de medo e a tendência a isolar-se do outro. Estes sentimentos ambíguos estão dentro de cada habitante e se manifestavam em Ana. Poderia ser também o que Freud considerou como um agente estabelecido no interior do indivíduo pela civilização, “como uma guarnição numa cidade conquistada”.

“Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo – e que nome se deveria dar à sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar o leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo do que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão”.

Compartilhar o espaço com estranhos, viver na sua proximidade repugnante e impertinente, é uma condição que os habitantes das cidades consideram difícil, da qual não conseguem escapar. Não se pode prever as ações do “outro”, e por isso ele causa medo. Sendo incerteza e insegurança, sua presença incomoda, chegando muitas vezes a ser repugnante. Mas o habitante da grande cidade não pode evitá-lo. A proximidade de estranhos é sua sina. Faz-se necessário experimentar, tentar, testar e encontrar um modus vivendi que torne a proximidade viável e a vida possível. Todos estes sentimentos estavam presentes em Ana.

“Mas a vida arrepiava-a, como um frio. (...) As gotas d’água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror”.

Mas persiste em Ana a tentativa de distanciar-se de tudo o que a amedronta e ao mesmo tempo fascina:

“Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por que. A vida no Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! Mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala”.

Segundo Freud, a renúncia instintiva não basta, pois o desejo persiste e não pode ser escondido do superego. Por isso, este desejo também gera medo.

“Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos”.

A única forma de livrar-se deste sentimento e deste amor, para Ana, é se refugiar novamente no seu cotidiano, no mundo que construiu para si, tentando proteger-se dos outros através da formação daquilo que Bauman chamou de comunidades de semelhança: espaços fechados e protegidos onde os “iguais” se enclausuram.

“Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos. Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. (...) Depois do jantar, enfim a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu”.

A atração de uma comunidade da mesmidade é a de segurança contra os riscos de que está repleta a vida cotidiana num mundo de diversidades. Ela não anula nem afasta os riscos, mas garante abrigo em relação a alguns dos efeitos mais imediatos e temidos dos riscos. Quanto mais as pessoas permanecem num ambiente uniforme - na companhia “dos seus” onde podem socializar-se de modo superficial prosaico sem o risco de serem mal compreendidas nem a irritante necessidade de tradução entre diferentes universos de significações -, mais se tornam propensas a “desaprender” a arte de negociar uma vida compartilhada e conviver com a diversidade. Esta era a única saída para Ana.

“Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar par trás, afastando-a do perigo de viver”.

Ao se abrigar no seu mundo racional, liberta dos “malefícios” de amar o próximo, Ana superou a inquietação e estava de volta aos seus dias.

“E, se atravessara o amor e seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia”.



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Bibliografia:

BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido – sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Ed. Zahar, 2004.

FREUD, Sigmund. O Mal Estar na Civilização (1930[1929] ) in: FREUD, Sigmund. Obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1987.

LISPECTOR, Clarice. Amor. In Laços de Família. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1998.

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[1] Mas ela não volta as costas ao mundo externo; pelo contrário, prende-se aos
objetos pertencentes a esse mundo e obtém felicidade de um relacionamento emocional com eles.”(FREUD, 1987:89)”.

[2] “A liberdade do indivíduo não constitui um dom da civilização. Ela foi maior antes da existência de qualquer civilização, muito embora, é verdade, naquele, na maior parte, valor, já que dificilmente o indivíduo se achava em posição de defende-la. O desenvolvimento da civilização impõe restrições a ela, e a justiça exige que ninguém fuja a essas restrições”. (FREUD, 1987:102).

[3] “As manifestações de Eros eram visíveis e bastante ruidosas. Poder-se-ia presumir que o instinto de morte operava silenciosamente dentro do organismo, no sentido de sua destruição, mas isso, naturalmente, não constituía uma prova. Uma idéia fecunda era a de que uma parte do instinto é desviada no sentido do mundo externo e vem à luz como um instinto de agressividade e destrutividade”. (FREUD, 1987:120)
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